Um grupo suspeito de aplicar o golpe do falso boleto contra clientes de instituições financeiras em diferentes estados do país, foi alvo de uma operação da Polícia Civil gaúcha nesta terça-feira. A ação, batizada de Paper Trail, resultou na prisão de quatro pessoas e no cumprimento de 20 medidas cautelares no estado de São Paulo.
A investigação é conduzida pela Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos (DPRCPE), do Rio Grande do Sul, com apoio da Polícia Civil paulista. Os suspeitos são investigados por estelionato mediante fraude eletrônica, falsificação de documento, falsa identidade e associação criminosa.
Segundo o delegado João Vitor Herédia, a investigação apurou que o grupo atuava com divisão de funções e que praticava o golpe do falso boleto contra clientes de diferentes instituições financeiras, fazendo vítimas em pelo menos três estados.
A investigação no RS teve início após uma vítima registrar ocorrência depois de pagar mais de R$ 52 mil, em dois boletos. Os documentos haviam sido enviados por uma mulher que se identificou como atendente de financeira por meio do WhatsApp.
Conforme a polícia, os boletos apresentavam aparência idêntica aos originais da instituição, inclusive com o CNPJ, como suposto beneficiário final, mas direcionavam os valores para a conta bancária controlada pelo grupo.
Atuação em etapas
Segundo os elementos reunidos na investigação, os criminosos operavam com modo de atuação estruturado em quatro etapas. Na fase de captação de vítimas, eles monitoravam sistematicamente uma plataforma de “reclamações”, em busca de clientes que relatavam dificuldades para obter boletos de quitação antecipada de empréstimos em diversas financeiras.
Na fase de abordagem, o contato com a vítima era realizado pelo WhatsApp por um número registrado em nome de um terceiro, que não fazia parte do esquema. Na interação, o operador fingia se passar pelo suporte oficial da instituição.
Na fase de falsificação, os boletos eram gerados em nome de um dos investigados e repassados a outros membros do grupo, que adulteravam o documento para substituir os dados do beneficiário pelos da instituição financeira.
Já na fase de recebimento, os valores pagos pelas vítimas eram creditados diretamente na conta do membro responsável pelo elo financeiro do grupo, que ficava com um percentual de 10% dos valores recebidos como contraprestação pela disponibilização da conta bancária.
Os investigados
A investigação identificou quatro integrantes do grupo, com funções distintas e complementares. O primeiro é um homem de 35 anos, natural de São Paulo, que foi identificado como o operador central do grupo. Ele era responsável pela execução técnica e operacional do esquema.
A investigação identificou que o líder do grupo também tinha acesso privilegiado ao sistema interno de uma das financeiras, obtido por meio de um contrato de correspondente bancário com uma empresa de intermediação financeira. Com este acesso, o grupo identificava com precisão quais clientes tinham empréstimos ativos e interesse em quitação antecipada.
O homem era o responsável pela falsificação dos boletos e pelo monitoramento sistemático da plataforma de “reclamações” para recrutamento de vítimas. Ele possui antecedentes criminais por estelionato mediante fraude eletrônica, pelo mesmo modus operandi do golpe do falso boleto, praticado em outro estado.
A segunda investigada, uma mulher de 28 anos, é companheira do primeiro investigado. Ela foi identificada como a coautora estrutural do grupo.
A terceira investigada, mulher de 33 anos, foi identificada como o elo financeiro do grupo, responsável pela geração dos boletos bancários originais que serviam de base para a falsificação e pela disponibilização da conta bancária receptora dos valores subtraídos das vítimas.
Já o quarto investigado, um homem de 30 anos, foi identificado como o elo de articulação operacional do grupo, responsável por fazer a ponte entre o núcleo executor do esquema e o núcleo financeiro receptor. Era o agente que identificava as demandas de boletos fraudulentos a serem gerados, transmitia as linhas digitáveis à titular da conta receptora e coordenava a sincronização entre a disponibilidade da conta bancária e a execução dos golpes. Ele possui antecedentes pelos crimes de furto qualificado e estelionato.
A investigação partiu da trilha financeira dos boletos pagos pela vítima, que levou à identificação da conta receptora. A partir daí, foram realizadas diligências com autorização judicial, incluindo quebras de sigilo telefônico, telemático e informático. O cruzamento dos dados permitiu mapear toda a cadeia de envolvimento dos quatro investigados.
A conta de e-mail operacional do esquema, criada no próprio dia do crime, continha boletos fraudulentos enviados a pelo menos três vítimas identificadas. Segundo a polícia, o número total de vítimas é, certamente, superior ao apurado nos autos. A tela de gestão de cobranças encontrada nos documentos da terceira investigada registrava, ainda, tentativas de golpe contra outras vítimas no mesmo período, com valores que chegavam a R$ 23 mil por operação.