Polícia

Júri de acusados pela morte de estudante da Ufrgs começa em Porto Alegre

Três réus são julgados pelos homicídios ocorridos na Ilha das Flores em janeiro de 2024; mãe da estudante afirmou que família ficou destruída após a morte

Mãe de Sarah foi a primeira a ser ouvida durante o julgamento na manhã de quinta-feira
Mãe de Sarah foi a primeira a ser ouvida durante o julgamento na manhã de quinta-feira Foto : Guilherme Sperafico / Especial / CP

Começou na manhã desta quinta-feira, no Foro Central de Porto Alegre, o julgamento de três homens acusados pelos homicídios da estudante de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Sarah Silva Domingues, de 28 anos, e do comerciante Valdir dos Santos Pereira, de 53. Os dois foram mortos a tiros em janeiro de 2024, na Ilha das Flores, na Capital. A sessão deve se estender por pelo menos dois dias, conforme a previsão inicial, mas não está descartada a possibilidade de continuidade até sábado.

O julgamento teve início após a análise de questões levantadas pelas defesas. Um dos advogados pediu a nulidade do júri sob a alegação de que documentos anexados pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) ainda não teriam tido o prazo necessário para análise. A defesa também questionou a origem do material, alegando que documentos teriam sido manipulados com uso de inteligência artificial, além de apontar a ausência de uma testemunha.

O MPRS afirmou que os documentos questionados eram transcrições de vídeos que já faziam parte do processo e concordou com a oitiva da testemunha, caso ela fosse localizada a tempo. O juiz Francisco Luís Morsch decidiu manter o julgamento. Segundo ele, o pedido de mandado de segurança apresentado anteriormente pela defesa para adiar a sessão já havia sido indeferido.

Ao longo da sessão, estão previstas as oitivas de 14 testemunhas. Cinco foram indicadas pela acusação, quatro pelas defesas de dois réus, além de outras cinco pela defesa o terceiro acusado.

A primeira a depor foi a mãe de Sarah, Maria Marta Domingues, que viajou de Jundiaí, em São Paulo, para acompanhar o julgamento. Antes do depoimento, ela solicitou que os réus não permanecessem na mesma sala durante sua fala, por constrangimento. A pedido da defesa, o depoimento passou a ser transmitido para a sala onde os acusados aguardavam.

Questionada pelo MPRS sobre os impactos da morte da filha para a família, Maria Marta relatou as dificuldades enfrentadas desde o crime. “Eu não tenho vida, eu apenas sobrevivo depois da morte da minha filha. Não foi só a Sarah que morreu, pois nossa família inteira sentiu essa perda. Não consigo mais comemorar meu aniversário, nem o do irmão gêmeo dela. Eu não consigo mais comemorar Natal ou Ano-Novo. Minha família ficou destruída e isso nunca vai mudar”, afirmou.

A mãe também falou sobre a trajetória da filha. Segundo ela, Sarah chegou ao Rio Grande do Sul em 2015 e passou a se envolver em atividades estudantis no ano seguinte. Maria Marta destacou as dificuldades enfrentadas pela filha, que era de outro Estado e tinha origem humilde, para permanecer na universidade.

Sobre o crime, ela contou que havia conversado com Sarah no dia da morte e sabia que a filha iria à Ilha das Flores para realizar entrevistas relacionadas ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mas não sabia exatamente em que horário.

O MPRS havia questionado a mãe sobre o que Sarah fazia no local, mas o juiz indeferiu a pergunta. Os defensores concordaram que a atividade da estudante não estava em discussão no julgamento. Depois, um dos advogados questionou se Maria Marta sabia de eventual relacionamento amoroso da filha com alguém da comunidade. Houve nova discussão entre acusação e defesa.

A Defensoria Pública e a advogada dos outros réus afirmaram que a mãe estava sendo revitimizada e disseram que não fariam perguntas a ela. O advogado, porém, manteve o questionamento, que foi respondido por Maria Marta. “Minha filha tinha um namorado que não era do bairro, com quem ela estava com casamento marcado. Mas isso não poderá acontecer porque ela teve a vida tirada”, disse.

Relembre o caso

Conforme a denúncia do MPRS, Valdir era o alvo da ação criminosa por se opor à atuação do tráfico de drogas na comunidade onde vivia. Sarah estava no local realizando entrevistas para o TCC quando foi atingida pelos disparos.

O crime ocorreu em 23 de janeiro de 2024. Segundo a acusação, os investigados passaram pelo local em uma motocicleta e efetuaram os disparos. Inicialmente, quatro pessoas foram denunciadas pelos homicídios qualificados por motivo torpe e recurso que dificultou a defesa das vítimas, com utilização de arma de fogo de uso restrito. Uma delas foi impronunciada pela Justiça e, por isso, três são julgadas nesta sessão.

O julgamento segue com a oitiva das testemunhas e, posteriormente, os interrogatórios dos réus e as manifestações das partes. A acusação é conduzida pelas promotoras de Justiça Lúcia Helena Callegari e Octavio Cordeiro Noronha.

Pela manhã, antes do início dos trabalhos, a promotora ressaltou a luta da jovem e afirmou que se utilizará deste empenho para atuação no júri. “Eu espero que a gente tenha justiça e que a comunidade possa compreender a importância da condenação. Que a gente condene para que a memória e a luta dessas vítimas não tenham sido uma luta em vão”, completou.

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