Uma intervenção artística transformou a escadaria do monumento a Júlio de Castilhos, na Praça da Matriz, em Porto Alegre, em um memorial para mulheres vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul. A ação “História que Sangra – Do documento à presença/ausência”, promovida pelo Museu de História Júlio de Castilhos, integra as atividades do mês das mulheres.
No centro da escadaria foram instaladas 80 mãos em gesso, representando as 80 mulheres vítimas de feminicídio registradas no Rio Grande do Sul em 2025. Acima delas, mãos pretas simbolizam os casos registrados em 2026 até o momento, em sinal de luto recente. Cada mão tinha, ainda, o nome de uma das vítimas.
A escolha do local da instalação também tem caráter simbólico, segundo a museóloga Doris Couto, coordenadora da ação. “A opção curatorial do museu foi ocupar a Praça da Matriz, que é um centro do poder, onde o poder do Estado se organiza na Capital. É um monumento muito representativo do poder masculino no Rio Grande do Sul”, afirmou.
Segundo ela, a representação das vítimas por meio de mãos busca humanizar os números e chamar atenção para a gravidade da violência. “Aqui a gente tem a mão representando o socorro que não chegou em tempo para as 80 mulheres que foram mortas no ano passado. Infelizmente, a exposição ocorre no dia em que temos a confirmação de mais uma vítima. Então são 21 mãos pretas representando o luto recente, das mulheres mortas neste ano”, disse.
A instalação também inclui fitas com mensagens escritas por mulheres que visitaram o museu entre 2022 e 2023 durante atividades culturais da instituição. Nelas aparecem palavras como respeito, igualdade e liberdade. “São mensagens deixadas por mulheres que passaram pelo museu. Muitas falam sobre respeito, igualdade e não violência, desejos que refletem aquilo que elas sentem no seu cotidiano”, explicou Doris. Durante a intervenção, homens e mulheres que paravam para observar a obra também tiveram a oportunidade de escrever mensagens para as mulheres do futuro.
Com duração de apenas um dia, a intervenção foi planejada para ocupar simbolicamente o espaço sem alterar a estrutura do monumento. Todos os elementos são removíveis e foram instalados sem perfurações ou intervenções no patrimônio histórico.
Somente em 2026, 21 mulheres foram vítimas de feminicídios registrados no Rio Grande do Sul. O caso mais recente ocorreu em Montenegro, no Vale do Caí, onde Gislaine Reguss, 34 anos, foi morta a facadas. O suspeito é um homem de 52 anos, companheiro dela.