Durante 12 dias, um dos principais líderes da facção “Bala na Cara”, William Ramos Silveira, o “Will”, permaneceu oficialmente dentro da Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas (PMEC). Na prática, porém, ele já havia deixado a unidade pela porta da frente. A reconstrução feita pela Polícia Civil na Operação Rota de Fuga aponta que um policial penal montou uma sequência de fraudes para dar aparência de legalidade à soltura, eliminar vestígios e impedir que a ausência do preso fosse percebida até o início de junho.
De acordo com a delegada Suélen Breda Panizzon, as investigações atribuíram ao policial penal Rudcrei da Costa Machado, preso na tarde de segunda-feira, em Pelotas, a falsificação da documentação usada para retirar William da prisão, a manipulação de registros internos e a inserção de movimentações falsas no sistema prisional. Preso preventivamente, ele também é investigado por possível recebimento de vantagens financeiras para facilitar a fuga, hipótese que ainda depende do aprofundamento da análise patrimonial.
Conhecido como "Will", o foragido é apontado pela Polícia Civil como gestor financeiro e bélico da facção Bala na Cara, com atuação principalmente em Cachoeirinha e Gravataí. Conforme a investigação, ele era responsável por ordenar homicídios e possui um histórico de mais de dez assassinatos, além de antecedentes por tráfico de drogas, organização criminosa e porte ilegal de arma. Restavam mais de 34 anos de pena a cumprir.
Segundo a delegada Suélen Breda Panizzon, William é uma das principais lideranças da organização criminosa na Região Metropolitana. "Ele é conhecido por ser o executor da facção na cidade. Foi condenado por mais de dez homicídios qualificados e deveria permanecer preso. Em hipótese alguma receberia um alvará de soltura", afirmou.
Segundo a investigação, a fraude começou antes mesmo da saída de "Will" da cela. O servidor trabalhava justamente no setor responsável por receber e processar as ordens judiciais de soltura encaminhadas pelo Poder Judiciário ao sistema prisional. O policial penal era responsável pelo setor do Infopen, área encarregada de receber as decisões judiciais de soltura, prisão domiciliar e monitoramento eletrônico, além de realizar a conferência biométrica e dos dados dos apenados antes do cumprimento das ordens judiciais.
Foi nessa função que, conforme a Polícia Civil, ele teria confeccionado uma guia de soltura e uma autorização, ambas falsas, em nome do apenado, simulando todas as etapas que normalmente antecedem a liberação de um preso. Na manhã de 21 de maio, às 9h08min, um policial penal retirou o criminoso do Módulo VII e o levou até a sala do Infopen, onde o policial penal já aguardava. No local também estava outro apenado, que possuía alvará de soltura regular.
Segundo o diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais contra o Crime Organizado (Dercap), delegado Cassiano Cabral, somente um servidor daquele setor teria condições de simular todas as etapas necessárias para dar aparência de legalidade à saída. "Ele foi responsável por toda a simulação de legalidade da fuga do preso. Primeiro falsificou o alvará de soltura e entregou os documentos. Depois passou a eliminar todos os vestígios deixados por essa saída", afirmou.
Às 9h28min, os dois deixaram o setor em direção à portaria. Um minuto depois, William apresentou os documentos falsificados e saiu caminhando pela porta principal da penitenciária, aproveitando o momento da troca de visitas.
A presença do outro preso fazia parte da estratégia para conferir aparência de normalidade ao procedimento. Localizado posteriormente pela Polícia Civil, o ex-presidiário confirmou em depoimento que William permaneceu durante algum tempo na sala de Rudcrei antes de ambos serem conduzidos até a saída.
Rastros desapareceram
A investigação aponta que facilitar a saída do líder da facção era apenas a primeira etapa do plano. Logo depois da fuga, Rudcrei teria iniciado uma sequência de ações para eliminar qualquer vestígio da fraude. Conforme a Polícia Civil, ele retirou documentos da pasta funcional de William, subtraiu a segunda via da guia apresentada na portaria, arrancou folhas do livro de registro de saídas e alterou planilhas internas utilizadas para controle da população carcerária. Também teria utilizado credenciais de outros servidores para apagar informações e evitar que seu próprio acesso fosse identificado.
A fraude avançou ainda mais nos dias seguintes. Mesmo com William fora da prisão, o policial penal continuou realizando movimentações fictícias no INFOPEN, indicando que o preso havia sido transferido entre galerias, mudado de módulo e até encaminhado para atendimento hospitalar.
Entretanto, conforme a delegada Suélen , que conduziu as investigações, as movimentações nunca ocorreram. "Ele precisava manter uma aparência de regularidade e legalidade no sistema. Por isso passou a inserir movimentações que nunca aconteceram, utilizando inclusive logins de colegas. Tudo isso foi descoberto durante a investigação", afirmou.
Segundo ela, o servidor conhecia profundamente o funcionamento da unidade. "Ele tinha muita noção e muito conhecimento. Sabia exatamente o que estava fazendo", ressaltou.
Enquanto William circulava em liberdade, os registros oficiais indicavam que ele permanecia recolhido na PMEC. Para sustentar a fraude, Rudcrei ainda alterava os controles do efetivo carcerário durante as trocas de plantão, modificando a contagem de presos sem registrar oficialmente qualquer saída. Conforme a investigação, essas alterações permitiram que a ausência de William permanecesse despercebida por vários dias.
A Corregedoria da Polícia Penal identificou a inconsistência em 1º de junho. Ainda naquele dia, a análise das câmeras de monitoramento revelou o momento em que o preso deixou a unidade pela porta principal. No dia seguinte, a Polícia Civil foi comunicada e iniciou a investigação.
Segundo o diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais contra o Crime Organizado (Dercap), o delegado Cassiano Cabral, o trabalho envolveu centenas de horas de imagens, dezenas de depoimentos e uma reconstrução detalhada de todos os procedimentos adotados na penitenciária.
A investigação também identificou que, um dia após a fuga, Rudcrei solicitou transferência para a unidade prisional de Rio Grande. Para a delegada Suélen, a coincidência chamou a atenção dos investigadores. "Com certeza ele quis realmente sair do cenário dos fatos para não deixar nenhum resquício de que foi ele. Todas as movimentações fraudulentas foram feitas com logins de outros colegas. Ele simplesmente não quis deixar rastro", afirmou.
A Polícia Civil também apura se o servidor recebeu dinheiro para facilitar a fuga. Segundo a delegada, um dos elementos que reforçam essa linha de investigação é a evolução patrimonial do policial penal. "Ele recebia em torno de R$ 11 mil líquidos por mês. Porém havia adquirido recentemente uma caminhonete de quase R$ 240 mil, tendo dado uma entrada expressiva em dinheiro. Era um patrimônio mais avantajado se comparado aos outros policiais penais", disse.
Conforme Suélen, os indícios ainda serão aprofundados por meio da investigação financeira, mas reforçam a suspeita de que Rudcrei possa ter recebido vantagem para facilitar a fuga.
Além da prisão preventiva de Rudcrei, a Operação Rota de Fuga cumpriu mandados de busca e apreensão em Canoas, Pelotas e São José do Norte.
O delegado Cassiano Cabral afirmou que a investigação já identificou sinais patrimoniais incompatíveis com a renda declarada pelo servidor, mas ressaltou que ainda não é possível confirmar eventual pagamento. "A contraprestação financeira ainda depende de uma investigação mais aprofundada para que possamos afirmar isso com convicção”, explicou.
Apesar de a corrupção financeira ainda permanecer em investigação, a probabilidade de uma alta contrapartida financeira é reforçada pela alta probabilidade de que a fuga fosse descoberta. “É uma situação que custa muito a um servidor, porque, por mais que ele tenha apagado esses rastros, é lógico que conseguiríamos identificar a participação dele. Então, para a pessoa cometer um ato de tamanha gravidade, imaginamos que tenha alguma contraprestação ou pressão muito grande por parte da organização criminosa”, afirmou.
As apurações prosseguem para identificar se houve participação de integrantes da facção ou de outras pessoas na articulação da fuga, tanto dentro quanto fora do sistema prisional. Além disso, a Polícia Civil continua buscando informações que possam levar à localização do criminoso.
POSIÇÃO DA DEFESA
Paula Adriana Moreira Louzada, advogada de Rudicrei da Costa Machado, negou o envolvimento do cliente na fuga do apenado. “Em primeiro lugar, não há qualquer prova nos autos da participação do Rudicrei na fuga do apenado Willian. O que se tem são suposições de sua participação no fato. Ele é um servidor com vasta experiência no sistema e já teve vários cargos de chefia. Sempre contando com a confiança dos seus superiores. Agindo sempre com lisura em suas funções. Não se justificando a prisão antecipada e sem qualquer fundamento legal e jurídico. Sempre esteve à disposição das autoridades para esclarecimento dos fatos. O que nos causa estranheza a prisão cautelar. Uma vez que ele já se encontrava afastado de suas funções. Injustificando qualquer outra medida cautelar.”