Polícia

Ex-companheira de suspeito de matar pai e irmão dela em Chuvisca pede medidas protetivas

Polícia Civil investiga o duplo homicídio como vicaricídio; mulher prestou depoimento e, segundo a defesa, continua recebendo ameaças

Vítimas foram identificadas como Arnildo e Davi Klumb, de 56 e 17 anos, respectivamente
Vítimas foram identificadas como Arnildo e Davi Klumb, de 56 e 17 anos, respectivamente Foto : Reprodução / Redes Sociais / CP

A ex-companheira de Fábio Bierhals Tavares, de 29 anos, suspeito de matar o pai e o irmão dela em Chuvisca, na região Centro-Sul do Rio Grande do Sul, solicitou medidas protetivas contra o ex-marido e familiares dele após continuar recebendo ameaças. A mulher, de 22 anos, prestou depoimento na terça-feira, na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de Camaquã.

O caso é investigado pela Polícia Civil como vicaricídio, crime caracterizado pela morte de pessoas próximas a uma mulher com o objetivo de provocar sofrimento psicológico a ela.

A informação sobre o pedido de proteção foi divulgada pela defesa da mulher, representada pelo escritório da advogada Mikaela Schuch. Segundo a defesa, também será solicitado o ingresso dela e de familiares em um programa de proteção a testemunhas. A defesa afirma que eles precisaram deixar a residência em razão das ameaças.

O escritório também pediu que seja investigada a possível participação de outras pessoas no crime, considerando a logística de deslocamento envolvida. Até o momento, não há confirmação da Polícia Civil sobre o envolvimento de outros suspeitos.

Investigação por vicaricídio

O duplo homicídio ocorreu na madrugada de 9 de outubro, em uma residência na zona rural de Chuvisca, na localidade de São Brás. As vítimas, Arnildo Klumb, de 56 anos, e o filho dele, Davi Klumb, de 17, foram mortos a tiros.

Conforme a Polícia Civil, o próprio suspeito telefonou para o serviço de emergência 190 e relatou ter matado o ex-sogro e o ex-cunhado. Uma guarnição da Brigada Militar foi ao local indicado e confirmou as mortes. O homem foi localizado pouco depois e preso em flagrante.

Com ele, foram encontrados objetos ligados às vítimas, entre eles o celular de uma delas, além de uma munição intacta de calibre .38. No local do crime, os policiais apreenderam um projétil deflagrado e uma espingarda. O suspeito também relatou ter deixado o local no veículo de uma das vítimas e abandonado o automóvel na residência de um familiar.

A Polícia Civil representou pela conversão da prisão em flagrante em preventiva. O pedido foi deferido pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) após parecer favorável do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS).

Segundo a investigação, conduzida pela Delegacia de Polícia de Camaquã, as vítimas não tinham, até o momento, histórico conhecido de conflito próprio com o suspeito. O vínculo entre elas e o investigado era por meio da ex-companheira dele. A hipótese é de que os homicídios tenham sido cometidos para atingir emocionalmente a mulher.

Em nota, a Polícia Civil também informou que a tipificação definitiva do crime dependerá da conclusão das perícias e das demais diligências, que seguem em andamento. Além disso, informou que não divulgará outros detalhes neste momento, para preservar a investigação e a intimidade dos familiares das vítimas.

O que é vicaricídio

O vicaricídio foi tipificado pela Lei nº 15.384, de 9 de abril de 2026. O crime ocorre quando alguém mata descendente, ascendente, dependente, enteado ou pessoa sob guarda ou responsabilidade direta de uma mulher com a finalidade específica de causar sofrimento, punição ou controle no contexto de violência doméstica e familiar. A legislação também incluiu o crime no rol dos hediondos, com pena prevista de reclusão de 20 a 40 anos.

Em junho, o procurador de Justiça e professor da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP) Mauro Henrique Renner explicou que, em comparação aos demais crimes contra a vida, esse tipo de crime tem uma especificidade clara, que é a intenção do autor. “O agente pratica o homicídio com um dolo específico, que é atingir emocionalmente uma mulher por meio da morte de alguém com quem ela tenha vínculo afetivo ou familiar”, explicou.

Na prática, isso significa que a vítima direta não é o alvo final da violência. “O autor utiliza essa pessoa como um instrumento para causar sofrimento à mulher, seja por vingança, controle ou punição dentro de um contexto de violência doméstica”, afirmou Renner.

As penas seguem a linha mais rigorosa da legislação recente. Enquanto o homicídio simples varia de seis a 20 anos e o qualificado pode chegar a 30 anos, tanto o feminicídio quanto o vicaricídio preveem reclusão de 20 a 40 anos, podendo ser ampliada em situações específicas, como quando o crime ocorre na presença da mulher ou envolve crianças.

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