Cidades

Menos de uma semana depois de voltar para casa, famílias relatam o drama de sair novamente em Lajeado

Nova elevação do Taquari obrigou moradores a retornarem ao abrigo; alguns haviam acabado de limpar as casas atingidas pela enchente da semana passada

Ademir da Silva, 44 anos, voltou ao abrigo uma semana depois de voltar para casa
Ademir da Silva, 44 anos, voltou ao abrigo uma semana depois de voltar para casa Foto : Mauro Schaefer

O alívio de voltar para casa durou poucos dias para famílias atingidas pela enchente em Lajeado. Depois de deixarem o abrigo municipal entre quinta e sexta-feira da semana passada, moradores de áreas afetadas pelo Rio Taquari precisaram novamente retirar pertences e deixar suas residências diante da nova elevação do rio. Até o início da tarde de terça-feira, 33 famílias, totalizando 79 pessoas, estavam novamente acolhidas no Parque do Imigrante.

A nova retirada começou na noite de segunda-feira, depois que a Prefeitura foi novamente mobilizada diante da elevação do Taquari. Segundo a secretária de Desenvolvimento Social, Eliana Ahlert Heberle, a decisão foi tomada após reunião no gabinete da prefeita, às 13h30min, com início da retirada no final da tarde. Inicialmente, foram priorizadas famílias de áreas que podem ser atingidas com o rio nas cotas de 20 e 21 metros, mas a possibilidade de novas remoções ainda era acompanhada nesta terça.

“Nunca podemos romantizar um abrigo. Não é um local ideal. O local ideal é cada um na sua casa”, afirmou Eliana. Segundo ela, algumas famílias que têm parentes ou outras possibilidades de acolhimento são orientadas a recorrer a essas alternativas.

Moradores de Lajeado voltam ao abrigo municipal após uma semana | Foto: Mauro Schaefer

Entre os que retornaram ao Parque do Imigrante está Ademir da Silva, 44 anos. Morador da rua Dois Irmãos, no bairro Conservas, ele vive com a esposa, que é deficiente visual, e os três filhos, com idades entre 1 e 9 anos. A família havia voltado para casa na quarta-feira, mas precisou sair novamente poucos dias depois.

Na enchente de 2024, Ademir perdeu tudo. “Não sobrou nem o alicerce da nossa casa”, conta. Depois, a família alugou outro imóvel, mas o valor ficou alto demais. A residência atual tem dois pisos, mas a parte inferior é atingida quando o rio chega à cota de 20 metros. Em uma enchente maior, como a registrada na semana passada, a água chega a alcançar o andar superior.

Há uma semana, a família teve pouco tempo para retirar os pertences. “Tiramos poucas coisas, porque foi muito rápido. Quando a gente achou que dava para tirar, estávamos dentro da água”, relata.

O sofá, a cozinha, o fogão e as camas das crianças foram perdidos ou não puderam ser recuperados. Ademir também tem problemas na coluna e afirma que a condição da esposa torna ainda mais difícil realizar a retirada sem ajuda.

No abrigo, a família também enfrentou dificuldades. O homem relata que houve goteiras que formaram poças no piso e molharam colchões. Foi necessário afastar os pertences e reorganizar o espaço para tentar evitar novos danos.

Cerca de 80 pessoas estavam abrigadas no Parque do Imigrante na tarde desta terça-feira | Foto: Mauro Schaefer

Décadas convivendo com enchentes

Na rua Borges de Medeiros, no Centro, Lindomar da Silva, 55 anos, e a esposa, Maristela da Silva, 54, também passaram novamente pela mesma situação. Eles chegaram ao abrigo na segunda-feira, depois de terem retornado para casa apenas alguns dias antes “Mandaram a gente voltar para casa na sexta. Ficamos o final de semana e ontem já tivemos que voltar para o abrigo”, conta ele, que mora no endereço desde a infância.

A casa é atingida quando o rio alcança a cota de 22 metros, mas a rua já fica sem condições de circulação antes disso. Na semana passada, a água chegou à metade da residência. Desta vez, o casal conseguiu retirar novamente os pertences antes da inundação.

Mesmo saindo, a repetição das enchentes deixou marcas que vão além dos prejuízos materiais. “É um sofrimento e um transtorno. Estamos traumatizados já. Às vezes, só de chover já ficamos com medo de ter que sair, mesmo sem previsão de enchente”, afirma.

Segundo o homem, era comum que a família precisasse deixar a casa uma ou duas vezes por ano. Depois da enchente de 2024, porém, a situação piorou. “Só neste ano já é a quarta vez que saímos”, relata.

Moradores de Lajeado voltam ao abrigo municipal após uma semana | Foto: Mauro Schaefer

Enquanto as famílias permanecem no abrigo, a Defesa Civil acompanha o comportamento do Taquari e a possibilidade de novas remoções.

Para os moradores que acabaram de retornar para casa e novamente precisaram deixá-la, resta esperar que o rio recue e que a sequência de enchentes finalmente dê uma trégua. “Agora temos que torcer que o rio baixe e que não aconteça mais nenhuma enchente nesse ano, para não termos que voltar novamente”, completa.

Veja Também