Quem reservou a noite de domingo na expectativa de assistir a um debate à altura do cargo mais elevado da República recebeu, em troca, uma encenação de mau gosto. O primeiro confronto presencial entre os dois candidatos que estão na corrida presidencial não ofereceu diretrizes, propostas concretas ou visões de futuro; entregou, em vez disso, quase duas horas de frases desconexas, ataques pessoais e ofensas descontextualizadas.
O debate que deveria elucidar caminhos para o eleitor transformou-se em um circo de horrores.
A degradação do espaço público não é fruto do acaso. Ela reflete a dinâmica que se instalou na política contemporânea, onde o compromisso com o país foi substituído pela busca obsessiva pelo "corte perfeito" e pela humilhação do oponente. Lembra aquela máxima "pão e circo". Neste caso, só circo mesmo.
Trabalha-se para a engrenagem das redes sociais e para a aprovação rápida da militância, enquanto os verdadeiros problemas são abordados de forma vazia.
Ficou evidente a estratégia de desestabilização adotada por Flávio Bolsonaro. Ao pautar sua participação em provocações e ataques diretos, ele focou em desarticular o adversário — tática que, em diversos momentos, surtiu efeito.
Por outro lado, o presidente Lula, detentor de uma extensa trajetória e bagagem política, demonstrou clara dificuldade em transitar nesse novo ecossistema de comunicação. Embora tenha esboçado momentos de recuperação, sua hesitação em alguns momentos mirou a fragilidade.
O saldo da noite é indigesto. Ao final da transmissão, o eleitor indeciso — aquele que busca fundamentação e responsabilidade para definir o voto — sai mais desinteressado, me parece.
Quando o espetáculo da lacração atropela a discussão de propostas, quem perde não é apenas o candidato atacado: é o próprio processo democrático.
