O varejo formal, que empregava em julho 421,9 mil pessoas, ou 17,2% do total de empregados no Rio Grande do Sul, segundo dados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, vive um momento de inflexão e fragilidade, com causas bem definidas e consequências ainda incertas, de acordo com entidades. Portões fechados não são incomuns onde antes havia pujança econômica. No final de agosto a reportagem viu funcionários da loja do Ponto Frio da rua Dr. Flores, no Centro Histórico de Porto Alegre, tradicional centro de comércios de eletroeletrônicos e integrante do Grupo Casas Bahia, retirando seus pertences do local.
O grupo, um dos maiores varejistas do Brasil, encerrou 298 lojas, cerca de 30% do total, e pretendia demitir em massa 3 mil funcionários, dos quais 1,9 mil já tinham sido desligados até aquele momento. Uma recente ação judicial suspendeu temporariamente mais desligamentos. Na esteira das demissões, o Grupo Casas Bahia ingressou com pedido de recuperação judicial (RJ) no Rio de Janeiro, informando R$ 17,3 bilhões em dívidas, abrindo um canal de negociação com os credores.
No Rio Grande do Sul, os dados mostram que esta modalidade jurídica da RJ não é novidade. O Estado era, em julho deste ano, o vice-líder em recuperações judiciais, com 728, ou 11,4% do total nacional, de 6.382, de acordo com o Monitor RGF-BIZDOC, da consultoria especializada RGF. Perdia somente para São Paulo, com 1.398 empresas em recuperação judicial ou 21,9% do total do Brasil.
Para efeitos de comparação, o Produto Interno Bruto (PIB) paulista, conforme divulgação mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é mais de cinco vezes superior ao gaúcho, mas o número de empresas que aderiram à RJ em São Paulo não chega ao dobro do RS. “Empresas e consumidores estão operando em um ambiente que exige mais planejamento”, disse o presidente do Sindilojas Porto Alegre, Arcione Piva.
“É a tempestade perfeita”, resumiu o vice-presidente de Integração da Federação das Associações Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul), Rafael Goelzer. Assim como uma tempestade climática se forma por um mix de causas, o “temporal econômico” do varejo de rua, na opinião das entidades, é resultado de uma espiral descendente, mesclando, entre outros fatores, o endividamento descontrolado das famílias, a concorrência do e-commerce e o uso de dinheiro para outros fins ditos mais escusos, como as bets.
Juro e financiamento
De maneira mais ampla, são citados também a pressão das altas taxas de juros, com a incerteza inflacionária a reboque. “Manter a taxa Selic em dois dígitos é oneroso para a sociedade, e o Brasil vive o maior juro real do planeta. Com isso, parcelar compras e contrair financiamento acaba pesando bastante no orçamento, diminuindo a intenção de compra e ampliando as dívidas”, diz o economista professor da Escola de Negócios da PUCRS, Gustavo Inácio de Moraes. Mesmo com as recentes reduções pelo Banco Central, a taxa básica de juros está em 14% ao ano.
Importações
A taxa das blusinhas é outro fator considerado controverso. Apontada por entidades locais como um respiro necessário, a taxação sobre compras internacionais de até 50 dólares está suspensa desde maio por força de medida provisória. De acordo com líderes do setor, as políticas de isenção anteriores funcionavam como um incentivo ao comércio estrangeiro, retirando a competitividade das lojas gaúchas e impactando diretamente a renda e o emprego.
Bolso mais vazio e alta inadimplência
Dentro de casa o consumidor tem sentido o bolso esvaziar mais rapidamente, afirmam especialistas. “Temos mais de 80% das famílias com endividamento e muitas delas no índice de inadimplência. Ou seja, não é somente a dívida. Elas não conseguem pagar suas próprias contas e isso inviabiliza a organização financeira para o futuro”, afirma vice-presidente de Integração da Federasul, Rafael Goelzer. O economista-chefe da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Oscar Frank, concorda, pontuando que não necessariamente o endividamento é problemático, desde que não escale para tornar o consumidor um inadimplente.
“O comprometimento de renda das famílias também se encontra em patamares muito elevados”, observa. Dados da Serasa de julho apontam que 83,9 milhões de brasileiros haviam superado a barreira da inadimplência em um universo de 348 milhões de dívidas. Os débitos somavam um total de R$ 586 bilhões, o que representa elevação de 1,19% sobre junho.
O presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Lindonor Peruzzo Junior, destacou dois fatores de preocupação: o enxugamento da circulação do dinheiro em espécie e a liberação “desenfreada” do crédito consignado com garantia de FGTS, aprovada pelo governo federal. “Isso (liberação do crédito) acabou tirando muito dinheiro do consumidor e do varejo como um todo. O supermercadista está sentindo isso muito hoje”, assinalou Peruzzo.
“Empresas erram. Porém, é preciso reconhecer um fato: nenhuma gestão, por mais competente que seja, consegue indefinidamente neutralizar um ambiente econômico adverso”, conclui o presidente da Federação das Câmaras de Comércio e de Serviços do RS, Vitor Augusto Koch.