Os impactos econômicos das enchentes que assolam o Rio Grande do Sul devem ser sentidos em todo o Brasil. Quem afirma é Evandro Silva, presidente da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agronegócio (Acisa) de Passo Fundo. Isso ocorrerá, segundo ele, porque a indústria do estado foi muito afetada pelas cheias e faz com que a contribuição do RS ao Valor Adicionado Bruto do país (VAB), que hoje é de cerca de 6,1%, ou R$ 121 bilhões (dados de 2021), também sofra um impacto. “Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), 93% das indústrias do Estado foram afetadas porque o grande fluxo é na região dos Vales e na grande Porto Alegre”.
Cadeia produtiva
Isso, de acordo com Evandro, faz com que todos os setores da economia sejam impactados de forma negativa, uma vez que os setores produtivos estão sempre interligados. Em Passo Fundo e região, o ‘carro-chefe’ da economia sempre foi (e por algum tempo deve ser) o agronegócio e, se o setor vai bem, promove desenvolvimento a toda a cadeia produtiva regional. “Quando se fala em comércio e serviço na região de Passo Fundo, a origem de tudo é o agro. Falei com algumas pessoas que resolveram ‘segurar’ na hora da compra de um apartamento, por exemplo. Isso traz reflexos para o setor da construção civil, para o mercado imobiliário, para quem vende móveis sob medida e para o vendedor, que não recebe e, consequentemente, não consome”.
Escassez de produtos e má fé
Um dos locais em que se observam de forma mais imediata os impactos de uma inundação como essa é o supermercado. Produtos, especialmente os perecíveis, faltam em algumas prateleiras. O setor de hortifrutigranjeiros é um dos que mais sente, porque a produção fica reduzida e os produtos que são colhidos não chegam na mesma quantidade, com a mesma qualidade e variedade aos centros de distribuição. Além disso, alguns comerciantes aproveitam para abusar do consumidor, que sente os efeitos das cheias. Evandro revela que passou pela experiência.
“Conheço um agricultor que produz alface em uma pequena propriedade. Ele estava em um mercado para o qual entrega seu produto e me mostrou que um pé de alface estava custando R$ 10. Eu brinquei com ele, dizendo que está ganhando bem. Ele me falou que estava entregando ao mesmo valor que entregava antes das enchentes”. Além de todos os problemas reais, existem os oportunistas que tentam se aproveitar do consumidor diante da tragédia.
Fazer a roda girar
De acordo com Evandro, é preciso que as pessoas passem a consumir mais nos estabelecimentos comerciais dos seus municípios, para que, dessa forma, façam com que a economia possa, aos poucos, voltar a uma certa normalidade. A retração, segundo ele, faz com que os empresários sofram ainda mais com a falta de movimentação. “As pessoas estão evitando comprar, para esperar pelo que vai ou deva acontecer. Alguns me dizem que não estão indo a restaurantes porque acham que não é legal sair agora. Pelo contrário: se todo mundo resolver parar de sair, o estado vai demorar ainda mais para voltar ao que era”. Evandro diz que, apesar de tudo o que está acontecendo, é importante que ‘a roda volte a girar’. E explica: “Vidas foram perdidas e temos todos os problemas que a gente sabe, mas precisamos começar a fazer a roda girar novamente. Se o temor de uma recessão virar realidade e as pessoas não se movimentarem mais, a crise vai ser ainda maior do que está acontecendo”.
Ajudar nos municípios
Muitas das pessoas que perderam suas casas, perderam também seus locais de trabalho e se observa que indústrias e empresas de outros municípios estão oferecendo emprego para quem não tem mais nada. Evandro diz ser contra esse tipo de atitude porque faz com que os municípios atingidos, além de mão de obra, percam em receita. “O que defendo nas reuniões que estou participando é que as empresas de municípios como o nosso, antes de trazer pessoas, façam o movimento contrário: ir até os atingidos e tentar ajudar e é isso que estamos fazendo na Acisa. Falar com representantes das associações comerciais e saber o que estão precisando”.