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Como Israel pode perder seu melhor aliado após eleições nos EUA

Votação americana e israelense indica enfraquecimento da aliança com os Estados Unidos; apoio militar de 3,8 bilhões de dólares pode ser cortado

Bandeira israelense é vista sobre uma zona de colonos no meio da cidade de Hebron, na Cisjordânia ocupada por Israel
Bandeira israelense é vista sobre uma zona de colonos no meio da cidade de Hebron, na Cisjordânia ocupada por Israel Foto : HAZEM BADER / AFP

Em Jerusalém, ainda há cartazes eleitorais de Benjamin Netanyahu e Donald Trump posando diante de aviões de caça, símbolos da guerra contra o Irã. Contudo, após os resultados desfavoráveis a ambos nas urnas, nenhum deles continua promovendo a aliança entre Israel e os Estados Unidos.

A votação de outubro em Israel não permitiu que o bloco do primeiro-ministro obtivesse maioria absoluta. E, nesta semana, os republicanos do presidente americano foram superados nas eleições de meio de mandato por seus rivais democratas, que defendem uma postura mais rígida em relação a Israel.

Ao analisar o revés republicano, o vice-presidente americano, JD Vance, elencou quatro maneiras de reconquistar eleitores; entre elas, encerrar a guerra com o Irã e alterar a "relação com Israel". Trump não discordou.

Justamente durante a votação, na terça-feira, ele afirmou ter chegado a um acordo com Netanyahu para encerrar, até o final deste ano, a ajuda militar anual de 3,8 bilhões de dólares (R$ 20,9 bilhões) dos Estados Unidos a Israel, uma decisão que ele vinculou ao cenário político americano.

Para muitos observadores, a sequência de eleições parece marcar um ponto de inflexão, no qual Israel já não pode mais dar como certo o apoio do País mais poderoso do mundo. "É uma nova era. A convergência da guerra em Gaza e da guerra com o Irã mudou a forma como os americanos comuns, não pessoas especialmente preocupadas com o conflito israelense-palestino, veem Israel", explica Yael Sternhell, especialista em Estados Unidos da Universidade de Tel Aviv.

Problema com EUA

Pesquisas mostram que a percepção de Israel por parte dos americanos se deteriorou desde a ofensiva israelense lançada em Gaza, em represália ao ataque sem precedentes do movimento islamista palestino Hamas, ocorrido em 7 de outubro de 2023.

"Pela primeira vez, percebe-se que a questão não diz respeito apenas aos democratas. É um problema que afeta a relação com os Estados Unidos", aponta Eli Kowaz, analista da Economic Cooperation Foundation, um think tank israelense que defende uma solução de dois Estados com os palestinos.

Netanyahu não comentou as eleições americanas nem as declarações de Trump sobre a ajuda militar. No entanto, Amit Segal, jornalista conhecido por sua proximidade com o primeiro-ministro, classificou a situação como uma "catástrofe" histórica para Israel.

Embora, nos últimos meses, Netanyahu tenha indicado a necessidade de Israel reduzir sua dependência da ajuda militar americana, especialistas sustentam que o país não está preparado para um corte abrupto.

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"Israel pode se adaptar a uma nova realidade estratégica (...), mas o desafio será árduo. Isso o obrigará a considerar decisões difíceis, como contrair empréstimos vultosos ou aumentar impostos", observa Ehud Eilam, ex-pesquisador do Ministério da Defesa de Israel.

Israel conta com sua própria indústria bélica e mantém uma clara vantagem em confrontos contra atores não estatais, como o Hamas ou o Hezbollah, no Líbano. Contudo, sem o apoio dos Estados Unidos, corre o risco de ter de recorrer a uma artilharia menos custosa e menos sofisticada, o que aumentaria a probabilidade de baixas civis, algo que já tem provocado indignação na comunidade internacional.

Eisenkot poderia recompor a relação?

Gadi Eisenkot, figura da oposição que busca desbancar Netanyahu, apresenta-se como alguém capaz de recompor a relação com Washington.

Em uma declaração incomum em inglês, o ex-chefe do Estado-Maior expressou seu desejo de trabalhar "estreitamente e de maneira construtiva" com Trump.

No entanto, "Eisenkot não conseguirá obter uma atitude mais conciliadora por parte do novo Congresso simplesmente mostrando-se mais amável", prevê Sternhell. "Ele terá que propor novas políticas."

Ainda mais considerando que o Congresso americano se prepara para receber novos democratas progressistas, como Abdul El-Sayed, o primeiro muçulmano eleito para o Senado, que classificam a guerra em Gaza como "genocídio", uma afirmação que Israel rejeita. A especialista lembra, contudo, que a sociedade israelense está hoje profundamente voltada para a direita, e que a guerra em Gaza contou, inicialmente, com amplo apoio da população.

O líder da esquerda israelense, Yair Golan, defendeu o retorno a uma abordagem bipartidária na relação com Washington, algo que, segundo ele, Netanyahu destruiu.

Netanyahu promoveu uma "narrativa israelense destrutiva de guerra eterna e governo autoritário", afirma. "É exatamente o oposto do espírito americano."