O alívio de voltar para casa durou poucos dias para famílias atingidas pela enchente em Lajeado. Depois de deixarem o abrigo municipal entre quinta e sexta-feira da semana passada, moradores de áreas afetadas pelo Rio Taquari precisaram novamente retirar pertences e deixar suas residências diante da nova elevação do rio. Até o início da tarde de terça-feira, 33 famílias, totalizando 79 pessoas, estavam novamente acolhidas no Parque do Imigrante.
A nova retirada começou na noite de segunda-feira, depois que a Prefeitura foi novamente mobilizada diante da elevação do Taquari. Segundo a secretária de Desenvolvimento Social, Eliana Ahlert Heberle, a decisão foi tomada após reunião no gabinete da prefeita, às 13h30min, com início da retirada no final da tarde. Inicialmente, foram priorizadas famílias de áreas que podem ser atingidas com o rio nas cotas de 20 e 21 metros, mas a possibilidade de novas remoções ainda era acompanhada nesta terça.
“Nunca podemos romantizar um abrigo. Não é um local ideal. O local ideal é cada um na sua casa”, afirmou Eliana. Segundo ela, algumas famílias que têm parentes ou outras possibilidades de acolhimento são orientadas a recorrer a essas alternativas.
Entre os que retornaram ao Parque do Imigrante está Ademir da Silva, 44 anos. Morador da rua Dois Irmãos, no bairro Conservas, ele vive com a esposa, que é deficiente visual, e os três filhos, com idades entre 1 e 9 anos. A família havia voltado para casa na quarta-feira, mas precisou sair novamente poucos dias depois.
Na enchente de 2024, Ademir perdeu tudo. “Não sobrou nem o alicerce da nossa casa”, conta. Depois, a família alugou outro imóvel, mas o valor ficou alto demais. A residência atual tem dois pisos, mas a parte inferior é atingida quando o rio chega à cota de 20 metros. Em uma enchente maior, como a registrada na semana passada, a água chega a alcançar o andar superior.
Há uma semana, a família teve pouco tempo para retirar os pertences. “Tiramos poucas coisas, porque foi muito rápido. Quando a gente achou que dava para tirar, estávamos dentro da água”, relata.
O sofá, a cozinha, o fogão e as camas das crianças foram perdidos ou não puderam ser recuperados. Ademir também tem problemas na coluna e afirma que a condição da esposa torna ainda mais difícil realizar a retirada sem ajuda.
No abrigo, a família também enfrentou dificuldades. O homem relata que houve goteiras que formaram poças no piso e molharam colchões. Foi necessário afastar os pertences e reorganizar o espaço para tentar evitar novos danos.
Décadas convivendo com enchentes
Na rua Borges de Medeiros, no Centro, Lindomar da Silva, 55 anos, e a esposa, Maristela da Silva, 54, também passaram novamente pela mesma situação. Eles chegaram ao abrigo na segunda-feira, depois de terem retornado para casa apenas alguns dias antes “Mandaram a gente voltar para casa na sexta. Ficamos o final de semana e ontem já tivemos que voltar para o abrigo”, conta ele, que mora no endereço desde a infância.
A casa é atingida quando o rio alcança a cota de 22 metros, mas a rua já fica sem condições de circulação antes disso. Na semana passada, a água chegou à metade da residência. Desta vez, o casal conseguiu retirar novamente os pertences antes da inundação.
Mesmo saindo, a repetição das enchentes deixou marcas que vão além dos prejuízos materiais. “É um sofrimento e um transtorno. Estamos traumatizados já. Às vezes, só de chover já ficamos com medo de ter que sair, mesmo sem previsão de enchente”, afirma.
Segundo o homem, era comum que a família precisasse deixar a casa uma ou duas vezes por ano. Depois da enchente de 2024, porém, a situação piorou. “Só neste ano já é a quarta vez que saímos”, relata.
Enquanto as famílias permanecem no abrigo, a Defesa Civil acompanha o comportamento do Taquari e a possibilidade de novas remoções.
Para os moradores que acabaram de retornar para casa e novamente precisaram deixá-la, resta esperar que o rio recue e que a sequência de enchentes finalmente dê uma trégua. “Agora temos que torcer que o rio baixe e que não aconteça mais nenhuma enchente nesse ano, para não termos que voltar novamente”, completa.