O Banco Central do Paraguai interveio nesta terça-feira (3) no Ueno Bank, ligado ao presidente Santiago Peña, e deixou seus correntistas sem acesso imediato ao próprio dinheiro. A crise levou, horas depois, à renúncia do presidente do órgão regulador, Carlos Carvallo.
O Ueno Bank, que administra valores milionários de fundos de pensão e outras verbas estatais, sofreu intervenção por apresentar uma grave insuficiência de capital. Seus serviços foram suspensos enquanto as autoridades organizam a devolução dos depósitos.
A intervenção tem como objetivo "proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro", informou o Banco Central em comunicado. Quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios tem conta no Ueno Bank.
Renúncia do presidente do Banco Central do Paraguai
Carvallo, que havia presidido a financeira Ueno antes de assumir o comando do Banco Central do Paraguai (BCP), em 2023, antecipou na manhã desta terça-feira que renunciaria em breve, mas que permaneceria no cargo durante a investigação.
"Acredito que dar um passo para o lado seja uma contribuição para reduzir os ruídos e permitir que o Banco Central do Paraguai e meus colegas (...) possam desenvolver seu trabalho sem a interferência de discussões de caráter político e midiático."
No entanto, horas depois, formalizou sua renúncia junto ao Poder Executivo e a comunicou em uma nota enviada ao Senado, à qual a AFP teve acesso. Pouco antes, Peña havia solicitado a renúncia do funcionário "diante dos fatos de conhecimento público registrados ao longo do dia", em publicação na rede social X.
Protestos e contas bloqueadas
Em Assunção, longas filas de pessoas se formaram nesta terça-feira em frente às agências do Ueno Bank, na tentativa de retirar seu dinheiro. O Banco Central assegurou que os clientes com depósitos bloqueados na instituição "receberão um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis", cerca de R$ 9.200.
No fim da tarde desta terça-feira, dezenas de pessoas realizaram uma manifestação no centro de Assunção, carregando cartazes com os dizeres "Impeachment de Santi Peña". O sistema bancário eletrônico já apresentava falhas desde segunda-feira, e as transações de pequenos poupadores foram bloqueadas.
"Perdi todas as economias da minha vida, só tenho 8 mil guaranis (R$ 7,35). Todos devem ir para a prisão", disse à AFP, em lágrimas, Marcelino Vergara, de 68 anos, que participava da manifestação.
Envolvimento de Santiago Peña
Peña, que assumiu a Presidência em 2023 para um mandato até 2028, possuía ações de um grupo que controlava o Ueno Bank, das quais se desvinculou em 2025.
O prejuízo é superior a US$ 3 bilhões (R$ 16,47 bilhões), afirmou à AFP o senador oposicionista Rafael Filizzola, ao confirmar que a oposição trabalha em um texto acusatório que busca viabilizar um eventual impeachment de Peña. O presidente "tem participação direta porque existe um mecanismo que foi montado antes mesmo de ele assumir o governo", explicou.
Desde então, "flexibilizou os mecanismos das leis anticorrupção, criou-se o banco (Ueno), do qual ele era acionista e depois renunciou à participação diante das pressões", afirmou. "Quase todos os recursos públicos e as economias do Estado foram direcionados ao banco. Sua ligação com esse escândalo é direta", acusou.
Após o escândalo, o presidente cancelou uma viagem prevista a Madri, onde participaria da 30ª Cúpula Ibero-Americana.
Diretores do banco presos
A Justiça paraguaia ordenou a prisão de oito diretores do banco, entre eles seu presidente, Miguel Vázquez, que se entregou à polícia na tarde de terça-feira.
"Ele quer se colocar à disposição da Justiça", declarou à imprensa local o advogado de Vázquez, Víctor Dante Gulino, que o levou em seu veículo até o Departamento de Investigações de Assunção. "Ele ficará alojado em uma das duas celas de segurança que temos", informou à imprensa o comissário Hugo Grance, chefe do Departamento de Investigações. "Comunicaremos o Ministério Público para que determine o destino final do senhor", acrescentou.