A Operação Art Ink II, deflagrada nesta quinta-feira no RS e em SC, revelou um estatuto com “regras de conduta” para facções gaúchas. O documento estava em um celular apreendido pela Polícia Civil. As normas teriam sido ditadas por um grupo criminoso com base no Vale do Sinos, mas também seriam válidas para outras quadrilhas que estivessem dispostas a firmar “colaboração” com o bando.
O Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) aponta que mais de 100 pessoas seguiam a normativa do crime organizado. Todas elas estariam distribuídas em níveis hierárquicos distintos no panorama do tráfico, sendo cada uma encarregada e remunerada por funções específicas.
Ainda conforme as investigações, as diretrizes são coordenadas por lideranças do tráfico estadual que, por sua vez, emitem ordens para líderes regionais, que atuam como fornecedores “autorizados” de entorpecentes e prestam contas ao alto escalão do grupo.
Integrantes de outras quadrilhas também estariam subordinados ao código da facção do Vale do Sinos, à exemplo do bando chamado Família do Sul, que é uma união de traficantes surgida em Porto Alegre. A investigação aponta que o acordo entre os grupos era firmado por negociações envolvendo quantias vultuosas oriundas da atividade ilícita.
O estratagema ainda contava com uma milícia particular. A força era formada por militantes chamados “soldados do crime”, um grupo de homens vestidos com uniformes camuflados, coletes à prova de balas e capuz, equipados com armas longas e de grosso calibre para realizar confrontos armados ou executar desafetos.
Cobrança de mensalidade
O estatuto, além de expor regras e valores a serem seguidos pelos membros, ainda prevê pagamento mensal. A intenção seria utilizar o dinheiro na compra de armamento e financiamento de advogados para a defesa dos criminosos.
As normas também definem que um traficante só pode vender entorpecentes em determinada região mediante a autorização das lideranças do grupo. Em casos de infração do estatuto, o texto prevê punições que podem ir desde o veto de vender drogas – temporariamente ou permanentemente – até uma possível execução.
Ainda fica estabelecido que a facção do Vale do Sinos atuaria com exclusividade na distribuição de drogas para todos os traficantes em sua área de atuação. A regra também seria válida para membros de outros grupos criminosos que participavam do esquema, como é o caso da quadrilha denominada Família do Sul, que só poderia comprar narcóticos da primeira organização criminosa.
Lideranças do esquema
Um criminoso conhecido como Benhur seria uma das lideranças do bando no Vale do Sinos. O homem de 31 anos está foragido há quase um mês, quando recebeu benefício de cumprir pena em prisão domiciliar e fugiu após romper a tornozeleira eletrônica.
Outro líder da facção seria um detento, de 36 anos, que está recolhido na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). Conhecido como Marizan ou Maria, ele teve nova ordem de prisão decretada.
Nesta manhã, buscas foram realizadas na cela dele, mas nenhum ilícito foi encontrado. Além deles, também foi detida a companheira do traficante apelidado Garotinho, que também seria da facção do Vale do Sinos e cumpre pena na mesma penitenciária do comparsa.
Ainda na Pasc, um dos presidiários que chefiaria a quadrilha Família do Sul foi alvo. Houve buscas na cela do detento, que responde por Nego Jackson, mas nenhum material proibido foi localizado.