Entre os 236 piquetes do Acampamento Farroupilha, centenas de histórias ajudam a manter viva a tradição gaúcha em Porto Alegre. São trajetórias construídas ao longo de décadas, muitas vezes por famílias e grupos de amigos que encontram no evento uma forma de preservar costumes e também de reunir novas gerações em torno da cultura gaúcha. Uma dessas histórias é a de Isidoro Schwarzer, 56 anos, natural de Crissiumal e morador da Capital há 36 anos.
Gerente de vendas durante o restante do ano, Schwarzer mantém uma relação direta com o Acampamento Farroupilha há 31 anos. A história começou em 1995, quando seis amigos decidiram formar o Piquete Desgarrados do Partenon. No início, porém, a estrutura era apenas o ponto de partida de um projeto que exigiria muito trabalho. “Eu sempre dizia que o pensamento deveria ser de que o piquete não seria nosso, mas do público que iria nos visitar, porque teríamos que trabalhar. Temos que fazer o almoço, assar carne e atender as pessoas”, lembra.
Segundo ele, a expectativa de alguns dos integrantes era diferente. Com o passar dos anos, os parceiros foram deixando o projeto, enquanto Schwarzer assumiu partes do piquete até ficar sozinho na condução da estrutura. Há oito anos, é ele quem mantém o espaço.
A rotina exige trabalho antes mesmo de o público chegar. Preparar as refeições, organizar os eventos e garantir a carne para os pratos servidos durante a programação fazem parte da rotina. Para Schwarzer, porém, a atividade vai além de uma fonte de renda. “Eu gosto muito de fazer tudo isto. Na verdade, eu sempre digo que, se tu não gostas de trabalhar aqui, tu não ficas”, afirma.
A comida acabou se tornando uma das marcas do Desgarrados do Partenon. O feijão campeiro, preparado com diferentes partes do porco, está entre os pratos procurados por quem frequenta o espaço. O proprietário conta que cria os próprios porcos e procura manter os ingredientes utilizados nas receitas tradicionais. “Às vezes, as pessoas vêm aqui só para comer feijão, justamente por causa desses ingredientes que a gente coloca”, relata.
A programação também inclui pratos preparados em dias específicos. Entre eles estão galinha caipira com massa, garrão de porco com mandioca e o tradicional costelão. Para algumas ocasiões, a busca pelos ingredientes leva Schwarzer para outras cidades. Um dos exemplos é o joelho de porco utilizado em uma das preparações, que precisou ser buscado em Sananduva, no Noroeste do Estado.
É dessa forma que ele pretende fazer os costumes chegarem à próxima geração. O neto, de dois anos e meio, já começa a acompanhar a rotina do avô. A proximidade com o fogo, em especial, chama a atenção do menino. “Ele não pode ver um fogo que já está aí na volta. Então, a gente vai tocando, ensinando desde pequeno, para que o guri também mantenha a tradição”, destaca.
Agenda cheia e muito trabalho
A movimentação de grupos e eventos também passou a fazer parte da trajetória do piquete. Aniversários, encontros de empresas e excursões estão entre as atividades recebidas durante o Acampamento Farroupilha. Segundo ele, a procura aumentou nos últimos anos a ponto de a agenda não comportar toda a demanda. Há casos em que até três eventos ocorrem na mesma noite.
Entre os grupos que frequentam o espaço estará uma comitiva de Paraí, na região Nordeste do Estado. O grupo chegará a Porto Alegre com 48 pessoas para acompanhar a programação. A relação construída a partir do piquete também levou atividades para fora da Capital, em uma aproximação que Schwarzer considera parte do caminho para manter a tradição.
O trabalho começa cedo nos dias de maior movimento. Em 7 de setembro e 20 de setembro, datas tradicionais do calendário do Acampamento Farroupilha, Schwarzer prepara uma estrutura que exige horas de antecedência. São colocados no fogo dois porcos, duas ovelhas e 12 costelões. O preparo começa por volta das 4h para que as carnes estejam prontas ao meio-dia.
É uma rotina que se repete há décadas e que, para Schwarzer, ajuda a explicar por que continua voltando ao Acampamento Farroupilha. Aos 56 anos, ele já não divide o comando do piquete com os cinco amigos que iniciaram a história em 1995, mas mantém a estrutura, o trabalho e os costumes. “Minha expectativa nesse ano é muito boa, com adenda cheia. E agora ainda mais especial, com o netinho na volta. Então também já vamos ensinando alguma coisita para o guri, passando a tradição”, conclui.