Os carros elétricos vieram para ficar. No mundo todo, cresce a fatia de mercado dominada pelos eletrificados. No Brasil, as vendas explodiram nos últimos anos e devem seguir crescendo.
No primeiro semestre de 2026, foram emplacados 90.470 carros elétricos no país, quase o triplo do registrado no mesmo período do ano passado, quando foram vendidas 30.534 unidades. Os dados são da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).
Os híbridos também cresceram, saltando de 83.468 unidades para 154.472, um crescimento de 85%.
No Rio Grande do Sul, quatro dos 20 modelos mais vendidos no primeiro semestre são elétricos. No mesmo período do ano passado, apenas o BYD Dolphin Mini figurava na lista. O modelo passou de 456 para 884 unidades vendidas e saiu do 18º lugar para o 3º. Os dados são do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos no Estado do RS (Sincodiv-Fenabrave).
No mundo todo, políticas de incentivo à descarbonização e o estímulo à redução da dependência dos combustíveis fósseis, como gasolina e diesel, ajudam a impulsionar o setor.
Mas além do argumento socioambiental, da transição energética, os consumidores são cada vez mais atraídos pelo argumento econômico. O custo do quilômetro rodado de um carro elétrico pode ser de 70% a 80% menor do que o de um carro movido a gasolina.
O preço dos automóveis eletrificados também caiu nos últimos anos. Hoje, o modelo mais barato disponível no mercado nacional, o Emova Easy, custa cerca de R$ 70 mil. O modelo mais vendido no RS, o BYD Dolphin Mini, custa a partir de R$ 110 mil.
Outra vantagem são os incentivos fiscais. No Rio Grande do Sul, carros elétricos são isentos de IPVA, por exemplo. Especialistas apontam ainda que o custo de manutenção é menor.
Entre os pontos negativos, há questões ligadas a costumes, em função da tecnologia envolvida e de uma mudança de paradigma. Mas também questões práticas, como, por exemplo, a menor autonomia de rodagem e o tempo de carregamento, que demanda um maior planejamento de rota.
Os modelos mais vendidos no Brasil têm autonomia entre 250 km e 300 km. Enquanto os modelos populares a gasolina rodam o dobro ou mais com um tanque. Já o tempo para recarga pode variar bastante dependendo da capacidade da bateria e da potência do carregador. A recarga em um eletroposto costuma levar cerca de uma hora, enquanto um carregador residencial pode demorar de 2h até 12h. A velocidade da carga depende ainda do horário, sendo mais rápida à noite.
O Correio do Povo conversou com especialistas e proprietários de veículos elétricos para saber quais as principais vantagens e desvantagens de adquirir um veículo. Afinal, vale a pena ter um carro elétrico?
Vantagens econômicas, ruptura de paradigma nos costumes
Flavio Eduardo Soares e Silva, professor do curso de Engenharia de Energias Renováveis da PUCRS, avalia que a mudança de um veículo a combustão para um elétrico vale a pena para todos os perfis de usuários.
Silva destaca as vantagens econômicas. Na avaliação do professor, as desvantagens estão ligadas mais a aspectos comportamentais do que a questões econômicas. Ele fala ainda em um lobby da indústria automotiva nacional contra a expansão dos elétricos, que atualmente são importados da China, em sua grande maioria.
“O veículo 100% elétrico é a transformação digital na mobilidade. O paradigma ao conduzir um eletrificado e operá-lo muda bastante em relação ao veículo a combustão. Para quem gosta de inovação, é sensacional. Para quem é mais conservador ou se sente desconfortável com a tecnologia, não indico.
Os custos de manutenção são extremamente reduzidos, por termos menos peças e menor complexidade construtiva. E o custo energético é cerca de 75% menor que o de um veículo a combustão econômico.
Então, vejo as desvantagens muito mais relacionadas a questões de costume, não de tecnologia. O veículo elétrico é tecnicamente melhor que o veículo a combustão (ICE) em muitos sentidos”, explica.
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Sustentabilidade influencia decisão de compra
José Antônio Ribeiro de Moura, economista e professor da Universidade Feevale, afirma que a chegada do carro elétrico traz uma mudança mais profunda, que envolve toda a cadeia produtiva do automóvel e a relação de consumo. Moura compara a mudança com a transição dos telefones analógicos para os smartphones.
Em termos econômicos, o economista vê os elétricos como um bom negócio sobretudo para uso urbano. Para quem roda mais em viagens, ele aponta os híbridos como uma boa opção, por combinarem a redução do custo para rodar com uma maior autonomia.
“Tem a questão do custo. O custo de manutenção é menor, há menos desgaste mecânico e a ausência de troca de óleo também reduz o gasto. Lembrando que a volatilidade do preço do petróleo hoje é muito grande e tende a aumentar pela questão dos conflitos. Além disso, a sustentabilidade também vai influenciar as decisões de compra. E os elétricos trazem também um avanço tecnológico, do conforto, do acesso a mídias”, analisa.
Viagens bem mais baratas, mas o cálculo é complicado
Guilherme Schroeder, sociólogo, comprou um carro elétrico para o uso no dia a dia, viagens e para trabalho. Ele presta serviços de apoio logístico em eventos culturais e trabalha para uma cooperativa de mobilidade. Para Schroeder, a principal mudança do carro elétrico é uma maior liberdade para viajar, em função do baixo custo para rodar. No entanto, ele pondera que o custo inicial é mais elevado e pode demorar a compensar.
“A maior vantagem que eu vejo é para fazer viagens, principalmente curtas. Com frequência, vou à Serra, ao Litoral gaúcho ou até para Florianópolis com a minha filha. É uma revolução na vida. Neste sentido, a gente consegue se deslocar com muito menos custo. Mesmo carregando fora de casa e em carregador rápido, gasto cerca de R$ 0,12 por km, enquanto um carro a combustão vai dar no mínimo R$ 0,65.
Mas é um cálculo complicado, se for levar em conta que o carro é mais caro e para instalar o carregador custa cerca de R$ 5 mil. Tem que rodar bastante para cobrir essa economia gigantesca que tem por quilômetro rodado”, diz.
Economia sensível para quem roda bastante
Entre os motoristas de aplicativo, os elétricos também ganham espaço. Para quem roda bastante, o valor menor pelo quilômetro rodado é atrativo e o custo inicial acaba se diluindo. Alex da Silva é motorista de aplicativo há cerca de nove anos. Em 2024, trocou o carro a combustão por um elétrico.
“Antes eu andava com carro a combustão, o gasto certamente era maior. Se tu botar na ponta do lápis, a vantagem do elétrico é a economia. Porque com R$ 70 no elétrico, tu faz mais de 300 km. No carro a combustão, tu não roda 200 km. Eu carrego em eletropostos, gasto cerca de R$ 70 por recarga, um pouco mais do que quem tem carregador próprio.
E esse carro vai aonde os outros vão, só que tem que parar para carregar. Em eletroposto, demora cerca de uma hora. Em casa, são cerca de seis horas. Mas já tem eletroposto que é feito para Uber. O preço do quilowatt é menor e tem TV, wi-fi, banheiro, lugar para tomar banho. É um ponto de parada para os motoristas”.