Os juros elevados impõem obstáculos ao acesso ao crédito no Brasil, mas não têm sido suficientes para conter a demanda de consumidores e empresas por empréstimos. Em um cenário marcado pela pressão sobre a renda, pelo aumento do custo de vida e pela necessidade de recomposição de caixa, a procura segue em expansão, revelando uma realidade em que o crédito se mantém como alternativa para fechar as contas do mês. Dados da Serasa Experian mostram que a procura por crédito cresceu 15,2% no acumulado de 12 meses até abril. O movimento foi mais intenso entre consumidores de menor renda, indicando que famílias têm recorrido a financiamentos para complementar o orçamento ou reorganizar finanças.
ENCARECIMENTO
O resultado reforça uma tendência observada nos últimos meses: mesmo diante do encarecimento de operações financeiras, o crédito permanece em patamar historicamente elevado. O economista-chefe da CDL Porto Alegre, Oscar Frank, observa que o mercado de crédito perdeu parte do ritmo apurado em anos anteriores, mas segue em avanço. Segundo ele, as concessões de crédito para pessoas físicas subiram 8,9% no acumulado de 12 meses até abril, demonstrando que, embora a manutenção da taxa básica de juros Selic acima de 14% ao ano represente freio na expansão das operações, o crédito continua sendo uma ferramenta à qual parte da população recorre para necessidades imediatas. A preocupação do economista não está só no aumento das operações, mas no modo como ocorrem.
ROTATIVO
Frank ressalta que parcela relevante da expansão do crédito está concentrada em modalidades onerosas, como o rotativo do cartão de crédito, caracterizado por taxas significativamente superiores às praticadas em outras formas de financiamento. O cenário é visto com cautela por especialistas porque dificulta a saída do ciclo de endividamento.
A lógica por trás dos juros elevados está diretamente relacionada à estratégia adotada pelo Banco Central para controlar a inflação. Ao elevar a Selic, a autoridade monetária encarece o crédito e desmotiva o consumo. Quanto maior o valor da Selic, mais caro tende a ficar o crédito para consumidores e empresas. O objetivo é desacelerar a atividade econômica e conter a alta de preços. Apesar disso, a necessidade de acesso a recursos continua impulsionando a contratação de crédito. A analista de Políticas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Maria Virginia Colusso, assinala que a política monetária tem impactado a atividade industrial, sobretudo pelo encarecimento de operações financeiras e pelo aumento de despesas ligadas ao crédito.
CONSIGNADO
Entre as pessoas físicas, uma das modalidades que ganhou espaço foi o consignado privado, impulsionado pela possibilidade de taxas inferiores às de outras linhas. Na avaliação do economista Oscar Frank, é fundamental que o consumidor compreenda que crédito não é renda adicional, mas compromisso financeiro futuro. Por isso, a contratação de qualquer modalidade deve estar associada a uma finalidade clara e compatível com a capacidade de pagamento.
* Sob supervisão da jornalista Simone Schmidt
Dados e projeções
- Levantamento da Serasa Experian aponta que os brasileiros destinam entre 71,9% e 80,5% dos rendimentos para despesas básicas e pagamentos de dívidas.
- Se analisado por áreas, o estudo revela um dado positivo para o Sul, já que a região registra os menores índices nesse panorama. Entretanto, mesmo assim, R$ 7 em cada R$ 10 recebidos pelas famílias já têm destino definido antes da contratação de novos empréstimos.
- Cresce também a dificuldade para regularizar pendências financeiras. Pouco mais da metade, ou 53,7% das dívidas negativadas, foi quitada ou negociada em um prazo de até 60 dias. Este percentual é inferior ao registrado um ano antes.
- O resultado sugere que além do aumento da inadimplência, as famílias estão enfrentando mais obstáculos para recuperar a saúde financeira após as contas entrarem no vermelho.
- O efeito do crédito caro também está no setor produtivo. A Confederação Nacional da Indústria aponta que 45% das empresas deverão ampliar o endividamento bancário em três meses.
- A pesquisa revela ainda crescente necessidade de financiamento para despesas operacionais, estoques e antecipação de vendas a prazo. Fatia de 59% dos empresários prevê mais necessidade de crédito para honrar contas a pagar.
- Ao mesmo tempo, quase dois terços das empresas projetam redução da margem líquida nos próximos meses, reflexo da combinação de custos elevados, carga tributária e despesa crescente. Diante do quadro, parte do setor produtivo trabalha com possibilidade de repassar custos ao consumidor.
- A pesquisa indica que 51% dos industriais pretendem elevar preços nos próximos três meses para compensar perdas de rentabilidade.