A Brigada Militar (BM) está ampliando a formação de policiais e outros profissionais de segurança pública para o atendimento de ocorrências envolvendo pessoas em crise de saúde mental. Nesta sexta-feira, uma atividade prática realizada no Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, encerrou a quinta edição do curso Atendimento de Ocorrências de Urgência e Emergência em Saúde Mental – Nível Multiplicador.
Com carga horária de 50 horas, o curso começou em 31 de agosto e reuniu 24 profissionais, entre policiais militares, policiais civis, policiais penais e bombeiros militares. Além de participantes do Rio Grande do Sul, a turma teve integrantes de Santa Catarina e Pernambuco. Ao todo, 115 profissionais já foram formados no Estado.
Durante a atividade desta sexta, os alunos participaram de simulações de situações de crise, incluindo tentativas de suicídio com uso de arma branca, armas impróprias e armas de fogo. A proposta foi aproximar os profissionais de situações que podem ser encontradas durante o atendimento de ocorrências e oferecer ferramentas para uma abordagem técnica e humanizada.
Segundo o tenente-coronel Pedro Alexander Beron da Cunha, a formação reúne conhecimentos de áreas como psiquiatria, psicologia, legislação e abordagem policial humanizada. O objetivo é preparar os agentes para reconhecer que a pessoa em crise está em uma situação de sofrimento e utilizar técnicas que possam reduzir os riscos. “Ele recebe ferramentas para que isso seja minimizado e que sempre se respeite a preservação de vidas, alicerçada à legislação brasileira”, afirma Beron.
A formação ocorre dentro de uma mudança mais ampla na forma de atendimento dessas ocorrências no Estado. Neste ano, a BM passou a adotar, em conjunto com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), um protocolo específico para situações envolvendo pessoas em crise de saúde mental.
Pelas novas regras, os atendentes do 190 e do Samu fazem perguntas estruturadas durante o acionamento para reunir informações sobre a situação. As equipes recebem os mesmos dados e são orientadas a se encontrar antes de chegar ao local, permitindo uma atuação conjunta.
Conforme Beron, a capacitação busca fazer com que o conhecimento chegue ao maior número possível de policiais militares. Além da formação presencial de multiplicadores, a BM também oferece capacitação a distância aos integrantes da corporação.
Para a diretora do Departamento de Gestão dos Hospitais Estaduais, que administra o São Pedro, Maria Letícia Ikeda, a mudança representa uma aproximação entre as áreas de segurança e saúde. Segundo ela, a pessoa em crise passa a ser compreendida como alguém que necessita de atendimento de saúde, e não como alguém que necessariamente está praticando uma ação criminosa. “É essa possibilidade do atendimento conjunto entre saúde e segurança e a Polícia Militar, entrando nesta abordagem de uma forma diferente, que permite ver este indivíduo que está numa crise de saúde mental como uma pessoa doente em um momento agudo de seu transtorno”, afirma.
O protocolo foi elaborado conjuntamente pela Secretaria da Segurança Pública e pela Secretaria Estadual da Saúde. A integração prevê que os profissionais das duas áreas atuem a partir das mesmas informações e avaliem juntos a gravidade da crise e os riscos apresentados.
A iniciativa também começa a ser observada por outros Estados. A sargento Niedja Freitas, da Polícia Militar de Pernambuco, participou da formação e pretende levar o conhecimento adquirido para a corporação pernambucana. “Fiquei surpreendida com a capacidade e o conhecimento técnico que a Brigada daqui do Rio Grande do Sul tem. Achei fantástico e, com certeza, vou levar comigo muito conhecimento para passar para os pernambucanos”, afirma.
Segundo a sargento, Pernambuco já desenvolve ações voltadas à saúde mental, mas ainda busca avançar na institucionalização de protocolos para o atendimento externo. Para ela, a experiência gaúcha reforça a necessidade de integrar as forças de segurança com os serviços de saúde.
Segundo Beron, a mudança já tem reflexos no atendimento das ocorrências. “Nós não tivemos nenhuma ocorrência atendida no ano de 2026 em que a Brigada Militar, mesmo com toda a intenção de preservação da vida, tenha chegado a um resultado indesejado, que é a morte daquela pessoa que está em sofrimento psíquico”, afirma.
O tenente-coronel ressalta, porém, que as guarnições seguem orientadas pelo uso progressivo da força e pela necessidade de agir em legítima defesa quando necessário, com o objetivo de reduzir riscos e preservar vidas.