Economia

Cabo internacional submarino deve transformar RS em grande hub digital, diz ministro das Comunicações

Frederico de Siqueira Filho inspecionou projeto em Balneário Pinhal, cujas operações devem começar ainda em dezembro deste ano

Ministro visitou as instalações do projeto, onde estão os sistemas que geram a alimentação do cabo, e conheceu o local de ancoragem na beira da praia
Ministro visitou as instalações do projeto, onde estão os sistemas que geram a alimentação do cabo, e conheceu o local de ancoragem na beira da praia Foto : Camila Cunha

O ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, esteve em Balneário Pinhal, no Litoral Norte, nesta sexta-feira, para inspecionar o andamento do projeto de extensão do cabo submarino internacional Malbec, estrutura que irá conectar o Sul do Brasil, pela primeira vez, diretamente à infraestrutura internacional de dados. Na agenda, o ministro visitou as instalações do projeto, onde estão os sistemas que geram a alimentação do cabo, e conheceu o local de ancoragem na beira da praia, onde finaliza a parte submarina do cabo e se inicia a terrestre. A implantação é executada pela empresa V.tal.

Segundo Filho, a estrutura deve contribuir para transformar o Rio Grande do Sul em um ponto estratégico de conexão para a América do Sul. “Esse projeto transforma o Rio Grande do Sul em um grande hub digital, não só para o Brasil, mas para os outros países da América do Sul”, disse.

O ministro destacou que o projeto integra a estratégia do governo federal para fortalecer a infraestrutura digital do Rio Grande do Sul e descentralizar o tráfego de dados no Brasil, ao ampliar a disponibilidade de internet e criar novas possibilidades para a distribuição de conexão por provedores locais.

Operação deve começar ainda neste ano

A etapa de aterrissagem do cabo submarino já foi finalizada, e os trabalhos de implementação estão na fase final. Segundo Felipe Campos, CEO da V.tal, a previsão é que a estrutura comece a operar a partir de dezembro deste ano. "Em etapas, a gente está praticamente prestes a começar a funcionar". Foram realizados mais de 30 processos de licenciamento, considerando as áreas ambientais e a presença de indígenas nos trechos terrestres.

A expansão para o Rio Grande do Sul, de 280 quilômetros, se conecta ao Malbec existente e chega à Balneário Pinhal e por infraestrutura terrestre até Porto Alegre. | Foto: Camila Cunha

O que a iniciativa representa

Na prática, a estrutura irá melhorar a qualidade e a conectividade de internet e telefonia, além de auxiliar no desenvolvimento de projetos de tecnologia, como os data centers. Sendo a primeira conexão internacional no Sul do Brasil, representa um avanço no tráfego de dados entre a região e outros países da América do Sul.

Com tecnologia da Alcatel Submarine Networks (ASN), o sistema oferecerá capacidade inicial de 15 Tbps (terabits por segundo) por par de fibra, podendo chegar a 20 Tbps, e suportará circuitos de até 800 Gbps (gigabits por segundo) entre Porto Alegre, Buenos Aires e São Paulo. Quando entrar em operação, a nova rota fortalecerá a integração digital Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai.

O novo sistema reduz a dependência das rotas terrestres concentradas nos grandes hubs do Sudeste, como Rio de Janeiro e São Paulo. A nova arquitetura também aumenta a resiliência da internet ao criar caminhos alternativos para o tráfego de dados.

A infraestrutura foi projetada para atender ao crescimento da demanda por serviços digitais de alta capacidade, como computação em nuvem, inteligência artificial, streaming e serviços financeiros, além de ampliar as condições para a expansão de novos investimentos em infraestrutura digital na região. A implantação, assumida pela V.tal, é uma contrapartida no processo de adaptação dos contratos da antiga Oi, com participação do Ministério das Comunicações.

No local de ancoragem na beira da praia, finaliza a parte submarina do cabo e se inicia a terrestre | Foto: Camila Cunha

O ministro reforçou que a ligação internacional deverá agilizar o tráfego de dados entre países da região, com redução da latência e melhoria na experiência dos usuários. Além da conectividade, o governo avalia que a infraestrutura pode estimular a chegada de novos investimentos em data centers. “Vai ter demanda de tráfego, vai ter interligação com operadores internacionais. E a gente entende que isso direciona vários investimentos da indústria de data centers que tem interesse em vir para o Brasil por causa da demanda”, afirmou o ministro.

Outro fator destacado pelo ministro é a disponibilidade de energia para sustentar a expansão da infraestrutura digital. “O Brasil tem uma matriz energética renovável limpa, nosso custo de energia está sendo muito atrativo para os investidores no mundo todo”, destacando que essas condições favorecem a instalação de novas plantas.

A etapa de aterrissagem do cabo submarino já foi finalizada, e os trabalhos de implementação estão na fase final | Foto: V.tal / Divulgação / CP

Como é o cabo Malbec

O cabo submarino Malbec tem 2.500 quilômetros de extensão. Ele conecta Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires, e está em operação desde 2021. Porém, integra um projeto maior, com conexão até Nova Jersey, nos Estados Unidos. A expansão para o Rio Grande do Sul, de 280 quilômetros, se conecta ao Malbec existente e chega à Balneário Pinhal e por infraestrutura terrestre até Porto Alegre.

O cabo é revestido por blindagem de tubo de aço com 1,2 mil metros de extensão ao longo do trecho, garantindo proteção. Depois de instalado, foi realizado um aterramento, de modo que o cabo ficasse abaixo do leito marinho. Dessa maneira, ele pode enfrentar condições extremas e terá baixo risco de rompimento.

Balneário Pinhal foi escolhido como ponto de ancoragem da infraestrutura no litoral do Rio Grande do Sul. O cabo chega pelo oceano, e é conduzido até a terra até um ponto técnico da praia, seguindo por um trajeto subterrâneo até uma estrutura preparada no município.

A Cable Landing Station (CLS), localizada em Balneário Pinhal, é onde a infraestrutura submarina se integra à rede terrestre. A partir desse ponto, os dados serão encaminhados ao data center de Porto Alegre. A conexão segue na parte terrestre por duas rotas independentes: uma, de 110 quilômetros de extensão, seguirá para o sul do Estado, pela ERS 040. A outra parte Norte, de 150 quilômetros, chegará na Capital pela Freeway.

Para o CEO, a chegada da infraestrutura ao Rio Grande do Sul representa uma conexão com uma rede internacional mais ampla. “Quando a gente pensa em fazer essa transformação de poder trazer a conectividade submarina para o Rio Grande do Sul, se conecta muito mais do que simplesmente a um cabo do litoral, mas a projeto muito maior que vai até os Estados Unidos”, reforçou.

Vetor de desenvolvimento

A iniciativa de expansão da infraestrutura de telecomunicações é apontada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) como importante fator do desenvolvimento regional. A conselheira substituta Suzana Rodrigues destacou a crescente dependência da população dos serviços de telefonia móvel e a necessidade de redes capazes de acompanhar essa demanda.

“Cada vez mais, as pessoas precisam da tecnologia de telefonia móvel na sua região. Boa parte do desenvolvimento passa pelas pessoas terem acesso a serviços de telecomunicação que respondam bem, que tenham qualidade”, afirmou.

Para a conselheira, a infraestrutura deve funcionar como vetor de desenvolvimento. Também destacou a importância de ampliar a presença de redes mais robustas e seguras no Sul do país. “É trazer aqui para o Sul o que, antes, a gente tinha de maneira mais distante”, concluiu.

Soberania digital

Um ponto defendido tanto pelo ministro quanto pelo CEO da V.tal é a soberania digital dos dados. Campos também destaca a importância da segurança no tráfego de informações e da chamada soberania de dados. Segundo ele, as políticas relacionadas à segurança ganharam importância nos últimos anos diante do crescimento da circulação de dados e da necessidade de controlar onde as informações são trafegadas e como são acessadas.

“As políticas nos últimos anos olhando para a segurança dos dados ganharam muita importância. Os dados todo mundo sabe cada vez mais da importância da segurança, de onde os dados estão sendo trafegados e como estão sendo acessados”, afirmou.

"A gente tem uma experiência muito grande para garantir a implementação de projetos que tragam esse tipo de interconexão aos datacenters com muita segurança e trabalho em conjunto com o Ministério e a Anatel”, complementou.

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