Cidades

Maioria defende diálogo, mas admite que já castigou criança, diz pesquisa

Estudo aponta que grande parte dos brasileiros usa gritos e tapas mesmo defendendo a conversa como principal estratégia educativa

A pesquisa ouviu 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais, em 128 municípios, entre 29 de maio e 7 de junho de 2026
A pesquisa ouviu 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais, em 128 municípios, entre 29 de maio e 7 de junho de 2026 Foto : Magnific / CP

Uma pesquisa divulgada ontem mostra uma contradição na forma como os pais educam as crianças no Brasil. De acordo com estudo "Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes", realizado pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, nove em cada dez brasileiros adultos dizem que o diálogo é a melhor forma de educar, mas a maioria admite recorrer a gritos, tapas e outros tipos de violência no dia a dia.

A pesquisa ouviu 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais, em 128 municípios, entre 29 de maio e 7 de junho de 2026. Ao serem perguntados sobre a melhor forma de educar, 91% defendem a conversa como principal estratégia.

No entanto, quando o tema passa das ideias para as experiências pessoais, o cenário é diferente: 62% admitem já ter gritado com uma criança; 49% dizem ter dado tapas; 27% afirmam ter usado objetos para bater.

"O que choca é a naturalização da violência. O brasileiro não tem receio em assumir que pode dar um tapa em uma criança. É mais normal do que os que assumem que gritam", diz Felipe Nunes, CEO da Quaest. Enquanto isso, 74% dos participantes consideram que a violência contra crianças e adolescentes aumentou nos últimos anos.

Para a diretora executiva do Infinis, Márcia Kalvon, a contradição resume o desafio diário da educação: "A pesquisa mostra que ainda existe uma lacuna significativa entre aquilo que os brasileiros consideram correto e aquilo que acontece na prática, apesar do avanço na legislação e na conscientização sobre os direitos das crianças", afirma.

Lei da palmada

Sancionada em 2014, a Lei da Palmada, também conhecida como Lei Menino Bernardo, garante a crianças e adolescentes no País o direito de serem educados sem o uso de castigos físicos ou tratamento cruel. Práticas como beliscões, puxões de cabelo e palmadas corretivas estão proibidas.

A legislação marcou um avanço para o Brasil ao alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e estimular a educação não violenta. O nome da lei é uma homenagem a Bernardo Boldrini, um menino gaúcho de 11 anos que foi assassinado por overdose de medicamentos em abril de 2014, na cidade de Três Passos (RS). O pai e a madrasta de Bernardo, além do irmão da madrasta e uma amiga, foram condenados. A regra vale para pais, integrantes da família, responsáveis ou qualquer pessoa encarregada de cuidar, educar ou tratar da criança.

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Agressão próxima

Ainda conforme o estudo, diante da cena de uma criança levando palmadas ou puxões de orelha em um espaço público, 62% dos entrevistados dizem que não fariam nada. Em 2023, na primeira edição do levantamento, 64% declararam que permaneceriam em silêncio.

Segundo o estudo, a educação dos filhos segue sendo vista como um assunto privado, em que a maioria das pessoas prefere não se envolver.

Em relação aos próprios comportamentos dos pais, de 2023 para 2026, houve uma pequena melhora. Na primeira edição do levantamento: 66% diziam já ter gritado com uma criança, agora são 62%; o porcentual dos que admitiam ter dado tapas caiu de 52% para 49%; o uso de objetos para bater registrou uma queda mais notável, passando de 38% para 27%. Já o apoio ao diálogo recuou, de 93% para 91%, mas segue amplamente majoritário.

O estudo mostra que, mesmo entre quem rejeita abertamente a violência física, há práticas que se assemelham à ameaça. Para 47% dos entrevistados, castigos que restringem o lazer são vistos como ideais e aceitáveis. Além disso, 37% consideram aceitável gritar com crianças, e 35% avaliam que é aceitável ameaçar bater, ainda que a agressão não seja concretizada.

O levantamento também associa a experiência pessoal à tolerância com punições. Quem relata ter sido mais punido na infância tende a aceitar mais a punição na vida adulta e a reproduzi-la com crianças que estão sob sua responsabilidade. No entanto, uma parte dos entrevistados rompe com o padrão aprendido e rejeita repetir o que viveu.

Para Márcia Kalvon, o objetivo é que o estudo alimente novas campanhas educativas e pressione governos a fortalecer políticas públicas de prevenção à violência. "O País já reconhece, em grande medida, que gritos, tapas e ameaças machucam. Falta transformar essa percepção em rotina, dentro de casa, na escola e nas ruas", avalia.

Caso recente

Um homem de 31 anos foi preso no dia 5, após ser flagrado chutando o rosto da filha de 3 anos em uma rua de Francisco Beltrão, no Paraná. Ele foi indiciado na segunda-feira pela Polícia Civil por lesão corporal em contexto de violência doméstica e tortura. Segundo a investigação, além da agressão que ganhou repercussão nas redes sociais, o homem também é suspeito de ter cometido outras violências contra os dois filhos, de 3 e 5 anos. O investigado permanece preso preventivamente.