A escalada de tensões no Oriente Médio e a disparada no preço internacional do petróleo começaram a produzir reflexos também em Porto Alegre. No início desta semana, postos de combustíveis registraram aumento no movimento e formação de filas nos horários de maior procura, como o início da manhã e o final da tarde.
A busca antecipada por abastecimento ocorre em meio ao temor de consumidores de que os combustíveis possam encarecer ou até faltar nos próximos dias, algo que, neste momento, é descartado. Em alguns postos da Capital houve manutenção de preços já reajustados anteriormente, enquanto outros que ainda mantinham valores da gasolina abaixo dos R$ 6,00 durante o final de semana registraram aumento de até entre segunda e terça-feira.
A maior preocupação, entretanto, envolve o diesel, combustível que tem forte influência sobre o transporte de mercadorias e sobre os principais setores produtivos do Estado. Nos últimos dias, o valor do barril de petróleo no mercado internacional aumentou, o que pressiona os custos de importação.
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Rio Grande do Sul (Sulpetro), João Carlos Dal’Aqua, afirmou que o cenário internacional tem provocado instabilidade no mercado brasileiro, especialmente no diesel importado. Segundo ele, o país depende significativamente da compra externa do combustível. “É uma crise mundial. O país importa muito diesel e está R$ 2 mais caro para trazer do que o preço que a Petrobras cobra aqui”, explicou.
Mesmo diante da pressão nos preços, a estatal afirmou, por meio de nota, que as entregas de diesel seguem ocorrendo normalmente. “Especificamente em relação ao estado do Rio Grande do Sul, ratificamos que as entregas de diesel estão sendo realizadas dentro do volume programado”, informou.
Ainda assim, entidades do setor produtivo acompanham a situação com apreensão. A Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul) alerta que o aumento do diesel pode pressionar diretamente o custo do transporte rodoviário.
De acordo com a entidade, o combustível representa entre 40% e 45% do custo operacional das transportadoras. Em um cenário de sucessivas elevações, parte desse impacto tende a ser repassada às tarifas de frete. No Estado, o transporte rodoviário responde por cerca de 85% da movimentação de cargas, sendo essencial para o abastecimento da população e para o funcionamento das cadeias produtivas.
“A Fetransul reforça que o transportador não tem condições de absorver sozinho aumentos sucessivos do combustível, o que tende a pressionar as tarifas de frete, uma vez que cada empresa precisará avaliar individualmente os impactos em suas operações para preservar a sustentabilidade das atividades e garantir a continuidade dos serviços logísticos”, afirmou, em nota.
A preocupação também chegou ao setor agropecuário. O presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Domingos Velho Lopes, afirmou que produtores rurais enfrentam dificuldades para carregar diesel nos últimos dias. “Desde terça-feira passada estamos enfrentando dificuldade no carregamento e, a partir de quinta, esses carregamentos praticamente estancaram. Estamos sem a possibilidade de abastecimento junto às distribuidoras”, relatou.
Segundo ele, a entidade notificou o governo do Estado, que acionou o Ministério de Minas e Energia e a Agência Nacional do Petróleo para buscar a normalização do fluxo de combustível, especialmente em meio ao período de colheita de arroz e soja.
O presidente da Sulpetro afirmou que o problema da falta de diesel aos produtores rurais gaúchos ocorre porque a estatal prioriza a entrega de combustível para quem tem contrato. Portanto, falta para os demais consumidores. “Quem contrata acaba pagando mais caro, mas tem a garantia. Neste momento, não terá falta, mas terá restrição de mercado”, afirmou Dal’Aqua, avaliando que deve continuar a pressão nos preços.