Polícia

Estado mantém ofensiva contra facções e investigações avançam após sequência de execuções em Porto Alegre

Uma semana após o início da onda de homicídios, forças de segurança afirmam que protocolo segue em andamento e já atinge lideranças de organizações criminosas

Último crime da onda de homicídios foi registrada na manhã de segunda-feira
Último crime da onda de homicídios foi registrada na manhã de segunda-feira Foto : Guilherme Sperafico / Especial / CP

Uma semana após o início da sequência de homicídios que deixou dez mortos em Porto Alegre, as forças de segurança mantêm em andamento o Protocolo das Sete Medidas de Enfrentamento aos Homicídios e afirmam que as investigações avançaram para identificar executores, mandantes e lideranças de organizações criminosas envolvidas nos ataques.

Embora a Polícia Civil ainda não confirme oficialmente que todos os crimes tenham relação entre si, os investigadores admitem que parte das execuções apresenta características típicas de ataques e “repiques” entre facções criminosas.

O primeiro caso foi registrado na última terça-feira, quando Gabriel Becker de Farias, de 30 anos, e Therick Eduardo da Cruz Melo, de 25, foram mortos a tiros dentro de uma Range Rover, no bairro Cristal. A partir dali, Porto Alegre passou a registrar uma sequência de homicídios em diferentes regiões da Capital, principalmente na Zona Norte, levando as forças de segurança a acionarem o protocolo estadual criado para responder rapidamente a assassinatos ligados ao crime organizado.

Segundo o diretor da Divisão de Homicídios da Capital, delegado Thiago Lacerda, esse tipo de dinâmica é conhecido pelas forças de segurança e motivou a adoção imediata das medidas previstas pelo protocolo. "Não vínhamos registrando, há bastante tempo, uma sequência de ataques e repiques. Isso acontece quando uma facção sente que foi atingida e tende a revidar, mesmo sabendo que isso resultará na ativação do protocolo e de todas as medidas", afirmou.

Apesar disso, o delegado ressalta que ainda é cedo para afirmar que todos os homicídios façam parte da mesma cadeia de represálias. "São vários eventos e essa certeza ainda é muito precoce. Verificamos que alguns apresentam dinâmica semelhante pelos horários e circunstâncias, mas somente a investigação mais aprofundada permitirá ligar todos esses pontos", explicou.

Lacerda acrescentou que a execução registrada na manhã de segunda-feira no bairro Santana, quando Jaider Torão Ferreira Júnior foi morto ao chegar para uma sessão de fisioterapia, não integra, até o momento, essa sequência investigada pelas equipes do Departamento de Homicídios. "Já sabemos que esse caso não está relacionado ao que ocorreu em Porto Alegre nos últimos dias, mas sim ao histórico criminoso dele na Região Metropolitana", disse.

Jaider utilizava tornozeleira eletrônica, possuía antecedentes criminais e já havia sobrevivido a uma tentativa de homicídio em Canoas. Conforme a investigação, ele também era suspeito de participação no assassinato de um traficante em Canoas, em 2025, e possuía condenação por envolvimento em um assalto a banco ocorrido em Santa Catarina, em 2017.

Protocolo segue em andamento

Conforme o diretor do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado Mário Souza, quatro das medidas previstas pelo protocolo já estão sendo executadas simultaneamente.

"Temos a saturação diária em várias áreas da cidade com equipes da Polícia Civil e Brigada Militar, as revistas em presídios estão em andamento com a Polícia Penal, a responsabilização de lideranças também está em andamento e as investigações estão bastante adiantadas para prender executores, mandantes e lideranças", afirmou.

Segundo Souza, a transferência de lideranças criminosas, prevista como uma das etapas do protocolo, ainda permanece em análise. Inicialmente cogitada para esta semana, a medida dependerá da evolução das investigações e da avaliação conjunta das forças de segurança.

Em nota, a Polícia Penal informou apenas que atua de forma integrada com os demais órgãos de segurança pública e ressaltou que as informações sobre a transferência de apenados “não são informadas e nem detalhadas por questões de segurança”.

Resposta rápida busca impedir novos ataques

De acordo com Lacerda, além de permitir uma reação imediata do Estado, o protocolo procura impedir que novas mortes ocorram enquanto as investigações são aprofundadas. "Desde a semana passada colocamos em prática as medidas previstas, com saturação das áreas, dificultando a atividade desses grupos, demonstrando a presença das forças de segurança e permitindo que a polícia tenha tempo para produzir provas e atacar o cérebro dessas organizações, responsabilizando também os mandantes", explicou.

Segundo o delegado, o modelo tem contribuído para que o Rio Grande do Sul registre sucessivas reduções nos indicadores de violência. "Graças a esse protocolo o Estado vem alcançando resultados históricos nos índices de criminalidade. Mesmo com essa sequência de crimes, os indicadores deste mês ainda permanecem melhores do que os registrados em anos anteriores", acrescentou.

Embora parte das investigações ainda esteja em andamento, Lacerda afirma que algumas ações já foram adotadas contra lideranças suspeitas de participação indireta nos homicídios.

Até o momento, a Polícia Civil trabalha com diferentes linhas investigativas para esclarecer a motivação de cada homicídio registrado desde a última terça-feira.

No caso da mulher executada na sexta-feira, no bairro Vila Jardim, o delegado afirma que ainda há indícios de possível relação com esse contexto, mas a confirmação dependerá do avanço das investigações. "A vítima tinha elementos que podem indicar relação com esse contexto, mas ainda precisamos aprofundar as diligências para compreender todas as circunstâncias do crime", completou.

Eu faria apenas os ajustes necessários para transformar a retranca em uma linha do tempo, incorporando o caso de ontem e retirando a informação já superada de que não se sabia se ele fazia parte da sequência.

Relembre a sequência de homicídios

A série de assassinatos que mobilizou as forças de segurança começou na tarde da última terça-feira, quando Gabriel Becker de Farias, de 30 anos, e Therick Eduardo da Cruz Melo, de 25, foram mortos a tiros dentro de uma Range Rover na rua Berlim, na Vila Pedreira, no bairro Cristal, na Zona Sul da Capital.

Conforme a investigação, Gabriel teria ido ao local para cobrar dívidas de aluguel e estava acompanhado de Therick, sobrinho de um ex-líder da facção V7. Ainda no mesmo dia, a Brigada Militar prendeu um homem, duas mulheres e apreendeu um adolescente suspeitos de participação na emboscada, apontada como uma ação da facção Bala na Cara.

Dois dias depois, na noite de quinta-feira, a violência se espalhou para a Zona Norte. Na rua Seis de Novembro, no bairro Mário Quintana, três homens desceram de um Renault Captur branco e abriram fogo contra um grupo de jovens. João Vittor Veiga Silveira, de 16 anos, morreu no local. Paulo Fernando Oliveira Rodrigues, de 19 anos, chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos e morreu durante a madrugada. Um terceiro jovem, de 22 anos, sobreviveu e foi hospitalizado. Conforme informações apuradas pela investigação, os dois mortos eram cunhados e o crime teria sido uma retaliação ao duplo homicídio no Cristal.

Horas depois, já na madrugada de sexta-feira, uma chacina foi registrada no bairro Passo das Pedras. Lauren Eduarda Rodrigues Borba, de 20 anos, Luiz Fernando Figueiredo de Souza e um terceiro homem, que ainda não havia sido identificado oficialmente, foram encontrados mortos com marcas de tiros em uma residência. A principal linha investigativa aponta que as vítimas eram ligadas à facção Família do Sul, aliada aos grupos V7 e Anti-Bala, e que o triplo homicídio teria ocorrido como represália ao ataque registrado horas antes no Mário Quintana.

Ainda na manhã de sexta-feira, a violência fez outra vítima. Eduarda da Graça Machado, de 33 anos, foi morta a tiros na Praça Doutor Baltazar de Bem, no bairro Vila Jardim. Conforme a investigação, ela teria ligação com a facção Bala na Cara, mas a Polícia Civil ainda apura se o caso integra a mesma sequência de homicídios.

Na noite do mesmo dia, a sequência de mortes continuou no bairro Coronel Aparício Borges. Diogo Silva das Neves, de 24 anos, foi perseguido, baleado e atingido com pedradas na região da cabeça na Travessa das Camélias. Ele também teria vínculo com a facção V7.

Na manhã de segunda-feira, Jaider Torrão Ferreira Júnior, de 36 anos, foi executado com dezenas de disparos quando chegava a uma clínica de fisioterapia, no bairro Santana. Natural de Canoas, ele utilizava tornozeleira eletrônica, possuía antecedentes criminais e já havia sobrevivido a uma tentativa de homicídio. Conforme a Polícia Civil, porém, as investigações indicam que esse crime tem relação com o histórico criminoso da vítima na Região Metropolitana, e não com a sequência de represálias investigada na Capital.

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