O que começou com mensagens inesperadas em um grupo de WhatsApp, reunindo vítimas e seus próprios familiares, revelou um esquema sofisticado de extorsão digital que atingiu empresários de alto poder aquisitivo no Rio Grande do Sul. A investigação levou, nesta quarta-feira, à prisão de um engenheiro apontado como um dos principais articuladores do crime.
A ação faz parte da Operação Pizzo, deflagrada pela Polícia Civil por meio da Delegacia de Polícia de Investigações Cibernéticas Especiais (Dicesp), vinculada ao Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (Dercc). Ao todo, foram cumpridas sete ordens judiciais, sendo seis mandados de busca e apreensão e um de prisão preventiva, nas cidades de Gravataí e Viamão.
Segundo a polícia, o grupo exigia o pagamento de 10 bitcoins, o equivalente a cerca de R$ 4 milhões, para não divulgar informações sensíveis das vítimas. Em alguns casos, o total obtido com as extorsões pode ter chegado a aproximadamente R$ 10 milhões.
As investigações começaram após uma das vítimas procurar a Polícia Civil relatando que havia sido incluída, junto com familiares, em um grupo de mensagens. No espaço, os criminosos afirmavam possuir dados sigilosos obtidos por meio de supostas conexões com órgãos públicos e infiltrações em empresas.
Para manter o sigilo dessas informações, era exigido o pagamento de uma “taxa de anonimato e proteção”. Caso contrário, os dados seriam divulgados ou vendidos na internet.
De acordo com a apuração, os suspeitos demonstravam conhecimento aprofundado sobre a rotina das vítimas, seus familiares e até sobre a estrutura interna das empresas, o que conferia credibilidade às ameaças.
A investigação identificou um esquema estruturado para ocultar a autoria dos crimes. Entre as estratégias, estava o uso de um único aparelho celular com múltiplos chips cadastrados em nome de terceiros, além da utilização de diversas carteiras de criptomoedas.
Também foi constatada a elaboração de dossiês com informações pessoais e profissionais das vítimas, muitas vezes obtidas a partir de relações de proximidade.
O principal suspeito, segundo a polícia, é um engenheiro que atuava em um grande conglomerado do setor supermercadista, cujos sócios também teriam sido alvos do esquema. A partir dessa posição, ele teria tido acesso a dados privilegiados utilizados nas extorsões.
Entre as vítimas estão empresários de diferentes áreas, como construção civil, mercado imobiliário e comércio.
Tentativa de despistar investigação
Em um dos episódios apurados, o investigado utilizou dados de um idoso conhecido em Porto Alegre, com quem mantinha relação de proximidade, para cadastrar números de telefone e e-mails usados nas extorsões, numa tentativa de direcionar suspeitas a terceiros. Uma arquiteta, amiga da esposa do suspeito, também teve informações utilizadas após compartilhar dados em um contexto de confiança.
Com o cumprimento das ordens judiciais, a Polícia Civil pretende reunir provas adicionais e identificar outros envolvidos no esquema, além de interromper a prática das extorsões.
A delegada responsável pela investigação, Isadora Marina Galian Guarabyra, destacou a gravidade do caso e o nível de sofisticação da atuação criminosa. “A extorsão digital é um crime grave, que explora o medo e a vulnerabilidade das vítimas a partir do uso indevido de informações sigilosas. Neste caso, a investigação permitiu identificar não apenas os executores, mas também o provável fornecedor interno das informações utilizadas nas ameaças. A Polícia Civil não tolerará esse tipo de conduta, que abala a segurança de famílias e empresas gaúchas", afirmou.
A Operação Pizzo, nome que faz referência à prática mafiosa de cobrança forçada de valores, segue em andamento, com investigações mantidas sob sigilo.