“As mortes são naturais. Mas os feminicídios são evitáveis.” Foi com essa frase que a coreógrafa, psicóloga e ativista contra a violência doméstica Lili de Grammont abriu, na tarde desta quinta-feira, o seminário “Ampliando o olhar do Sistema de Justiça: feminicídio, subnotificação e respostas institucionais”. O evento, promovido pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), ocorreu no auditório da instituição, em Porto Alegre, e reuniu autoridades, promotores de Justiça e outros integrantes do sistema de Justiça. No telão, o número 24 lembrava a quantidade de mulheres vítimas de feminicídio somente em 2026 no Estado.
Em um relato emocionante, Lili de Grammont compartilhou a história que marcou sua vida. Quando tinha apenas dois anos, em 1981, sua mãe, a cantora Eliane de Grammont, foi assassinada a tiros pelo pai da ativista, o também cantor Lindomar Castilho, durante uma apresentação. “Eu tive um relacionamento intenso com meu pai, que foi o autor da violência contra a minha mãe, e isso desperta a curiosidade de alguns homens, que ainda são fãs dele e ouvem suas músicas. Entendi que era uma oportunidade de abrir diálogo com esses homens, falar sobre masculinidades e sobre como pequenas ações do dia a dia revelam uma sociedade extremamente machista e misógina em sua base”, disse.
A ativista, que pediu para não ser fotografada, também relatou um episódio recente. Ao ir a um salão de beleza nesta quinta-feira e comentar sobre sua vinda ao Rio Grande do Sul e a história de seus pais, ouviu de um profissional: “É, mas sua mãe aprontou, né?”. “Não, ela estava tentando sair de um relacionamento abusivo. Se ouvimos essa frase hoje, imagina em 1981”, respondeu.
Conjunto de ações
A coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, Ivana Battaglin, lamentou os 24 feminicídios registrados em 2026 no Estado. Ela destacou a importância da qualificação dos profissionais que atuam nesses casos. “O objetivo do evento é capacitar policiais, juízes e promotores para uma análise mais precisa desses crimes, evitando a subnotificação e distinguindo corretamente o que é feminicídio”, afirmou.
Ivana também ressaltou a necessidade de investir em prevenção, especialmente em casos de violência moral e patrimonial, que frequentemente antecedem o feminicídio. Segundo ela, o Ministério Público atua como indutor de políticas públicas e articulador da rede de enfrentamento à violência contra a mulher. “É fundamental que os órgãos trabalhem de forma integrada, para que a vítima não precise percorrer uma rota crítica em busca de ajuda. Quando há comunicação entre as instituições, essa mulher é acolhida e tem mais chances de romper o ciclo de violência antes que ele evolua para o feminicídio”, explicou.
Órfãos do feminicídio
Após a palestra de abertura, foram apresentados os primeiros dados do Projeto Pedros e Marias, voltado ao acolhimento de vítimas indiretas do feminicídio, como filhos e pais de mulheres assassinadas.
A subprocuradora-geral Alessandra Moura Bastian da Cunha destacou que, com base nos 24 casos registrados neste ano no Estado, o MPRS já identificou 47 órfãos: 15 maiores de 18 anos e 27 menores. Há ainda cinco órfãos vinculados a um caso específico em que a vítima era de outro Estado, o que impede, até o momento, a identificação da faixa etária.
“O Projeto Pedros e Marias reafirma que cada nome representa uma vida profundamente transformada pela violência. O compromisso do MPRS é garantir que essas histórias sejam acolhidas com dignidade, proteção e responsabilidade, por meio de uma rede de cuidado integral e sensível. O feminicídio é um crime de muitas vítimas: não temos apenas uma mulher com a vida interrompida, mas filhos, pais e histórias brutalmente marcadas por esse ato extremo. São essas histórias que precisamos contar”, ressaltou.
Seminário continua
Promovido pelo MPRS em parceria com o Tribunal de Justiça, a Polícia Civil e o programa RS Seguro, o seminário é gratuito e continua nesta sexta-feira, das 9h às 17h, no Auditório Mondercil Paulo de Moraes, na sede do MPRS, em Porto Alegre (Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, 80, 3º andar).
A programação completa está disponível aqui.