Um grupo empresarial suspeito de fraudar licitações públicas no segmento de transporte escolar foi alvo da Operação Última Parada, deflagrada pela Polícia Civil na manhã desta quarta-feira. A ação mobilizou cerca de 60 policiais em Porto Alegre, Gravataí, Cachoeirinha, Eldorado do Sul, Imbé, Capão da Canoa e Florianópolis (SC).
Ao todo, foram cumpridos 13 mandados de busca e apreensão e duas prisões temporárias contra apontados como líderes do esquema. A Justiça também determinou o sequestro de 12 imóveis e de oito veículos, além da apreensão de uma embarcação vinculada aos investigados.
Durante a operação, os policiais apreenderam cerca de R$ 251,6 mil, além 500 dólares e 1.490 euros em espécie. Também foram recolhidos três relógios tradicionais, dois Apple Watches, três iPhones, dois pendrives e documentos diversos. Um veículo Volvo também foi alvo da medida de apreensão.
Segundo a investigação do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Contra a Administração Pública (Dercap), o grupo teria utilizado empresas pertencentes ou vinculadas aos mesmos controladores para apresentar propostas em uma mesma licitação e criar uma falsa aparência de concorrência. A suspeita é de que os procedimentos fossem utilizados para direcionar previamente contratos públicos a empresas ligadas ao grupo.
As apurações concentram-se especialmente em contratos de transporte escolar do município de Gravataí. Nove contratos públicos são investigados. Os mais recentes foram firmados em 2026 por meio de dispensas de licitação e somam mais de R$ 15,6 milhões em valores contratados.
Uma das linhas de investigação aponta que a empresa que aparecia formalmente como contratada pelo poder público não seria a mesma responsável pela execução dos serviços. A suspeita ganhou força após motoristas responsáveis pelo transporte escolar realizarem um protesto por supostos atrasos salariais em frente à sede de uma empresa diferente daquela que constava nos contratos administrativos.
A Polícia Civil também identificou empresas sem atividade operacional efetiva e substituições formais entre pessoas jurídicas ligadas ao mesmo núcleo empresarial. A investigação aponta que o grupo teria adaptado a forma de atuação ao longo dos anos para manter o controle dos contratos, mesmo após órgãos de controle apontarem irregularidades e alguns certames serem anulados.
As provas analisadas incluem documentos empresariais, contratos públicos, alterações societárias e comunicações eletrônicas obtidas mediante autorização judicial. Mensagens indicariam, conforme a investigação, a combinação prévia de propostas e estratégias para frustrar a competição nos processos licitatórios.
Os investigados poderão responder, conforme a participação de cada um e o avanço das diligências, por frustração do caráter competitivo de licitação, fraude à licitação e aos contratos administrativos, organização criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso e lavagem de dinheiro. A Polícia Civil afirma que outros crimes ainda podem ser identificados durante a apuração.
O que diz a Prefeitura
Procurada para se manifestar sobre a operação, a Prefeitura de Gravataí se manifestou em nota. Conforme a administração municipal, o município também se considera vítima de eventual fraude e pretende publicar, ainda em setembro, um novo edital para o transporte escolar.
Confira na íntegra a manifestação:
“A Prefeitura de Gravataí acompanha com atenção a operação deflagrada nesta quarta-feira (16) pela Polícia Civil e reafirma que é parte interessada no completo esclarecimento dos fatos investigados. Diante dos elementos apresentados pela Polícia, o Município também se considera vítima de eventual fraude praticada contra os processos de contratação do transporte escolar, serviço essencial aos estudantes da rede pública.
A Prefeitura já havia identificado uma tentativa de fraude em processo de contratação e, a partir disso, adotou providências, entre elas o pedido de verificação dos endereços de IP utilizados no pregão eletrônico e o encaminhamento das informações aos órgãos competentes. A Procuradoria-Geral do Município também adotará as medidas administrativas cabíveis para aprofundar a apuração dos fatos.
Ainda em setembro, a Prefeitura pretende publicar um novo edital para o transporte escolar, elaborado com acompanhamento técnico do Tribunal de Contas do Estado e com mecanismos reforçados de controle e fiscalização. As empresas suspeitas de envolvimento na fraude estarão impedidas de participar do novo certame. A medida já estava prevista antes da operação desta quarta-feira e integra as providências adotadas pelo Município para proteger a regularidade da contratação e a continuidade do serviço.”