Os iranianos acordaram, nesta terça-feira (25), preocupados com as consequências das novas sanções anunciadas na véspera pelos Estados Unidos, que prometeram "asfixiar" economicamente o país, enquanto longas filas se formavam nos postos de gasolina. Os Estados Unidos buscam pressionar economicamente o Irã depois que, quase seis meses após o início da guerra desencadeada por Washington, as negociações de paz ficaram paralisadas, sem perspectiva de fim para o conflito.
Enquanto isso, o Irã mantém fechado o estratégico Estreito de Ormuz, e os Estados Unidos sustentam o bloqueio naval contra a República Islâmica. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, e seu homólogo do Omã, Badr al-Busaidi, se reuniram nesta terça-feira em Teerã e discutiram o estabelecimento de um corredor de navegação temporário nesta via e um acordo para iniciar um processo de desminagem, segundo um comunicado conjunto divulgado por Omã.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, apresentou na segunda-feira um plano para promover a "asfixia econômica" do Irã e advertiu sobre graves consequências para os países que se recusarem a aderir à campanha de Washington.
Os dirigentes iranianos minimizaram as consequências para um país submetido a sanções há décadas, mas alguns moradores da capital, Teerã, já temiam o impacto econômico e formaram longas filas nos postos de gasolina.
"É lógico que as sanções afetem a vida das pessoas. Há pessoas sofrendo, tanto as que têm uma boa situação econômica quanto as que têm menos recursos", afirmou Mehdi Yazdian, um corretor de imóveis de 55 anos, que pediu às autoridades que controlem os preços. Para Yazdian, as restrições estão surtindo efeito, mas ressaltou que a população iraniana é "resiliente".
Taneen, uma estudante de arquitetura de 23 anos, destacou que durante toda a sua vida seu país esteve sob sanções. "Essa pressão recai sobre toda a família", afirmou, contando que o pai lhes disse que precisavam sair para comprar comida agora "porque vai ficar mais cara".
Inflação cresce antes da guerra
O Irã já enfrentava uma inflação muito elevada antes da guerra, um dos fatores que impulsionaram a onda de protestos contra o governo que atingiu seu auge em janeiro. O governo respondeu às manifestações com uma repressão que, segundo organizações de direitos humanos, matou milhares de pessoas. As autoridades iranianas atribuem a violência a "atos terroristas" instigados pelos Estados Unidos e por Israel.
O Irã executou pessoas processadas por envolvimento nas manifestações e Trump manifestou indignação nesta terça-feira. "Esta é uma crise humanitária de proporções épicas e precisa parar, AGORA", escreveu em sua rede Truth Social.
- Longas filas no Irã após EUA anunciarem novas sanções
- EUA promete asfixiar economicamente o Irã
- Petróleo fecha em queda com sanções dos EUA ao Irã e tráfego em Ormuz
Cotas de gasolina serão revisadas
Imagens da AFP mostraram, nesta terça-feira, filas de carros que se formavam nos postos de gasolina. O chefe de gabinete do presidente iraniano Mohsen Haji-Mirzaei disse que serão revistas as cotas de gasolina.
"O que é certo é que as cotas serão reduzidas sem alterar o preço, mas quem quiser comprar mais gasolina da cota terá um preço mais alto", disse o funcionário à TV estatal. Bessent afirmou na segunda-feira que os países que não aderirem às sanções americanas "compartilharão o isolamento" do Irã.
O Departamento do Tesouro detalhou que adotou sanções secundárias, que atingem não apenas o Estado, mas também aqueles que fazem negócios com ele, contra setores críticos como ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo.
A China, importante compradora de petróleo iraniano, declarou nesta terça-feira que se opõe às sanções e que tomará todas as medidas necessárias para proteger seus direitos e interesses. O secretário do Tesouro não descartou que bancos chineses sejam afetados e advertiu que "qualquer entidade que facilitar a lavagem de dinheiro em nome do Irã será excluída do sistema do dólar americano".
O Irã respondeu em tom de desafio e o ministro da Economia iraniano, Ali Madanizadeh, afirmou à televisão estatal pouco depois do anúncio de Bessent que o país se preparava há muito tempo. Madanizadeh disse que os Estados Unidos "fracassaram em todas as ocasiões" e parecem querer sofrer "uma nova derrota".
O Irã desenvolveu um complexo sistema financeiro para contornar as sanções que afetam sua economia há décadas. Saeed Laylaz, economista iraniano que vive em Teerã, explicou à AFP que as novas medidas americanas fazem parte da estratégia de "pressão máxima" defendida por Trump desde seu primeiro mandato.
"Não há nada que os Estados Unidos possam fazer que já não tenham feito antes", afirmou Laylaz, que considera a economia iraniana amplamente autossuficiente após anos de isolamento. Segundo o especialista, porém, existem dúvidas sobre a capacidade do governo de enfrentar os problemas domésticos, entre eles a corrupção, os desequilíbrios do sistema bancário e a inflação.