Carregar um dos sobrenomes de peso na política gaúcha é um orgulho e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade para Juliana Brizola (PDT). Em entrevista ao Programa Acontecendo apresentado, por José Aldo Pinheiro, na Rádio Guaíba, a candidata ao governo do Estado deixou claro que sua principal inspiração veio do avô, Leonel de Moura Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul na década de 1960.
"Dizem que eu vivo na sombra do meu avô. Não. Eu vivo na luz do meu avô Leonel Brizola, que era um homem que foi investigado muito profundamente em vários momentos da nossa história e nunca encontraram nada contra ele".
Para Juliana, as ideias do avô continuam mais atuais do que nunca porque problemas crônicos do Rio Grande do Sul não foram resolvidos nas últimas décadas. É sob essa ótica que ela defende o trabalhismo — que busca equilibrar o capital e o trabalho — e aposta na escola de tempo integral como o motor de transformação do Estado.
Educação integral e o combate de frente ao feminicídio
A educação é a grande bandeira que Juliana herdou e que pretende consolidar. Ela é autora da lei que colocou a escola de tempo integral na Constituição Estadual, transformando o modelo em uma política de Estado para que não mude a cada novo governo. “Eu tenho certeza absoluta que para qualificar a nossa sala de aula, o ensino, a aprendizagem, a escola de tempo integral já é comprovada cientificamente que ela resgata a qualidade e nós vamos, sim, implementar em todo o Estado a escola de tempo integral."
Ao ser questionada sobre as escolas cívico-militares, a candidata foi honesta ao admitir que mudou de opinião. Ela contou que chegou a votar a favor do modelo na Assembleia Legislativa, mas voltou atrás.
"Me arrependi, me arrependi. Eu achei que pudesse ser aos moldes do Colégio Militar", explicou, defendendo que cada profissional deve atuar na sua área: "Educador é educador, educador estuda muito para ser educador, enquanto os militares têm o papel fundamental de defender as fronteiras e a soberania nacional.”
Outro ponto central de sua fala foi a segurança das mulheres. Com mestrado em ciências criminais, Juliana criticou duramente a atual política de proteção do Estado. Embora elogie o programa RS Seguro e prometa mantê-lo, ela aponta uma falha grave: "esqueceu as nossas mulheres. Dão medida protetiva para as nossas mulheres e mandam elas para casa, como se isso fosse resolver alguma coisa, não há um monitoramento".
Para mudar esse cenário, ela garantiu que trará a coordenação do combate ao feminicídio e à violência infantil para dentro do seu próprio gabinete, assumindo a responsabilidade direta pela questão.
Crítica ao modelo atual de gestão e às privatizações
Juliana não poupou críticas à política econômica adotada no Estado nos últimos 12 anos (iniciada ainda no governo de José Ivo Sartori e seguida por Eduardo Leite), baseada na austeridade fiscal e na venda de patrimônio público. Para ela, o sacrifício imposto à população e aos servidores não trouxe o resultado prometido.
"Venderam a nossa energia, venderam a nossa água, aumentaram o imposto duas vezes (...) se reformulou carreira de servidor para pior, tudo isso em nome de uma agenda fiscal", criticou a candidata.
Ela argumentou que, mesmo após a venda de estatais importantes, como a CEEE e a Corsan, o Rio Grande do Sul ainda projeta um rombo financeiro de R$ 4,8 bilhões para o próximo ano. Além disso, Juliana apontou que a entrega dessas empresas ao setor privado não se traduziu em melhorias: "quando tu vende a estatal, muitas vezes o serviço piora, que é o que aconteceu casualmente com a CEEE e com a Corsan".
Dívida com a União e Finanças
Juliana propõe substituir o Regime de Recuperação Fiscal (RRF) pelo programa Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados), “garantindo que os juros da dívida fiquem no Estado para investimentos em saúde, educação e infraestrutura”. Ela também afirmou já ter conversado com o presidente Lula para prorrogar o fundo de reconstrução por mais dois ou três anos e pretende articular a criação de um Fundo Constitucional do Sul em Brasília. Também deixou bem claro que caso não seja Lula o próximo presidente vai se sentar e conversar com qualquer outro governante para tratar os assuntos do Rio Grande do Sul.
Prevenção a Desastres Climáticos
A trabalhista também criticou a lentidão do governo Leite na apresentação de projetos, pontuando que, de um fundo de R$ 6 bilhões para reconstrução, apenas cerca de R$ 1 bilhão foi liberado recentemente. Ela propõe criar protocolos de emergência claros para cada região, estruturar sistemas de alerta confiáveis e realizar obras de infraestrutura (como diques e casas de bomba) em parceria com especialistas de universidades, como a UFRGS.
“Eu vou trazer também as universidades, na nossa querida UFRGS a gente tem um departamento específico, gente com conhecimento que pesquisa que estuda há mais de 30 anos sobre essa questão de alagamentos, de enchentes”, pontuou.
Fim da filas na Saúde
Para enfrentar a fila de mais de 850 mil pessoas que aguardam exames e cirurgias, Juliana planeja realizar mutirões e abrir o turno da noite nos hospitais. Ela também destacou o projeto "Pró Hospitais", de sua autoria, que permite a empresários destinarem até 5% do ICMS diretamente para Santas Casas e hospitais filantrópicos.
Êxodo Populacional e Economia: Diante da perda de moradores no estado (Porto Alegre perdeu 80 mil pessoas em uma década), a candidata defende que o RS precisa recuperar seu protagonismo econômico. Para isso, propõe investir em irrigação no campo, recuperar rodovias precárias, ferrovias e aproveitar melhor as hidrovias.
Segurança e Concursos
Juliana terminou a entrevista garantindo que vai respeitar os concursos públicos e chamar os candidatos excedentes, com destaque para a Polícia Civil, para suprir o déficit de pessoal, além de focar no combate aos crimes digitais.
