Mundo

Como governos nacionalistas desafiam Westminster e colocam em xeque o futuro do Reino Unido

Países aproveitam lideranças conservadoras para buscar autonomia e colocam em debate a relação com a Inglaterra

Como governos nacionalistas desafiam Westminster e colocam em xeque o futuro do Reino Unido
Como governos nacionalistas desafiam Westminster e colocam em xeque o futuro do Reino Unido Foto : Justin Tallis / AFP / CP

Pela primeira vez, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte têm governos liderados por forças políticas nacionalistas e favoráveis à ampliação da autonomia de seus territórios. O movimento, que defende o direito à autodeterminação e ao autogoverno, ganhou novo impulso nos últimos anos e passou a pressionar Westminster, sede do Parlamento britânico, em Londres, por uma descentralização maior das decisões entre todo o bloco.

Na Escócia, o governo é liderado pelo primeiro-ministro John Swinney, do Partido Nacional Escocês (SNP). No País de Gales, o primeiro-ministro Eluned Morgan deixou o cargo em 2026, sendo sucedido por Rhun ap Iorwerth, líder do Plaid Cymru. Já na Irlanda do Norte, Michelle O’Neill, do Sinn Féin, ocupa o cargo de primeira-ministra.

O direito à autodeterminação

Segundo o diretor de pesquisa do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape) e doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Felipe Dalcin, os três governos defendem que seus territórios possuem direito à autodeterminação.

"Pela primeira vez na história, tanto em Gales, na Escócia ou na Irlanda do Norte, nós temos três governos por partidos nacionalistas que têm um viés pró-independência. Eles conclamam que esses países têm o direito de ter autodeterminação e se autogovernar", explica.

Na avaliação do professor, a reunião recente entre representantes dos três territórios reforçou esse discurso, com a declaração de que "o tempo de Westminster chegou ao fim". A frase sintetiza a pressão por uma redistribuição dos poderes atualmente concentrados no governo central britânico.

Brexit fortaleceu discurso nacionalista

Apesar do avanço dos partidos nacionalistas, de acordo com Dalcin, não há uma maioria consolidada nos três territórios favorável à independência. Na Escócia, a população rejeitou a separação do Reino Unido em referendo realizado em 2014. Desde então, porém, o tema permaneceu presente no debate político, especialmente após o Brexit.

Para o professor, a saída do Reino Unido da União Europeia é um dos principais fatores que explicam o fortalecimento do discurso independentista escocês. A maioria dos eleitores da Escócia, por exemplo, votou pela permanência no bloco europeu em 2016, mas o resultado geral determinou a saída de todo o Reino Unido.

"Os nacionalistas da Escócia argumentam que essa saída que eles não queriam foi imposta. É um entendimento de que o que imperou foi a vontade de outro país sobre a Escócia", afirma.

O professor destaca ainda que Westminster mantém competências sobre temas como impostos, imigração e segurança, enquanto os governos dos territórios possuem autonomia em áreas como saúde e educação. Na avaliação dele, as dificuldades econômicas e as decisões tomadas pelo governo central são utilizadas pelos nacionalistas para reforçar a defesa de uma autonomia maior.

"Eles criticam essas políticas de segurança, de impostos, a falta de capacidade de Westminster e isso afeta esses países e faz o discurso ganhar força na população. Eles usam isso para justificar fracassos econômicos. É um desafio para o Reino Unido", explica.

Veja Também

Independência seria processo longo e complexo

Para Dalcin, mesmo que os partidos nacionalistas ampliem a pressão por autonomia, uma eventual independência não ocorreria rapidamente. O professor explica que pode ser o começo de uma longa negociação.

"O movimento pode começar pela transferência de novas competências para os governos locais antes de uma eventual ruptura com o Reino Unido. Por mais que eles tenham controle da saúde e educação, a negociação, em um primeiro momento, pode ser de jogar a barra lá em cima, buscando mais independência em outros setores", afirma.

Uma eventual separação envolveria tratativas sobre uma série de questões econômicas e institucionais. Entre elas estão a política monetária, a moeda, a dívida pública, o déficit fiscal, os impostos, as forças armadas e a relação com a União Europeia.

"As economias estão atreladas ao Reino Unido. Seria bem complicado pensar nisso. Seria preciso ponderar a política monetária própria. Esses países não entrariam na UE do dia para a noite. Isso levaria um processo. Temas como Forças Armadas, impostos, a complexidade seria gigante. Isso levaria anos e anos para se chegar a um termo comum", pontua. O impacto também seria significativo para o próprio Reino Unido, que precisaria definir como ficariam a dívida pública e o déficit fiscal diante de uma eventual saída de um dos territórios.

Guerra da Ucrânia fez insatisfação crescer

Outro fator apontado por Dalcin é o aumento dos gastos de defesa do Reino Unido em razão da guerra da Ucrânia. O governo britânico é um dos principais apoiadores de Kiev e vem ampliando os investimentos militares, movimento que, segundo o professor, também tem reflexos sobre os territórios que integram o país. "O Reino Unido apoia a Ucrânia e aumenta os gastos de defesa, e isso é repassado para os três países que não têm interesse em sustentar esse conflito", afirma.

Dalcin também relaciona a guerra aos custos de energia e ao aumento da inflação na Europa. A redução da dependência europeia de fontes russas de energia elevou os custos para garantir novos fornecedores, contribuindo, segundo ele, para pressionar os preços.

Para o professor, "a questão energética e os gastos militares podem alimentar o argumento dos nacionalistas de que decisões tomadas pelo governo central têm custos que também recaem sobre Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte”.

União das Irlandas tem apoio de Trump

Conforme Dalcin, embora faça parte do mesmo movimento de fortalecimento dos nacionalistas, a Irlanda do Norte apresenta uma particularidade em relação à Escócia e ao País de Gales. Uma eventual saída do Reino Unido poderia não resultar na criação de um novo país independente, mas na reunificação com a República da Irlanda. "Não apenas sairia do Reino Unido como se uniria à Irlanda", resume Dalcin.

Para o professor, esse fator torna o processo norte-irlandês ainda mais complexo. A eventual reunificação envolveria não apenas a saída do Reino Unido, mas também a integração política, econômica e institucional com outro Estado.

O movimento de unificação das duas Irlandas conta com o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "O Trump está desgostoso com o Reino Unido pelo não apoio na Guerra do Irã e no controle do Estreito de Ormuz. Por isso, o Trump tem manifestado publicamente que vê essa união entre Irlanda do Norte e Irlanda com bons olhos."

Reino Unido deve tentar conter avanço

Apesar do crescimento dos movimentos nacionalistas, Dalcin avalia que o processo de independência não deve avançar pelo menos nos próximos anos. "Eles sabem dessas dificuldades. Eles querem ir descentralizando e ter mais as rédeas do controle do país em suas mãos. Isso serve também como passo a passo para eventualmente, no futuro, saírem do Reino Unido", explica.

O governo britânico, por sua vez, tem se colocado contra a realização de novos referendos de independência na Escócia. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, já afirmou que não considera necessária uma nova consulta sobre a independência escocesa.

Para Dalcin, portanto, a disputa tende a ocorrer inicialmente em torno da descentralização de poderes, e não de uma ruptura imediata. "As mudanças seriam paulatinas. O Reino Unido vai tentar ‘empurrar com a barriga’", projeta.

O cenário mantém aberto o debate sobre o futuro do Reino Unido, especialmente diante do fortalecimento de partidos que defendem maior autonomia e, em alguns casos, a independência. Para os três territórios, entretanto, os caminhos não são necessariamente os mesmos.