Eleições

Opinião: Como o primeiro debate presidencial trocou propostas por um circo dos horrores

Primeiro confronto presencial entre os dois candidatos não ofereceu diretrizes, propostas concretas ou visões de futuro

Candidatos entregaram quase duas horas de ataques pessoais e ofensas descontextualizadas
Candidatos entregaram quase duas horas de ataques pessoais e ofensas descontextualizadas Foto : NELSON ALMEIDA / AFP / CP

Quem reservou a noite de domingo na expectativa de assistir a um debate à altura do cargo mais elevado da República recebeu, em troca, uma encenação de mau gosto. O primeiro confronto presencial entre os dois candidatos que estão na corrida presidencial não ofereceu diretrizes, propostas concretas ou visões de futuro; entregou, em vez disso, quase duas horas de frases desconexas, ataques pessoais e ofensas descontextualizadas.

O debate que deveria elucidar caminhos para o eleitor transformou-se em um circo de horrores.

A degradação do espaço público não é fruto do acaso. Ela reflete a dinâmica que se instalou na política contemporânea, onde o compromisso com o país foi substituído pela busca obsessiva pelo "corte perfeito" e pela humilhação do oponente. Lembra aquela máxima "pão e circo". Neste caso, só circo mesmo.

Trabalha-se para a engrenagem das redes sociais e para a aprovação rápida da militância, enquanto os verdadeiros problemas são abordados de forma vazia.

Ficou evidente a estratégia de desestabilização adotada por Flávio Bolsonaro. Ao pautar sua participação em provocações e ataques diretos, ele focou em desarticular o adversário — tática que, em diversos momentos, surtiu efeito.

Por outro lado, o presidente Lula, detentor de uma extensa trajetória e bagagem política, demonstrou clara dificuldade em transitar nesse novo ecossistema de comunicação. Embora tenha esboçado momentos de recuperação, sua hesitação em alguns momentos mirou a fragilidade.

O saldo da noite é indigesto. Ao final da transmissão, o eleitor indeciso — aquele que busca fundamentação e responsabilidade para definir o voto — sai mais desinteressado, me parece.

Quando o espetáculo da lacração atropela a discussão de propostas, quem perde não é apenas o candidato atacado: é o próprio processo democrático.

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