O governo de Donald Trump confirmou novas tarifas contra o Brasil. A informação foi compartilhada em entrevista coletiva, na noite desta quarta-feira, 15, pelo chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, convocado a apresentar o resultado da investigação sobre práticas brasileiras sujeitas a novas tarifas. Representantes do USTR sinalizaram que, nas próximas horas, publicarão detalhes e uma lista oficializando os produtos que serão afetados no Federal Register, uma espécie de Diário Oficial. “Tentamos negociar formas de mitigar políticas do governo do Brasil”, disse Greer. As tarifas entrarão em vigor em 22 de julho.
A Seção 301, na qual se baseiam as novas tarifas, é um mecanismo da Lei de Comércio de 1974 que permite ao USTR investigar e retaliar países cujas políticas sejam consideradas prejudiciais ao comércio norte-americano. No início de junho, o USTR divulgou a recomendação de sobretaxas a produtos brasileiros com base na Seção 301, acusando o Brasil de adotar práticas ilegais em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico – como o Pix –, tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal.
O governo dos EUA também se queixa de benefícios dados pelo Brasil a parceiros comerciais como Índia e México, sem conceder os mesmos termos a produtos norte-americanos, o que cria condições desvantajosas.
Para a estratégia do governo americano, havia urgência, pois em 24 de julho termina a validade de 150 dias para a tarifa global de 10% que adotou após a Suprema Corte dos Estados Unidos ter julgado ser ilegal a maior parte das tarifas aplicada por Trump durante 2025. A taxação adotada desde 20 de fevereiro se baseia na Seção 122 da legislação comercial dos EUA, que permite apenas taxações temporárias. Para a cobrança continuar em vigor, a Casa Branca teria de submetê-la ao Congresso norte-americano e buscar autorização dos parlamentares, o que é incerto.
Em seu relatório preliminar, em 1º de junho, o USTR sugeriu a aplicação de alíquota de 25% sobre os produtos importados brasileiros, com uma lista de exclusões a produtos básicos ou estratégicos para o consumo americano, como aeronaves, produtos agropecuários e insumos industriais.
O que diz analista sobre o impacto na inflação e nas exportações
Na avaliação do estrategista Gustavo Cruz, a imposição da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA tende a ter efeito menor sobre as vendas externas do Brasil e sobre a inflação doméstica do que o primeiro “tarifaço”, aplicado há um ano. Cruz lembra que, naquela ocasião, o efeito da medida foi desinflacionário em um primeiro momento, dado que muitos produtores que exportariam aos EUA aumentaram a oferta doméstica ao longo do segundo semestre. “Para este ano, já não é aquela mesma dinâmica, porque imagino que esses produtores já tenham feito uma produção menor para 2026, imaginando o risco das tarifas”, observou.
Em relação às exportações, ele também avalia que o impacto negativo deve ser mais limitado agora, devido ao pleito de diversos setores para que sejam isentos da sobretaxa, como o de açúcar, por exemplo. A expectativa de integrantes do governo e do setor privado é de que o USTR exclua da alíquota produtos já livres anteriormente – produtos agropecuários, aeronaves e partes aeronáuticas, fertilizantes, minerais críticos e estratégicos e insumos industriais relevantes – e estenda a lista de isenções a outros itens, como calçados, café solúvel e insumos industriais, sobretudo da cadeia de máquinas e equipamentos.
“Essa pauta de ter mais isenções também diminuiria o risco de exportações menores”, diz Cruz, acrescentando que o Brasil não é uma economia extremamente aberta. O Brasil tem exportado muito mais para a China do que para os Estados Unidos, ressalta. “Por isso, mesmo com a queda das vendas aos EUA, não tivemos efeito extremamente negativo do PIB”, destacou.
Em seus cálculos, é possível que o PIB brasileiro tenha crescido cerca de 0,5 ponto porcentual a menos no segundo semestre do ano anterior por conta das tarifas do governo Trump, impacto negativo que deve ser ainda menor desta vez, em sua visão.
Pela data em que o novo “tarifaço” foi anunciado pelo USTR, Cruz avalia que sua maior repercussão no desempenho dos ativos domésticos se dará pelo canal das eleições presidenciais, que estão próximas. Diversas pesquisas de diferentes institutos mostraram, no ano passado, que a aprovação do presidente Lula cresceu após o país ser alvo de tarifas dos EUA, recorda, assim como a intenção de votos no petista. “Isso é algo que deve se repetir, talvez em menor magnitude. E a gente sabe como que o mercado reage a essa perspectiva de um quarto mandato”, alerta.