“Já convivemos com enchentes, mas ninguém estava preparado para um evento daquela dimensão. Perdemos vidas. Famílias perderam suas casas. Empresas foram destruídas. Parte da nossa cidade precisou ser reconstruída. Foi uma experiência muito dolorosa, mas que nos obrigou a aprender e a mudar”. O relato do prefeito de Muçum, Amarildo Baldasso, ajuda a entender que a vida no Rio Grande do Sul nunca mais foi a mesma desde o dia 4 de setembro de 2023.
A cheia, que afetou principalmente o Vale do Taquari, foi a primeira de uma série de três grandes inundações em poucos meses. Desde então, resiliência, bacia hidrográfica, mancha de inundação, plano de contingência e muitos outros termos relacionados com o enfrentamento de eventos climáticos passaram a entrar na rotina dos gaúchos após a primeira quinzena daquele mês, há exatos dois anos.
Bairros inteiros foram destruídos. Estruturas que aproximavam comunidades foram levadas pela força da água. E o receio de como lidar durante uma nova tragédia passou a nortear ações. “Foi uma tragédia que deixou marcas profundas, mas que também transformou a forma como as pessoas passaram a lidar com o risco”, completou o prefeito de Roca Sales, Jones Wunsch.
Tragédia de 2023 em números
Na tragédia de setembro de 2023, 54 pessoas perderam a vida, de acordo com a Defesa Civil Estadual, o maior número de óbitos por desastres naturais no RS desde 1980 até então. Além disso, quatro pessoas ainda são consideradas como desaparecidas pelo órgão em decorrência do desastre natural. O número de óbitos foi superado meses depois, na enchente histórica de maio de 2024, quando mais de 180 morreram em todo o RS.
Um levantamento do governo do Estado aponta que mais de 400 mil pessoas foram afetadas pela enchente. Ao todo, 107 municípios gaúchos registraram algum tipo de dano, sendo que 79 deles decretaram estado de calamidade pública. A região do RS que mais sofreu com a enchente de setembro de 2023 foi o Vale do Taquari. Apenas as cidades de Muçum, Encantado, Roca Sales, Lajeado e Cruzeiro do Sul contabilizaram mais da metade das mortes, com 41 óbitos ao todo.
Conforme a Confederação Nacional de Municípios (CNM), o desastre natural registrado em setembro de 2023 causou cerca de R$ 1,3 bilhão em prejuízos econômicos. Em Lajeado, a prefeitura estima que teve 16% do seu território atingido pela cheia. Apenas em Encantado e em Muçum, a inundação causou um prejuízos de R$ 289,7 milhões e R$ 231 milhões, respectivamente.
O pico da enchente do rio Taquari foi registrado em Estrela no dia 6 de setembro, quando o rio atingiu o nível de 29,62 metros. Essa foi a terceira maior medição da história do rio, ficando atrás apenas da enchente de 1941, quando atingiu 29,92 metros, e da enchente de maio de 2024, quando registrou a marca histórica de 33,66 metros em Lajeado e Estrela.
Tudo mudou desde 2023
Na visão de prefeitos de cidades do Vale do Taquari, a tragédia de setembro de 2023 foi o ponto de partida para uma mudança de consciência sobre a percepção de risco a eventos climáticos extremos. Para o prefeito de Muçum, não apenas o município, mas toda a região passou a trabalhar com maior atenção ao nível de rios, nos alertas emitidos, na organização de equipes e no planejamento para retirada de famílias que vivem em áreas de risco.
“Isso fez diferença nos eventos que vieram depois, a ponto de não registrarmos mais nenhuma morte desde então. Setembro de 2023 mudou para sempre a nossa forma de enxergar os eventos climáticos. O principal ensinamento foi entender que a prevenção precisa fazer parte permanentemente da rotina. Ninguém gosta de aprender dessa maneira, pois o preço que Muçum pagou foi muito alto, mas temos a responsabilidade de transformar o que vivemos em segurança para o futuro”, constatou Baldasso.
Entendimento parecido teve o prefeito de Roca Sales, Jones Wunsch. Para ele, a cheia mudou a postura como a comunidade lida com as informações relativas ao clima. “Foi uma tragédia que deixou marcas profundas, mas que também transformou a forma como as pessoas passaram a lidar com o risco. Esse aprendizado ficou evidente já no evento seguinte, em maio de 2024. Na área urbana, uma das mais atingidas em 2023, não houve vítimas fatais, pois as pessoas reagiram rapidamente”, completou.
Ele lamenta, no entanto, que o fato da cidade ter registrado óbitos na área rural em maio do ano seguinte, em decorrência de deslizamentos de terra, algo considerado novo para o município. “Foram registradas mais de 400 cicatrizes de deslizamento em toda a extensão territorial de Roca Sales. Por ser um fenômeno até então incomum nessa escala, isso reforça a necessidade de incorporar essa nova ameaça ao planejamento de prevenção e ao monitoramento do território”, salientou.
Para o prefeito de Encantado, Jonas Calvi, a principal lição aprendida no evento é que a prevenção inicia antes do rio subir. Ele destaca ainda a necessidade de trabalhar a prevenção e o planejamento de ações de forma articulada entre o município, região, Estado, União e demais órgãos competentes.
“A enchente de setembro de 2023 foi um divisor de águas. Aquele evento intensificou nossos esforços. As enchentes que ocorreram depois, especialmente em 2024, reforçaram que a gestão de risco não pode ser tratada apenas durante a emergência. Ela precisa se transformar em uma política pública contínua, envolvendo habitação, drenagem, planejamento urbano, assistência social, infraestrutura e preparação das equipes”, apontou.
A prefeita de Lajeado, Gláucia Schumacher, reforça ainda que a enchente de setembro de 2023 acendeu o alerta na região de que cheias de grandes proporções do rio Taquari poderiam voltar a ser registradas, como de fato ocorreu. “As cheias, que até então provocavam principalmente a retirada temporária das famílias de suas casas, passaram a produzir também destruição física de imóveis e, tragicamente, óbitos”, disse.
Gláucia, que também é presidente da Associação dos Municípios do Vale do Taquari (Amvat), destacou que a gravidade da situação refletiu em uma mudança de patamar na percepção do risco, gerando adequações no plano de contingência de Lajeado. “Foi um cenário novo para a cidade e gerou a necessidade de buscar alternativas habitacionais para famílias que perderam suas moradias”, completou.
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Reconstrução pós cheia
Os impactos estruturais causados pela cheia, em especial no Vale do Taquari, obrigaram um movimento de reconstrução nos municípios. Por outro lado, esse processo de retomada não poderia seguir os mesmos limiares anteriores. “Entendemos que não poderíamos simplesmente reconstruir a cidade como ela era antes. Era preciso torná-la mais segura e preparada para os eventos que podem acontecer no futuro”, considerou Baldasso, prefeito de Muçum.
Os prefeitos das cidades do Vale do Taquari destacam as mudanças que vêm sendo realizadas na habitação, com o mapeamento de áreas de risco e a retirada de famílias que viviam nestes locais. Em Muçum, Baldasso conta que, até o momento, 80 famílias já receberam novas moradias fora da área de risco e, em setembro, outras 22 deverão receber suas casas. Além disso, a cidade está avançando em projetos de novos loteamentos em locais seguros e com a infraestrutura necessária.
“E já conseguimos perceber o resultado dessa mudança. Na última cheia, em julho deste ano, o rio voltou a atingir a cota de inundação. Tivemos 12 residências atingidas e 18 famílias retiradas preventivamente. Alguns anos atrás, em uma cheia nas mesmas proporções, estaríamos com uma centena de famílias que precisariam ser mobilizadas. Isso mostra, na prática, o quanto retirar as pessoas das áreas mais vulneráveis representa segurança e tranquilidade quando o rio volta a subir”, ressaltou.
Essa preocupação também refletiu na economia da cidade. “Muitos empresários perderam praticamente tudo nas enchentes, e manter essas empresas em Muçum também era fundamental para preservar empregos e permitir que a cidade se reerguesse. Por isso, trabalhamos na destinação de terrenos para empresários atingidos, possibilitando que empreendimentos deixassem áreas vulneráveis e pudessem reconstruir suas atividades em locais mais seguros”, explicou.
Em Lajeado, a prefeita conta que, quase três anos depois da primeira de três grandes enchentes, muitas famílias já foram contempladas e estão vivendo em novas residências, enquanto outras aguardam a conclusão das novas unidades habitacionais em áreas seguras, prevista para ocorrer até o final de 2026. Ela salienta ainda que a cheia de 2023 provocou prejuízos pontuais, que foram rapidamente restabelecidos.
“O principal legado foi a necessidade de repensar a ocupação das áreas mais expostas e oferecer alternativas para que as famílias possam deixar definitivamente os locais de maior risco. Infelizmente, até o momento, não existem soluções estruturais capazes de eliminar as cheias no Vale do Taquari. Por isso, precisamos trabalhar em duas frentes: reduzir a exposição da população ao risco e estar preparados para responder rapidamente quando uma cheia ocorrer”, afirmou.
Ainda como planejamento urbano para habitação, a prefeitura de Lajeado está promovendo o reassentamento de famílias que vivem em áreas historicamente atingidas por cheias. “É nesse contexto que lançamos o Plano de Desocupação e Resiliência Climática das Zonas de Inundação, que estabelece como meta retirar, até 2029, todas as residências situadas até a cota 24 (metros), realocando essas famílias em locais seguros. Historicamente, mais de 70% dos eventos de cheias registrados em Lajeado atingem essa faixa de cota”, complementou Gláucia.
Em Roca Sales, o prefeito Jones Wunsch reforça que os trabalhos de reassentamento de famílias seguem em andamento. Segundo ele, os locais antes ocupados por casas deverão ser transformados em equipamentos públicos. “O objetivo é preparar esses espaços para intervenções futuras de baixo custo, como parques, praças, quadras esportivas e demais áreas de lazer e esporte, de modo a evitar a reocupação e devolver esses locais à cidade com um novo uso”, pontuou.
Em Encantado, 330 moradias estão sendo viabilizadas através de diferentes programas habitacionais federais e estaduais, contou o prefeito Jonas Calvi. Além disso, outras 213 famílias já foram contempladas pelo Compra Assistida e outras cinco moradias foram entregues através de parcerias com entidades filantrópicas da região, totalizando 548 soluções encontradas para famílias atingidas nas cheias dos últimos anos.
“Parte da reconstrução física já foi realizada, mas o processo de reassentamento das famílias e reorganização territorial continuará sendo uma das nossas prioridades. Não se trata de desocupar indiscriminadamente todas as áreas próximas ao rio, mas de identificar tecnicamente os locais vulneráveis e oferecer alternativas seguras para os moradores”, considerou o prefeito.
No entendimento dos prefeitos, eventos climáticos extremos são inevitáveis. Entretanto, a partir do planejamento urbano e da organização de ações, é possível mitigar seus impactos. “A realidade que aprendemos com (as cheias de) 2023 e 2024 é que não podemos impedir que a chuva aconteça, mas podemos reduzir a quantidade de pessoas expostas, melhorar nossa capacidade de resposta e tornar a cidade mais resiliente diante de novos eventos”, concluiu a prefeita Gláucia Schumacher, que também é presidente da Amvat.
O que causou a tragédia
De acordo com a MetSul Meteorologia, a enchente de setembro de 2023 teve origem em uma frente fria, cuja interação com uma área de baixa pressão atmosférica intensificou severamente as tempestades entre os dias 3 e 5 daquele mês. O instituto ressalta que um ciclone extratropical também se formou sobre o oceano Atlântico, mas seu principal efeito ocorreu após as tempestades violentas com grandes volumes de água sobre o RS que causaram a enchente.
A MetSul aponta que o El Niño em 2023-2024 também contribuiu para um padrão atmosférico favorável a períodos de chuva muito acima da média na Região Sul. O meteorologista da MetSul Luiz, Fernando Nachtigall, explica que a chuva foi excepcionalmente volumosa e concentrada em poucos dias, atingindo principalmente as áreas de cabeceira da Bacia do Taquari-Antas, na Serra Gaúcha e nos Campos de Cima da Serra.
“A concentração da precipitação ao longo da bacia e nas nascentes foi determinante para a rápida elevação do Rio Taquari, já que a água escoou das áreas de relevo acidentado em direção ao vale. O problema, portanto, não foi apenas a quantidade total de chuva, mas também onde ela caiu e a velocidade com que essa água passou a alimentar os cursos d’água”, reforçou o meteorologista sobre a tragédia de setembro de 2023.
Nachtigall salienta ainda que a configuração geográfica da Bacia do Taquari-Antas ampliou os efeitos da enchente, pois funciona como um grande sistema de convergência, fazendo com que a água precipitada em uma extensa área seja direcionada para o rio Taquari. A forte declividade entre a Serra e o vale acelera o escoamento, fazendo a onda de cheia avançar rapidamente para municípios como Santa Tereza, Muçum e Roca Sales.
“Ao chegar às áreas mais baixas, o enorme volume de água encontra uma calha que não consegue comportar instantaneamente todo o fluxo vindo de montante, provocando elevações abruptas do nível do rio, de vários metros em poucas horas, e uma inundação de caráter extremamente rápido e destrutivo”, afirmou.
Com um El Niño já intenso e que vai ganhar ainda muita força até o fim de 2026, o meteorologista destaca que o risco do Vale do Taquari enfrentar novas enchentes é considerado uma certeza. O período mais crítico neste ano ocorre entre setembro e dezembro, No próximo ano, a possibilidade maior é entre abril e maio, ainda pela influência do El Niño. “A pergunta não é se haverá enchente, mas quantas”, finalizou o meteorologista.