Cidades

Mulheres atingidas pelas enchentes no RS recebem treinamento para atuação em emergências climáticas

Objetivo da ação é formar líderes femininas em comunidades afetadas pelas inundações e melhorar resposta a desastres naturais que venham a ocorrer no futuro

Formação ocorrerá em 13 encontros; aula inaugural foi realizada na tarde desta sexta-feira
Formação ocorrerá em 13 encontros; aula inaugural foi realizada na tarde desta sexta-feira Foto : Wendy Chiabote / DPE / Correio do Povo

As recentes inundações ocorridas no Rio Grande do Sul demandam ações para a mitigação de seus efeitos e a preparação das comunidades atingidas para possíveis eventos futuros. Com esta meta, 40 mulheres de Porto Alegre e do interior do Estado começaram nesta sexta-feira uma capacitação para atuação em emergências climáticas.

A formação é oferecida pela Themis - Gênero, Justiça e Direitos Humanos, dentro do projeto Promotoras Legais Populares (PLPs), a mulheres residentes em regiões periféricas afetadas pelas cheias e que desempenham papel de liderança em suas comunidades. Durante 13 encontros, elas serão preparadas para discutir e multiplicar, com atenção especial às demandas das mulheres, as temáticas meio ambiente e sustentabilidade, buscando oferecer resposta mais assertiva e rápida em situações de emergência ligadas ao clima.

Conforme a organização, esta é a primeira formação sobre o tema direcionada especificamente às PLP. “No mundo todo, os comitês de crise são formados essencialmente por homens, e são eles quem definem as prioridades. É preciso dar protagonismo às mulheres para priorizar e construir com a sociedade civil e demais movimentos as estratégias necessárias para mitigar os problemas que a população vem enfrentando no Rio Grande do Sul”, afirma a diretora executiva da Themis, Márcia Soares.

A aula inaugural contextualizou o histórico de como se chegou ao desastre climático em maio de 2024 no RS. Os encontros seguintes abordarão conceitos e perspectivas de justiça climática, violência de gênero e racismo ambiental, os desastres climáticos pelo mundo e a experiência de atuação no Rio Grande do Sul, além dos regulamentos internacionais sobre o tema. A formatura ocorrerá em 14 de dezembro.

Deste curso, conforme a diretora executiva da Themis, resultarão protocolos de ações adaptados às realidades e vivências das participantes, com foco na promoção da justiça climática e cuidados com mulheres e demais grupos minoritários. “O protocolo deve fortalecer a autonomia e a resiliência destas mulheres, promovendo ações preventivas, de resposta e de reconstrução, que as protejam em situações de vulnerabilidade climática, ampliando suas vozes e lideranças nas decisões que impactam suas vidas e comunidades”, explica Márcia.

A iniciativa é realizada pela Themis, com apoio do Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul, Care, Igual Valor, Iguais Direitos, Womanity, Instituto Ibirapitanga, Cummins, Global Fund for Women e Fundação Ford.

Mulheres e as tragédias climáticas

De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, as mulheres correspondem a 72% das pessoas que vivem em condições de extrema pobreza em todo o mundo. Por isso, estão mais expostas aos eventos da emergência climática.

Dois destes casos vêm do Sarandi, bairro da zona Norte e um dos mais afetados pela inundação na Capital. A professora Denise Santos de Oliveira e a diarista Deise Santos Rodrigues 52 anos perderam tudo em suas casas. Do chão ao telhado, as moradias necessitam ser reconstruídas, mas, após quatro meses, elas ainda demandam ajuda para retomar as vidas.

“Além dos objetos pessoais, dos móveis e das minhas memórias, trabalho com contação de histórias afro e dos povos originários. Tinha muito conteúdo, roupas, fantoches; perdi tudo”, diz Denise.

Mãe de cinco filhos, Deise é pedagoga, mas abriu mão da profissão para cuidar da filha de 8 anos, com paralisia cerebral. “Voltei para casa com ajuda de doações, mas até hoje não consegui recuperar as paredes da casa, não tenho dinheiro para recomeçar”, lamenta.

De acordo com Organização das Nações Unidas (ONU), embora as mulheres e meninas representem cerca de 80% das pessoas deslocadas pela mudança climática e por desastres naturais, o tema é debatido majoritariamente por homens. Em 2020, apenas 15 dos 133 líderes mundiais que participaram da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP) 28 eram mulheres.