Cerca de 256 mil pessoas protestam nesta terça-feira, 6, na França, reivindicando melhores condições nas escolas de ensino médio, segundo o Ministério do Interior. Os atos ampliam a pressão sobre o governo Macron, acusado de responder com violência policial a um movimento que já fechou quase 900 escolas e deixou mais de 5 mil detidos.
A mobilização surgiu em 17 de setembro, em uma escola de ensino médio de Créteil, na região de Paris, e se espalhou pelo País. Desde então, alunos de 15 a 18 anos, em sua maioria, bloqueiam centenas de escolas para protestar contra a falta de professores, a carga horária excessiva e prédios deteriorados, sem estrutura para enfrentar o aumento das temperaturas.
Nesta segunda-feira, 5, um adolescente de 15 anos perdeu uma mão na explosão de uma granada policial em Lens, no norte do País, enquanto outros estudantes perderam a visão de um olho ou dentes durante as investidas das forças de segurança.
Segundo o Ministério da Educação, 589 das 3.700 escolas de ensino médio do País estavam total ou parcialmente fechadas na segunda por causa das manifestações. Hoje, terça-feira, 6, eram quase 900.
Os atos começaram pela manhã em Marselha, Lyon e Nantes, que reuniram 86 mil manifestantes, e seguiram à tarde para Paris, onde 56 mil pessoas marcharam, acima das até 40 mil esperadas pelas autoridades. Estudantes, pais, professores e sindicatos também foram às ruas em Estrasburgo e Rennes, sob forte vigilância policial.
As organizações estudantis USL, Fage, Union Étudiante e Unef, que convocaram os atos, contabilizaram 450 mil participantes no País, 100 mil deles na capital.
“Hoje eu protesto porque tenho medo do meu futuro e quero reivindicar meus direitos”, disse Selma, de 15 anos, em Marselha. Em Nantes, a faixa à frente da marcha dizia: “Escolas sem dinheiro, País sem futuro”.
Em Paris, um cartaz em frente à escola Turgot avisava: “Faltamos à aula para lhes dar uma lição”. “Está claro que o sistema educacional não funciona”, disse à AFP Alma, aluna da escola Charlemagne. Seu colega Simon criticou a tentativa de canalizar o protesto para canais on-line: “Acham que, só porque permitem nos expressar em uma plataforma, na internet, vamos deixar de bloquear os acessos e de ficar indignados, mas essa indignação existe há anos”.
Emmanuelle Artiguebieille, mãe que planejava ir ao ato em Estrasburgo, no nordeste do País, disse à AFP que “os jovens têm razão em se mobilizar” por “turmas menos lotadas e condições de ensino dignas”. “Nosso lugar, como pais, é estar ao lado deles, para ajudar a reduzir a tensão”, afirmou.
- Ultradireitista Le Pen promete cortes drásticos para evitar inadimplência da França
- Centenas de escolas são fechadas na França por protestos estudantis
Repressão sob críticas
A resposta repressiva às manifestações coloca o governo sob pressão. No caso de Lens, uma fonte sindical da polícia afirma que o adolescente recolheu do chão a granada de dispersão lançada pela tropa de choque. O Ministério Público, porém, ainda não determinou se ele pegou o artefato ou se ele caiu sobre o jovem. O ministro da Educação, Édouard Geffray, chama o episódio de situação "humanamente dramática", pede prudência enquanto as circunstâncias são investigadas e diz que proteger os alunos é a "prioridade absoluta" do governo.
Desde o início do movimento, o governo contabiliza 215 alunos, 85 profissionais da educação e 715 policiais feridos. Dos 5.060 detidos, 87% são menores de idade. Segundo as autoridades, 24 escolas foram incendiadas ou saqueadas. Em Lille, no norte, atos de segunda-feira terminaram com abrigos de ônibus danificados e lixeiras incendiadas, o que levou à intervenção da polícia.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, sustenta que as intervenções seguem a “máxima proporcionalidade”. A polícia abriu 10 investigações internas contra agentes acusados de brutalidade. A Anistia Internacional pede na segunda-feira o “fim da repressão policial desproporcional”, e a Comissão Nacional Consultiva de Direitos Humanos (CNCDH) manifesta “profunda preocupação” e cobra “máxima moderação no uso da força e na abertura de processos judiciais” contra estudantes.
Governo quer cobrar danos das famílias
Além de buscar soluções para o problema da falta de professores e para a reforma de prédios, o primeiro-ministro, o centrista Sébastien Lecornu, propõe uma lei para obrigar os responsáveis por danos ao patrimônio público a pagar pelos reparos. Pelo texto, as indenizações podem ser descontadas de benefícios familiares e auxílios-moradia, preservando um patamar mínimo de renda.
A proposta foi criticada por sindicatos e organizações de esquerda.
A secretária-geral da central sindical CGT, Sophie Binet, classifica a medida como um “anúncio populista” e alerta que ela pode acabar afetando as famílias mais vulneráveis.
O governo do presidente Emmanuel Macron acusa o partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI) de estar por trás dos protestos. O líder da sigla e candidato à Presidência, Jean-Luc Mélenchon, manifesta apoio aos estudantes, embora tenha defendido o uso de métodos não violentos.
A mobilização ocorre meses antes da eleição presidencial de 2027, em que a ultradireitista Marine Le Pen lidera as pesquisas, e enquanto o governo tenta aprovar um orçamento com forte ajuste fiscal para reduzir o déficit e a dívida pública, sob pressão dos mercados.