Cidades

Seminário discute desafios do sistema de proteção de diques e propõe ações de reconstrução para São Leopoldo

O encontro definiu uma série de resoluções para mitigar os efeitos da catástrofe climática a curto, médio e longo prazo; a primeira das ações será a criação de um comitê para acompanhar as propostas

Superando a capacidade do sistema de proteção de cheias, o Rio dos Sinos extravasou ao atingir a cota recorde de 8,17 metros
Superando a capacidade do sistema de proteção de cheias, o Rio dos Sinos extravasou ao atingir a cota recorde de 8,17 metros Foto : Thales Ferreira / Prefeitura de São Leopoldo / CP

A partir do seminário que debateu a reconstrução da cidade, com enfoque nas mudanças climáticas, planos diretor, de drenagem e de contingência e o sistema de segurança e contenção das cheias, a Prefeitura de São Leopoldo definiu em conjunto com entidades governamentais e não governamentais, associações de moradores, sindicatos e conselhos municipais, uma série de resoluções para mitigar os efeitos da catástrofe climática a curto, médio e longo prazo. A primeira das ações será a criação de um comitê para acompanhar o andamento das propostas. O prefeito Ary Vanazzi garante que debater o assunto com representantes de universidades, técnicos da prefeitura e de entidades ambientalistas é importante para ouvir e apontar ações e soluções viáveis visando a reconstrução da cidade e também do futuro socioambiental.

“Precisamos todos cuidar do planeta porque a situação pode piorar. A ciência avisa, a natureza reage e o povo sofre.” Segundo Vanazzi, o Rio dos Sinos é a vida de São Leopoldo. “Até pouco tempo, o rio era o principal meio de movimentação da produção na região. Se hoje a Grande Porto Alegre é uma das maiores regiões econômicas do Sul e contribui significativamente para o PIB gaúcho, isso se deve, em parte, ao rio, assim como ao Rio Caí, ao Rio Taquari e ao Guaíba, que ajudaram a construir Porto Alegre. Esses pontos nos levam a uma reflexão profunda. Precisamos continuar realizando seminários para traçar caminhos mais consistentes, considerando a relação entre questões urbanas, industriais, ambientais e a sobrevivência humana”, destacou Vanazzi.

Fruto do desequilíbrio climático, as fortes chuvas do final de abril e início de maio, ano do Bicentenário, que somou um acumulado de mais de 700,4mm em poucos dias, superando a capacidade do sistema de proteção de cheias, extravasando o Rio dos Sinos (que atingiu a cota recorde de 8,17 metros) sobre o dique e consequentemente causando danos, rompendo-o pontualmente em dois locais. O exagerado volume de chuvas atingiu mais de 180 mil pessoas diretamente, deixando mais de 100 mil desalojadas, muitas delas por mais de 20 dias e cerca de 20 mil precisaram ficar em abrigos do Município e de cidades da região.

Considerando todo este triste cenário de devastação, identificou-se a necessidade de discutir o tema ambiental e o fortalecimento dos sistemas de segurança. Entre as medidas definidas no encontro, estão o fortalecimento do Observatório Municipal de Mudanças Climáticas e execução do Plano Local de Ação Climática, destacando as necessidades e identificando as formas de construção da resiliência das comunidades.

Também definiu-se pelo fortalecimento das medidas de prevenção com o fomento das soluções baseadas na natureza; atualização do Plano de Contingência com medidas a partir dos novos parâmetros acessíveis ao público e eficazes, com infraestruturas adequadas para evacuação, alojamento, assistência e cuidados às vítimas; implementação das defesas civis populares, em parceria com entidades da comunidade, com treinamento e equipamentos adequados; criação e implementação de políticas de descarbonização e neutralização das emissões de gases de efeito estufa.

Também foi reconhecido pelos participantes que a Administração de São Leopoldo deve pleitear junto aos governos estadual e federal recursos necessários para os estudos de volumes pluviométricos e da capacidade dos rios; bem como para projetos de ampliação da segurança do sistema de proteção das cheias (diques), construção de bacias de amortecimento, modernização do sistema das Casas de Bombas e criação de uma gestão integrada dos sistemas de proteção das cheias do Rio Grande do Sul, com a participação dos municípios, do governo do Estado e participação popular.

Para o professor da Unisinos, Carlos Moraes, as discussões em torno das mudanças climáticas devem acontecer de forma conjunta na sociedade. Referindo-se ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 17, Moraes enfatizou a importância das parcerias para reforçar os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Já o professor Roberto Christ disse que a partir de agora é preciso avaliar as condições de integridade e a estabilidade do sistema de diques para definir as alternativas de intervenções a serem feitas. Christ sugeriu que sejam pensadas formas de utilização dos diques para interação com a comunidade, citando como exemplo a criação de ciclovias e pistas de caminhada na extensão dos diques de terra.

São Leopoldo possui um sistema de segurança que protege a cidade das cheias, constituído por 21,4 quilômetros de diques, 16 quilômetros de valas internas e cinco Casas de Bombas, mais uma localizada no bairro Santo Afonso em Novo Hamburgo, cujos parâmetros de construção foram embasados na cheia de 41.