Porto Alegre completa 254 anos nesta semana com grandes desafios na área de mobilidade urbana. Com mais de 932 mil veículos em circulação em 2024, de acordo com dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Capital convive com diversos modais, mas enfrenta problemas históricos no deslocamento, além de mortes no trânsito que, entre janeiro e fevereiro deste ano, alcançaram o pior índice da última década, de acordo com a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).
Há, na população, um sentimento ambíguo quanto à qualidade do serviço de transporte coletivo, que, no final do ano passado, registrava uma média de 559 mil passageiros, bem como 13 mil viagens, ambos por dia útil. A pesquisa do Programa QualiÔnibus, da WRI Brasil, correspondente a 2025, mostrou que usuários avaliam o sistema de maneira geral com nota 5,7 de 10, queda de 0,2 pontos sobre a aferição de 2024.
Entre os aspectos desagregados, a melhor nota ficou com a forma de pagamento e recarga, com 6,9, enquanto a pior foi dada ao item exposição ao ruído e poluição, com 3,8. A maioria dos itens foi pior avaliada na pesquisa mais recente em relação à anterior. “Na nossa visão, o passageiro acabou na verdade se tornando mais exigente. Desde 2022, quando lançamos o programa Mais Transporte, vemos imprimindo um esforço enorme para recuperar um passado de não investimento no sistema. Nossa frota acabou sucateando mesmo”, salientou o secretário municipal de Mobilidade Urbana (SMMU), Adão de Castro Júnior.
Ele destacou a inclusão de 538 novos ônibus na frota, elevando o total para 1,2 mil veículos. “Evidentemente, estamos tentando também trazer o usuário de volta, e vem retornando. Havia 10 milhões de passageiros em 2022, e hoje são 14 milhões. Automaticamente, vem exigindo melhores condições. Porém temos reformado os terminais, corredores de ônibus, colocadas paradas novas, temos o Fórum de Segurança que reduziu a quase zero os assaltos, então hoje não é mais tão inseguro quanto no passado”, acrescentou ele.
De qualquer maneira, a Prefeitura busca ser mais digital neste aspecto. Conforme o secretário Adão, vem aí um novo aplicativo em fase piloto, sem cursos para o município, que deverá integrar diferentes modais, permitindo que o usuário acompanhe e planeje seu deslocamento em ônibus, patinetes, bicicletas e táxis em uma única plataforma. O lançamento deverá ocorrer em abril. “Diria que Porto Alegre terá um futuro muito mais tecnológico e mais conectado nesta questão da mobilidade urbana”, encerrou Adão.
Em 2026, Capital elevou pelo segundo ano seguido a tarifa do transporte coletivo, agora para R$ 5,30, R$ 0,30 acima do preço de 2025, que, por sua vez, não havia sofrido reajuste havia quatro anos. Mas a mobilidade urbana é um conjunto de modais, e a cidade foi elencada como apresentando o terceiro menor índice, entre dez capitais, de pessoas utilizando o ônibus para se deslocar ao local de trabalho em 2022, conforme o Censo do IBGE, com 28,5%. Não por acaso, é o terceiro maior índice de pessoas que usam o automóvel para este trajeto, com 42,6%.
"Porto Alegre vai enxugando gelo e sendo reativa nesta área”, diz especialista
A adesão de meios de transporte como o patinete e a bicicleta, soma-se a outras formas de deslocamento, como os táxis, transporte por aplicativo e lotações, este último vivenciando uma crise sem fim desde, ao menos, a pandemia da Covid-19. Para o professor Júlio Celso Borello Vargas, do Departamento de Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutor em Engenharia de Transportes pela mesma instituição, há pouco o que se celebrar no quesito da mobilidade no aniversário da Capital.
“Há uma pretensão de que haja grandes mudanças, de movimentos contra-hegemônicos ante tendências estabelecidas, mas a verdade é que não vai acontecer nada muito diferente nesta área”, comentou ele. Segundo Vargas, Porto Alegre já teve um histórico de pioneirismo no planejamento urbano, como a implementação de corredores de ônibus nos anos 1970 e a estatização temporárias das empresas para organizar o sistema, algo que foi revertido a partir dos anos 2000, ao passo de que a lógica rodoviarista, priorizando o carro, prevaleceu.
“Porto Alegre não está disposta a fazer investimentos em obras antecipatórias, vai enxugando gelo e respondendo à realidade. Está sendo reativa. Fazer obras de BRT ou metrô num momento de queda dos passageiros a longo prazo não faz muito sentido quando não há demanda. É uma visão muito imediatista”, salientou o professor, para quem ideias como o VLT são mais viáveis. “Mas, ainda assim, acho que são para pequenos trajetos, com caráter mais turístico e recreativo do que resolução do transporte de massa”.