Na madrugada desta segunda-feira, cerca de 500 mulheres sem-terra ocuparam uma área de 400 hectares da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro) em São Gabriel (RS). A ação integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem-Terra que acontece entre os dias 8 e 12 de março, com atividades que mobilizam as mulheres Sem-Terra dos acampamentos e assentamentos de todo o país.
Com o lema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!”, os atos em nível nacional têm como foco denunciar a paralisação da Reforma Agrária pelo Estado brasileiro. No RS, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) também quer chamar a atenção para a necessidade de o governo de Eduardo Leite retomar a negociação de áreas para assentamentos e reassentamentos, conforme prometeu em reunião em maio do ano passado.
De acordo com a assessoria do MST no RS, uma parte das mulheres conseguiu chegar até a área, fez a ocupação e já começa a montar estruturas para permanecer no local. Outro grupo segue bloqueado pela Brigada Militar (BM). A informação diverge da força de segurança que está no local. De acordo com o comandante do 2º Regimento de Polícia Montada, tenente-coronel Aníbal Silveira, que faz a segurança do terreno da Fepagro, a BM conseguiu fazer a contenção e não ocorreu a ocupação.
Segundo a integrante da direção nacional do MST, Lara Rodrigues, após diversas reuniões e tentativas de resolver a questão das famílias acampadas e também o reassentamento das famílias atingidas pela enchente em maio de 2024, o movimento aguarda que o Incra e o governo do Estado resolvam a demanda.
“Com essa ocupação, queremos dizer ao governador que aceitamos a proposta do assentamento nas áreas da Fepagro. Já podemos ir pra lá com as famílias acampadas do RS”, destacou. De acordo com o movimento “após a Brigada Militar (BM) segurar os ônibus, as mulheres entraram em marcha na área” e conseguiram chegar até o local da manifestação.
São Gabriel, uma região simbólica da luta pela terra
Rodrigues afirma que a área de São Gabriel é simbólica para o movimento, além de ser a maior da Fepagro. “São Gabriel ficou marcada pela marcha de 2003 e também pelo assassinato do nosso companheiro Elton Brum da Silva, em 21 de agosto de 2009, pela Brigada Militar com um tiro de calibre 12 pelas costas, em uma das mais violentas ações de reintegração de posse de um latifúndio improdutivo, a Fazenda Southall.”
O município conta atualmente com 10 assentamentos, mais de 740 assentadas e assentados. Cerca de 100 produtores produzem para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Quartéis e cooperativas. Já 250 famílias produzem leite, grãos, feijão, milho, arroz, mel e carne. Além disso, todas as famílias assentadas produzem alimentos para a subsistência da família em algum nível. Também participam de diversas feiras na cidade, tocadas em sua maioria pelas mulheres, além de uma diversidade de artesanatos produzidos pelas assentadas.
Espaço de acolhimento e geração de renda
Segundo a integrante da coordenação nacional do MST Sílvia Marques, além de beneficiar centenas de famílias e produzir alimento saudável na área, o movimento pretende destinar em torno de 10 hectares para construir um espaço de acolhimento e geração de renda para as mulheres.
“Queremos acolher as companheiras que são violadas, violentadas e que, às vezes, não tem para onde ir. E não só, mas também aquelas que precisarem de um espaço para poder morar, produzir, gerar renda, ter uma vida digna. Cuidando da vida e cuidando uma das outras”, ressaltou Marques.
Segundo ela, as mulheres sem-terra querem demarcar com essa ocupação a luta de todo o movimento feminista contra os feminicídios. “Já são mais de 20 feminicídios só neste ano no RS. A gente precisa ter espaços também para receber essas mulheres e que elas possam ter uma geração de renda, que elas possam ter agroindústrias, ter produção para produzir vida e produzir dignidade.”
Além do tema central da luta pela terra, as atividades do Dia Internacional das Mulheres também vão exigir o combate ao feminicídio, o fim da escala 6X1, a igualdade salarial e valorização da Política Nacional do Cuidado.
Secretaria da Agricultura acompanha o caso
A Secretaria Estadual de Agricultura enviou uma breve nota informando que acompanha a evolução da situação para tomar as medidas necessárias para zelar o patrimônio estadual zelado.
"A Brigada Militar vinha monitorando os integrantes do MST há dias e deslocou efetivo para o local, impedindo qualquer tipo de confronto e a ocupação da área por cerca de 350 manifestantes em 15 ônibus e 10 veículos leves. Além disso, a Secretaria da Agricultura está acompanhando o caso e avaliará as medidas cabíveis para o zelo do patrimônio público", revelou em nota.