Política

Catástrofe climática pauta disputas políticas no RS

Tendência, contudo, é de que gestores foquem no tema da reconstrução e deixem de lado necessidade de mudanças nas políticas ambientais

Situação sem precedentes no RS vai impactar eleições e exigir respostas concretas dos governos
Situação sem precedentes no RS vai impactar eleições e exigir respostas concretas dos governos Foto : Mauro Schaefer

A catástrofe climática que assola o Estado pautará disputas políticas pelos próximos meses não apenas no RS (onde pode se estender por anos), mas também nacionalmente; tomará conta das eleições municipais de outubro, e exigirá respostas práticas do poder público, em todas as esferas. Apesar da comoção decorrente da primeira etapa (emergência e salvamento) da tragédia prosseguir, politicamente falando, lideranças e partidos já estão trocando de fase, e se posicionando para alcançar destaque na segunda etapa, a da reconstrução do que foi destruído.

A tendência que se mostra até o momento, contudo, observam especialistas em análise política, é de que as cobranças e respostas restrinjam o foco ao tema da reconstrução. E sigam deixando à margem discussões e ações concretas sobre alterações necessárias na política ambiental e preservação do meio ambiente, sejam elas federais, estaduais ou municipais. A tendência beneficia lideranças executivas ou legislativas que preferem evitar os debates sobre a necessidade de alterações nas políticas ambientais, as flexibilizações de legislações e o afrouxamento de regras ocorridos nos últimos anos.

“Um debate sobre a questão climática exige um nível de abstração muito complexo para a situação atual. Vamos ficar muito mais na discussão catástrofe versus reação do poder público, não entrando naquela de o que provocou a catástrofe, ou o que poderia ter sido feito antes. É algo muito mais reativo”, adianta o cientista político e professor do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs, Rodrigo González.

O professor lembra que, do ponto de vista da catástrofe climática, os acontecimentos do Vale do Taquari no ano passado já teriam sido mais do que suficientes para alavancar a relação entre os eventos extremos e a necessidade de alteração em políticas ambientais. “Mas, como se encaminha também agora, o debate ficou mais centrado na questão de apoio financeiro, reconstrução e da máxima ‘a culpa foi da água’”, elenca.

A cientista social e política Elis Radmann, diretora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), adianta que a tragédia climática reativou o fenômeno conhecido entre pesquisadores como ‘a jornada do herói’. “As pessoas procuram um líder para conduzir o processo de superação. Existe um espaço, nacional, para a liderança no trabalho de redesenho dos mecanismos de contenção das mudanças climáticas. O cenário, também, favorece todo e qualquer gestor que esteja fazendo um trabalho razoável, diminuindo a tendência de mudança”, avalia.

Elis explica que a ‘jornada do herói’ tem três fases: socorro, apoio para restruturação e busca por novas soluções. Mas ressalva que a paciência da população está menor. “A paciência do eleitor tem outro tempo, muito mais ágil e rápido. As soluções a serem apresentadas pelos gestores públicos precisarão ter este novo tempo, e conseguir congregar setor público, privado e sociedade civil organizada”, aponta.

Políticos querem ser identificados como líderes do recomeço

A movimentação de políticos para serem identificados como líderes da reconstrução após a calamidade climática no RS, apontada por analistas, ainda terá muitos capítulos em 2024, mas já se tornou evidente. Na semana que passou, o presidente Lula criou, durante sua terceira visita ao Estado para tratar da calamidade, um Ministério Extraordinário para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul. Para comandá-la, nomeou o antes ministro da Comunicação Social, Paulo Pimenta. Dois dias depois, o governo do Estado anunciou a instituição da Secretaria da Reconstrução Gaúcha, que tomará o lugar da pasta de Parcerias e Concessões. Seu comando continuará com um técnico, o secretário Pedro Capeluppi.

Mais do que a reconstrução propriamente dita, e para além das eleições deste ano, a ‘reconstrução’ está colocando, com todas as vantagens ou críticas que a situação traz, dois políticos gaúchos em evidência nacional: o ministro Paulo Pimenta (PT) e o governador Eduardo Leite (PSDB). E, a depender do que for proposto, pode ter influência decisiva sobre o pleito de 2026. “Um dos pontos fundamentais da disputa é quem vai capitalizar as realizações. O governador não quer repasses. Ele quer que a arrecadação do governo do Estado seja liberada para ele executar. O governo federal é o dono do dinheiro, e o ministro seu coordenador. Quem tem o dinheiro também quer executar e receber o mérito por isso”, assinala o professor Rodrigo González.

Entre analistas, e também entre políticos gaúchos de diferentes partidos, o momento é descrito como ‘uma janela de oportunidade’ para o governador. Que pode, dependendo de como agir, encontrar uma marca para sua administração, após o fracasso em mostrar ações de impacto na área da Educação, antes vendida como prioridade. E, para além disto, alcançar projeção nacional.

Pimenta, por sua vez, elencam cientistas políticos, aliados e adversários, pode se transformar, no RS, na personificação de uma das principais características do presidente Lula, e que ainda não havia se mostrado neste terceiro mandato: a do líder carismático com características getulistas e forte apelo popular, o ‘pai dos pobres’.

Como a tragédia influenciou as gestões Lula, Leite e Melo

Governo federal: enfrentava uma crise na relação com o Congresso Nacional. Tinha dificuldade em fazer avançar suas pautas. Desentendimentos e disputas com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP/AL), haviam se estendido para a relação com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD/MG). Os embates com o Congresso, as ameaças a ministros, as idas e vindas da agenda econômica, a alta nos preços dos alimentos e as incertezas sobre a gestão da Petrobras dominavam a pauta. A partir da tragédia, obteve uma pacificação, ou pelo menos uma trégua, na relação com o Congresso. Tomou a frente da ‘unificação nacional’ e está capitaneando o anúncio de um extenso plano de auxílio financeiro e de obras de reconstrução para o RS.

Governo estadual: estava desgastado pelo debate das finanças públicas. Pela segunda vez em seis meses, retirara do Legislativo, por falta de apoio, um projeto que previa aumento na alíquota do ICMS. Amargava questionamentos sobre os decretos de fim de incentivos fiscais no RS. O quadro se completava com a pressão de servidores por reajustes salariais. E a crise no IPE Saúde, onde grupo importante de instituições prestadoras de serviços suspendera atendimentos após entrarem em vigor novas tabelas de remuneração. Com a tragédia, em 1º de maio as instituições decidiram manter os atendimentos. No dia 14, o governo revogou a parte dos decretos que tirava incentivos de produtos da cesta básica. No dia 17, anunciou o Plano RS, com série de medidas de reconstrução.

Governo municipal: a calamidade ocorreu quando a administração municipal já enfrentava outra crise, pela repercussão do incêndio com 10 mortos em uma pousada conveniada com a prefeitura para receber pessoas em situação de vulnerabilidade social. O assunto foi deixado de lado após uma semana, quando as águas do Guaíba e as que voltavam da rede de esgoto tomaram, primeiro, as ruas do Centro. Para o governo municipal, contudo, a tragédia do clima não teve o mesmo efeito do produzido nos governos federal e estadual. São grandes os questionamentos sobre a sucessão de falhas na infraestrutura de água e esgoto da cidade como um todo: no sistema de proteção; no de abastecimento, e no de drenagem. E o prefeito, que vai tentar a reeleição, é o que tem menos tempo para dar respostas.