Mundo

Entenda como a entrada de milhares de marroquinos em Ceuta pode afetar a livre circulação na Europa

Crise diplomática causada pela entrada de 60 mil migrantes prejudica relações de Marrocos com a União Europeia e até mesmo dentro do bloco

Na semana passada, cerca de 60 mil pessoas entraram em Ceuta, cruzando a divisa terrestre entre os territórios africano e o europeu
Na semana passada, cerca de 60 mil pessoas entraram em Ceuta, cruzando a divisa terrestre entre os territórios africano e o europeu Foto : HENRY NICHOLLS / AFP/CP

As imagens de milhares de pessoas cruzando a fronteira entre Marrocos e Espanha na cidade de Ceuta tiveram repercussão mundial e os impactos do episódio ainda estão se desenrolando e sendo avaliados. Na avaliação do professor de Relações Internacionais Felipe Dalcin, o caso afeta as relações de Marrocos com o bloco europeu, mas pode gerar desgaste também da Espanha com seus vizinhos

Na semana passada, cerca de 60 mil pessoas entraram em Ceuta, cruzando a divisa terrestre entre os territórios africano e europeu. Pelo menos 77 pessoas morreram. O episódio ocorre em meio a tensões diplomáticas entre Espanha e Marrocos e dias após o anúncio de uma mudança na interpretação das regras para a devolução imediata de migrantes interceptados no mar por parte da Espanha.

Alguns atritos entre os dois governos antecederam a migração em massa. O governo espanhol sugeriu um projeto de lei que concederia nacionalidade aos saarauís nascidos quando o Saara Ocidental ainda estava sob tutela espanhola, antes de 1977. A reaproximação entre Espanha e Argélia, que rejeita a reivindicação marroquina sobre o Saara Ocidental, também contribuiu para o tensionamento.

A aproximação entre Marrocos, Estados Unidos e Israel é outro ingrediente da crise. Desde 2020, no primeiro governo de Donald Trump, Washington reconhece a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental.

Os efeitos sobre a livre circulação de pessoas nos países da União Europeia já podem ser percebidos. A Itália suspendeu o acordo de livre circulação com a Espanha. Os líderes da União Europeia discutem a elaboração de uma resposta conjunta à crise disparada pelo episódio.

A forma como dezenas de milhares de pessoas cruzaram a fronteira de uma vez só sugere uma ação orquestrada. O governo espanhol classificou o episódio como “ataque à soberania nacional” e denunciou a participação de redes criminosas de tráfico de pessoas, que teriam incentivado ou organizado parte das travessias.

Em 2021, 5 mil migraram em um dia

Ceuta é uma cidade autônoma, localizada no continente africano. É considerada território espanhol, um resquício da colonização europeia no continente africano que nunca foi bem aceita pelos marroquinos, que reivindicam a soberania de Ceuta e Melilla desde a independência do país, em 1956.

Em 2021, um episódio semelhante havia sido registrado. Na ocasião, cerca de 5 mil pessoas entraram em Ceuta em um mesmo dia, pelo mar ou atravessando as cercas que dividem os territórios. O caso de cinco anos atrás também se deu em meio a tensões diplomáticas, após a Espanha acolher o líder do Saara Ocidental, Brahim Ghali, para tratamento médico contra a covid-19.

Migração em massa gera pressão militar sobre a Espanha | Foto: JORGE GUERRERO / AFP / CP

Como ficam as relações entre Marrocos, Espanha e União Europeia

Dalcin, professor da Unochapecó e diretor de pesquisa do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), cita o Espaço Schengen, tratado que prevê a livre circulação de pessoas entre os países signatários.

Esse cenário deve fazer com que Marrocos tenha problemas diplomáticos não só com os espanhóis. “Representa uma crise nas relações entre Marrocos e Espanha, mas também as relações entre o país africano com a União Europeia. Pode ter uma reverberação negativa para Marrocos, na forma de sanções econômicas e piora das relações políticas”.

Para Dalcin, o episódio gera uma pressão militar sobre a Espanha, que não dispõe de um grande exército e precisa deslocar contingente para defender Ceuta e Melilla, do outro lado do oceano.

“A gente pode dizer de certa maneira que há uma utilização geopolítica de Marrocos de querer liberar essa fronteira, porque aumenta os custos políticos, econômicos e de Defesa, para controlar esses territórios. E gera pressão também dos outros países da União Europeia em relação à Espanha, de falar ‘como assim? controla teu território, Espanha’.”

Veja Também

Episódio deve impactar livre circulação na União Europeia

O caso deve afetar ainda a livre circulação de pessoas dentro da União Europeia. O Espaço Schengen é um tratado que libera a livre circulação de pessoas dentro dos países signatários.

“Quando você viaja, por exemplo, de Portugal para a França, você não tem um controle do seu passaporte, não passa por imigração, tem uma livre circulação”, explica Dalcin. “Então esses imigrantes poderiam simplesmente passar as fronteiras sem ter um controle específico. E o temor de que esses países recebam um grande fluxo de imigrantes faz com que alguns países tenham reagido, como a Itália que fechou fronteiras”.

Discurso xenofóbico pode crescer

Para Dalcin, outra possível consequência de movimentos migratórios de massa é o aumento de um discurso xenofóbico, que pode se voltar, não somente para os imigrantes que chegam agora, mas de forma geral a pessoas que vieram de outros lugares e que já vivem integradas à Europa.

“Aumenta a visão que você tem que barrar esse tipo de pessoa, e é algo muitas vezes utilizado por partidos xenófobos, com uma visão de extrema-direita, que veem o imigrante como um problema para os europeus, de que roubam os impostos e os empregos dos europeus.

Aumento de discurso xenofóbico é uma das consequências de casos de migração em massa, aponta especialista | Foto: HENRY NICHOLLS / AFP / CP