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Porto Alegre: dois anos após a enchente, Trecho 1 da Orla do Guaíba segue em obras

Obras ainda estão na segunda etapa prevista pela Smamus

Bares e banheiros do Trecho 1 da Orla seguem em reforma.
Bares e banheiros do Trecho 1 da Orla seguem em reforma. Foto : Mauro Schaefer

Poucos banheiros, falta de limpeza e pouca acessibilidade. No Trecho 1 da Orla do Guaíba, que corresponde ao trajeto de 1,3 quilômetro entre a Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias, as reformas que se fizeram necessárias após a enchente, passados 25 meses, ainda não foram finalizadas. Dois anos após as cheias, quem transitar pela região encontrará todos os bares da parte inferior da orla fechados.

Por ficarem abaixo do nível da avenida Edvaldo Pereira Paiva e sem nenhuma contenção à frente, esses empreendimentos foram varridos pelas águas durante as enchentes de 2024. No entanto, para quem transita ou trabalha na região, as dificuldades estão em coisas mais básicas, como ir ao banheiro.

Poucos banheiros e falta de acessibilidade

Tanto aqueles que transitam quanto os trabalhadores do Trecho 1 da Orla trazem a mesma insatisfação: a dificuldade de encontrar um banheiro. Os frequentadores indicam que os poucos sanitários químicos disponibilizados pela prefeitura raramente estão em condições mínimas de uso.

A educadora física aponsentada Elaine Schorr é frequentadora assídua da Orla há décadas e aponta a falta de sanitários organizados e limpos. “As pessoas vêm pra cá fazer um exercício, tomar um chimarrão, uma cervejinha, mas não tem um bom banheiro, bem estruturado”, comentou.

A comerciante Fabiane Rocha, proprietária de um dos quiosques da calçada da Orla, reforça essa percepção. “Em alguns casos os banheiros químicos acabam ficando perto demais das bancas, o que pode espantar a clientela por causa do cheiro que vem quando o vento sopra do Guaíba, mas também tem o nosso caso, que não tem nenhuma cabine por perto, o que também nos prejudica”, assinalou.

O programador Mateus Galeano e a esposa não nasceram em Porto Alegre, mas vivem na cidade há alguns anos. “Conhecemos a orla desde antes da enchente. Sentimos falta de como era, dá para sentir uma diferença, sabe?”,afirmou. “Minha esposa está grávida e acaba precisando ir mais vezes ao banheiro. É um pouco difícil achar algum lugar limpo por aqui”, acrescentou.

Um funcionário de um dos quiosques do trecho, que preferiu não se identificar, falou sobre a diferença de antes da enchente de 2024 para o momento. “Antes, tínhamos banheiros limpos, que todos podiam usar e era frequentemente higienizado por funcionários da concessionária. Agora, só temos banheiros químicos que chegam a ficar dias sem limpeza”, disse o bartender.

“Entendo que a situação é complexa para todos, mas nós, que passamos horas e horas por aqui todos os dias, precisamos ir até o Parque Harmonia para irmos em um banheiro com o mínimo de higiene”, completou. Ao percorrer os 1,3 mil metros de extensão do Trecho 1, a equipe do Correio do Povo contabilizou oito banheiros químicos instalados. Ao final do trecho, próximo à Rótula das Cuias, há um banheiro com estrutura fixa, mas está interditado.

Alguns frequentadores também relataram a falta de rampas, como uma questão de acessibilidade da orla. Pessoas em cadeiras de roda conseguem acessar o nível baixo do Trecho 1 apenas nos extremos, onde há rampas de acesso. Dessa forma, conseguem subir novamente ao nível da rua somente em algum extremo.

Obras dos bares e banheiros começaram a evoluir apenas em 2026

A Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) dividiu o planejamento da reforma em três etapas, com um custo aproximado de R$ 12 milhões. A primeira parte, no valor de R$ 2,38 milhões provenientes de contrapartidas, correspondeu à demolição dos bares, vestiários e lojas existentes, junto da construção do novo espaço da Guarda Municipal.

Atualmente, o projeto está na etapa 2, iniciada em janeiro deste ano, com investimento de R$ 2,45 milhões também oriundos de contrapartidas, contemplando a reconstrução dos espaços dos bares e dos banheiros, com previsão de entrega para dezembro deste ano.

Ao percorrer os pontos que estão em reforma, a equipe do Correio do Povo identificou que os prazos de entrega nas placas das obras foram ajustados com adesivos, adiando as datas iniciais, que sinalizavam a conclusão no primeiro semestre de 2026, o que não deve ocorrer. A etapa 3 corresponde à aplicação de proteções contra cheias e reforço de taludes, mas que ainda está em fase de captação de recursos.

Motivadores do atraso

Um dos fatores que atrasou o início das obras foi um embate jurídico devido aos termos da concessão firmada entre a GAM3 Parks e a prefeitura de Porto Alegre. A concessionária assumiu a gestão do espaço em 2021, com um vínculo de 35 anos estabelecido pelo contrato.

Os termos previstos no edital indicavam que a empresa precisaria contratar seguros para recuperação das áreas concedidas, como o Parque Harmonia e o Trecho 1 da Orla, com a condição de que houvesse alguma modalidade de apólice disponível. A GAM3 Parks alega que não foram encontradas no mercado de seguros contratos que fizessem a cobertura para áreas como a Orla.

Dessa forma, é a prefeitura de Porto Alegre que está arcando com os custos da reforma no Trecho 1. Até o momento, os valores da primeira e da segunda etapas da reforma totalizaram cerca de R$ 4,83 milhões.

A equipe do Correio do Povo questionou a prefeitura e a GAM3 Parks sobre os andamentos das obras, captação de verba e a situação dos banheiros da Orla. Por nota, a Smamus indicou que a etapa 3 das reformas segue em fase de captação de recursos e que também será realizada através de contrapartidas. Em relação aos banheiros químicos, informOU que uma nova empresa assumirá a gestão das 18 cabines do trecho 1, com limpeza sendo realizada três vezes ao dia.

Posicionamento da Smamus

Em relação às obras de recuperação do Trecho 1 da Orla do Guaíba, a Secretaria do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) informou, por meio de nota oficial, que:

  • A reforma do Trecho 1 da Orla está sendo executada em três etapas, de acordo com a disponibilidade de recursos financeiros. A Etapa 1, concluída com investimento de R$ 2,38 milhões provenientes de contrapartida, contemplou a demolição dos bares, vestiários e lojas existentes, e a construção do novo espaço da Guarda Municipal.
  • Atualmente, está em andamento a Etapa 2, iniciada em janeiro de 2026, com investimento de R$ 2,45 milhões, também oriundos de contrapartida. Esta fase contempla a reconstrução dos espaços dos bares e dos banheiros. A previsão de entrega aos permissionários segue para dezembro de 2026.
  • A Etapa 3, que prevê intervenções de proteção contra cheias e reforço de taludes, permanece em fase de captação de recursos, também por meio de contrapartida. São necessários mais de R$ 40 milhões em obras pós-enchente para as orlas. Já foi concluída a recuperação de Ipanema e Trecho 3, e Lami está em fase final.
  • O Trecho 1 necessita de intervenções mais complexas, com valor estimado total de R$ 12 milhões. Os recursos próprios ou recebidos do Estado e União foram utilizados, como prioridade, para a recuperação de postos de saúde, escolas e outros equipamentos públicos necessários para a população.
  • Uma nova empresa assume a manutenção dos 18 banheiros químicos do trecho 1 no próximo dia 10 (quarta-feira). A limpeza passará a ser realizada três vezes ao dia. O banheiro de pedra está fechado por ter sido alvo de vandalismo e depredação”.