Polícia

Ativista órfão do feminicídio tem depoimento emocionante em seminário do MPRS

Lili de Grammont palestrou em evento de capacitação para profissionais do sistema de justiça gaúcho

RS soma 24 feminicídios somente em 2026
RS soma 24 feminicídios somente em 2026 Foto : Fabiano do Amaral

“As mortes são naturais. Mas os feminicídios são evitáveis.” Foi com essa frase que a coreógrafa, psicóloga e ativista contra a violência doméstica Lili de Grammont abriu, na tarde desta quinta-feira, o seminário “Ampliando o olhar do Sistema de Justiça: feminicídio, subnotificação e respostas institucionais”. O evento, promovido pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), ocorreu no auditório da instituição, em Porto Alegre, e reuniu autoridades, promotores de Justiça e outros integrantes do sistema de Justiça. No telão, o número 24 lembrava a quantidade de mulheres vítimas de feminicídio somente em 2026 no Estado.

Em um relato emocionante, Lili de Grammont compartilhou a história que marcou sua vida. Quando tinha apenas dois anos, em 1981, sua mãe, a cantora Eliane de Grammont, foi assassinada a tiros pelo pai da ativista, o também cantor Lindomar Castilho, durante uma apresentação. “Eu tive um relacionamento intenso com meu pai, que foi o autor da violência contra a minha mãe, e isso desperta a curiosidade de alguns homens, que ainda são fãs dele e ouvem suas músicas. Entendi que era uma oportunidade de abrir diálogo com esses homens, falar sobre masculinidades e sobre como pequenas ações do dia a dia revelam uma sociedade extremamente machista e misógina em sua base”, disse.

A ativista, que pediu para não ser fotografada, também relatou um episódio recente. Ao ir a um salão de beleza nesta quinta-feira e comentar sobre sua vinda ao Rio Grande do Sul e a história de seus pais, ouviu de um profissional: “É, mas sua mãe aprontou, né?”. “Não, ela estava tentando sair de um relacionamento abusivo. Se ouvimos essa frase hoje, imagina em 1981”, respondeu.

Conjunto de ações

A coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, Ivana Battaglin, lamentou os 24 feminicídios registrados em 2026 no Estado. Ela destacou a importância da qualificação dos profissionais que atuam nesses casos. “O objetivo do evento é capacitar policiais, juízes e promotores para uma análise mais precisa desses crimes, evitando a subnotificação e distinguindo corretamente o que é feminicídio”, afirmou.

Ivana Battaglin discursou durante o seminário | Foto: Fabiano do Amaral

Ivana também ressaltou a necessidade de investir em prevenção, especialmente em casos de violência moral e patrimonial, que frequentemente antecedem o feminicídio. Segundo ela, o Ministério Público atua como indutor de políticas públicas e articulador da rede de enfrentamento à violência contra a mulher. “É fundamental que os órgãos trabalhem de forma integrada, para que a vítima não precise percorrer uma rota crítica em busca de ajuda. Quando há comunicação entre as instituições, essa mulher é acolhida e tem mais chances de romper o ciclo de violência antes que ele evolua para o feminicídio”, explicou.

Órfãos do feminicídio

Após a palestra de abertura, foram apresentados os primeiros dados do Projeto Pedros e Marias, voltado ao acolhimento de vítimas indiretas do feminicídio, como filhos e pais de mulheres assassinadas.

A subprocuradora-geral Alessandra Moura Bastian da Cunha destacou que, com base nos 24 casos registrados neste ano no Estado, o MPRS já identificou 47 órfãos: 15 maiores de 18 anos e 27 menores. Há ainda cinco órfãos vinculados a um caso específico em que a vítima era de outro Estado, o que impede, até o momento, a identificação da faixa etária.

“O Projeto Pedros e Marias reafirma que cada nome representa uma vida profundamente transformada pela violência. O compromisso do MPRS é garantir que essas histórias sejam acolhidas com dignidade, proteção e responsabilidade, por meio de uma rede de cuidado integral e sensível. O feminicídio é um crime de muitas vítimas: não temos apenas uma mulher com a vida interrompida, mas filhos, pais e histórias brutalmente marcadas por esse ato extremo. São essas histórias que precisamos contar”, ressaltou.

Seminário “Ampliando o olhar do Sistema de Justiça: feminicídio, subnotificação e respostas institucionais”, | Foto: Fabiano do Amaral

Seminário continua

Promovido pelo MPRS em parceria com o Tribunal de Justiça, a Polícia Civil e o programa RS Seguro, o seminário é gratuito e continua nesta sexta-feira, das 9h às 17h, no Auditório Mondercil Paulo de Moraes, na sede do MPRS, em Porto Alegre (Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, 80, 3º andar).

A programação completa está disponível aqui.

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