O avanço dos casos de violência doméstica e feminicídio voltou ao centro do debate durante o Menu POA, promovido pela Associação Comercial de Porto Alegre (ACPA). Com o tema “Feminicídio, uma consequência cultural?”, o encontro reuniu autoridades da segurança pública e do Legislativo para discutir os desafios na prevenção e no combate a esse tipo de crime.
Titular da 1ª Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Porto Alegre, a delegada Thaís Dias Dequech destacou que o feminicídio é o desfecho de um ciclo de violência que começa muito antes. “Existe toda uma questão social que envolve a violência doméstica e acaba finalizando com um feminicídio. Mas é lógico que o problema começa muito antes, é uma questão cultural e cabe a toda sociedade participar para tentar coibir”, afirmou.
Segundo ela, o enfrentamento não pode ficar restrito às forças de segurança. “Não é só um papel da Polícia Civil, nem só da segurança pública. A gente tem vários outros serviços que também fazem parte desse combate, além da rede de apoio, familiares e amigos. Também é importante destacar o papel do homem no combate à violência doméstica”, disse.
A delegada também chamou atenção para comportamentos que ajudam a perpetuar a violência. “É necessário que rodas de amigos prestem atenção a sinais de agressividade, piadas machistas e brincadeiras. Tudo isso reforça essa atuação violenta do agressor e precisa ser combatido”, pontua.
Dados apresentados pela delegada mostram a dimensão do problema. Até o momento, o Rio Grande do Sul registrou 27 feminicídios no ano. O número é semelhante ao mesmo período do ano passado. Em todo 2025, foram 80 casos. “Cerca de 95% das vítimas não tinham medida protetiva de urgência. Isso mostra a importância de procurar os órgãos oficiais antes que a situação chegue a esse nível”, ressaltou.
Somente em Porto Alegre, a 1ª Delegacia da Mulher registra cerca de 50 ocorrências por dia. Já são mais de 6,2 mil registros em 2026. Apesar do volume elevado, a delegada destaca que os números ainda não refletem toda a realidade. “A violência acontece dentro dos lares, então a gente ainda tem uma subnotificação muito grande”, justifica.
Ela também reforçou a importância do registro formal. “Eu sou defensora do registro na delegacia ou na delegacia online. A denúncia anônima pode enfraquecer a investigação. Quando a pessoa se identifica como comunicante, isso tem muito mais peso”, completa.
A vereadora Comandante Nádia Gerhard defendeu que o principal desafio é agir antes que o crime aconteça. “O feminicídio é um crime escalonado. Ele começa numa violência psicológica, numa falta de respeito, e vai crescendo até que essa mulher perde a vida”, afirmou.
Para ela, a dificuldade está justamente no fato de a violência ocorrer dentro de casa. “Se essa mulher não trouxer esse problema para a rua, pouco ou quase nada as polícias têm a fazer”, disse.
A vereadora também destacou a falta de informação como um obstáculo. “A grande maioria das mulheres não conhece seus direitos, não sabe o que é uma medida protetiva de urgência. Antes de procurar a polícia, muitas vezes ela precisa entender todo o processo”, ponderou.
Entre as soluções apontadas, estão o fortalecimento da rede de proteção e a ampliação de políticas públicas. Nádia também defendeu a ampliação da Patrulha Maria da Penha e a criação de mais casas de acolhimento. “Quando a mulher denuncia e o agressor não sai de casa, para onde ela vai? Sem os filhos, ela não sai. Essas estruturas são fundamentais”, concluiu.
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