Economia

Como a busca por “ganho fácil” sustenta avanço da cultura de apostas no país

Para consultor, regulação é importante, mas solução para vício em jogos passa por educação financeira e autoconhecimento

Após bets, bloqueio de plataformas preditivas evidencia persistência da busca por apostas no país
Após bets, bloqueio de plataformas preditivas evidencia persistência da busca por apostas no país Foto : Joédson Alves / Agência Brasil / CP

O bloqueio de plataformas de “mercados de previsão” ou “preditivos” no País reabre uma discussão que já vinha em alta desde a regulamentação das bets. Mais do que regras e fiscalização, o debate envolve o comportamento do brasileiro diante da promessa de retorno rápido.

Para um consultor financeiro ouvido pela reportagem, a principal preocupação está na persistência de uma cultura de risco enraizada na sociedade, que se adapta a diferentes plataformas.

Os dados ajudam a dimensionar esse cenário. Cerca de 80% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida, enquanto quase metade da renda média já está comprometida com pagamentos, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, divulgada em abril deste ano.

Consultor financeiro e professor da Universidade Feevale, João Nast chama atenção para o perfil de quem acessa essas plataformas, formado majoritariamente por jovens — cerca de 82% das gerações Z e Millennial —, muitas vezes com menor estabilidade financeira. Em alguns casos, segundo ele, há uso de recursos de programas sociais, como o Bolsa Família, o que amplia a preocupação com o impacto social.

“Existe uma expectativa alta de que vai se ter um ganho fácil”, afirma Nast. Segundo ele, esse tipo de promessa encontra espaço em um cenário de pouco planejamento e visão de longo prazo. “O desejo pelo ganho fácil provém de uma falta de educação financeira e até mesmo de perspectiva de futuro”, resume.

Bets x mercados preditivos: qual é a diferença

Embora estejam no mesmo universo das apostas, bets e mercados preditivos funcionam de formas distintas. Nas bets, o modelo é mais direto: o usuário aposta contra a casa, com cotas fixas (odds) definidas previamente, e recebe um prêmio caso acerte o resultado, normalmente ligado a eventos esportivos ou jogos online.

Já nos mercados preditivos, o funcionamento se aproxima mais da lógica de negociação. Os usuários compram e vendem contratos baseados em probabilidades de um evento acontecer, como eleições, conflitos ou fenômenos climáticos, em um sistema binário de “sim ou não”. O preço desses contratos varia conforme a oferta e demanda, como em um mercado financeiro.

Segundo Nast, é justamente essa estrutura que gera maior risco de confusão. “É um mercado de apostas, mas que ele se assemelha ao mercado de ações”, afirma. Para o especialista, essas plataformas tentaram ganhar legitimidade ao se apresentar como instrumentos financeiros.

“A regulação descaracteriza essa possibilidade dele se travestir como um instrumento financeiro, que sim seria uma forma de investimento”, explica.

Além disso, ele aponta que esse modelo pode abrir espaço para distorções, como a manipulação de preços por grandes volumes de negociação, algo menos comum nas apostas tradicionais.

Por que o governo proibiu

O governo federal proibiu oficialmente o funcionamento dessas plataformas no país por meio de resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN). A medida busca impedir que empresas ofereçam contratos baseados em eventos reais sob a aparência de derivativos financeiros.

De acordo com o Ministério da Fazenda, essas empresas operavam em uma zona cinzenta. Na prática, não cumpriam exigências aplicadas às bets regulamentadas, como pagamento de outorgas, arrecadação de tributos e mecanismos de proteção ao consumidor.

Caminhos para enfrentar o vício em apostas

Apesar da proibição, João Nast avalia que medidas desse tipo são importantes para organizar o mercado e proteger o consumidor, mas não resolvem o problema por completo. Segundo ele, a demanda tende a se adaptar, inclusive com o uso de plataformas estrangeiras ou novos formatos.

“Hoje tem mercado preditivo, amanhã talvez vai ter outro tipo de mercado”, afirma, ao lembrar que práticas como o jogo do bicho perderam espaço ao longo do tempo para outras modalidades.

Para o especialista, é necessária uma mudança mais ampla de comportamento, que passa pela educação financeira e pelo autoconhecimento, já que a relação com o dinheiro também envolve fatores psicológicos.

“Não tem como criarmos somente mecanismos que nos blindam disso. A gente precisa se blindar com educação financeira”, diz.

Reconhecer limites e compreender as próprias decisões financeiras, segundo ele, fazem parte desse processo. Ainda assim, pondera que se trata de uma mudança gradual. “É um caminho lento, não é uma solução rápida”, afirma.

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