O uso de inteligência artificial (IA) nas eleições deste ano deve exigir atenção redobrada de pré-candidatos, partidos e provedores para evitar a propagação de conteúdos manipulados que difundem fatos falsos ou descontextualizados para causar prejuízos às campanhas e ao próprio processo eleitoral brasileiro. A campanha eleitoral começa para valer no dia 16 de agosto, porém, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já se antecipou e definiu as regras para a presença dessa tecnologia na corrida ao Planalto, ao Piratini, ao Congresso e à Assembleia. Especialistas analisam o cenário mais complexo do que o de disparos em massa pelo WhatsApp em 2018 e a desinformação coordenada em 2022, agora uso de conteúdo criado por IA para diferentes plataformas.
Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fábio Hoffmann reitera que toda eleição é única, pois o pleito acontece em um contexto social, político e econômico particular. “Assim também o é com a tecnologia da comunicação. Em 2008, o Facebook teve um papel importante na eleição de Barack Obama. Em 2016, o antigo Twitter exerceu um papel central na comunicação de campanha de Donald Trump. E em 2018, o uso do YouTube na viralização de vídeos e do WhatsApp através dos disparos em massa abriram caminho para a consolidação e vitória de Jair Bolsonaro no Brasil”, recorda.
Verossimilhança e bolha discursiva
O doutor em Sociologia Política e professor na Unisinos, Carlos A. Gadea, explica que, nestas eleições, “não se tratará mais de conferir se uma informação é falsa ou não, mas sim se uma imagem, uma conversação e uma cena concreta na campanha eleitoral é verossímil ou não, caso se enquadre na plausibilidade e, consequentemente, em contato com a realidade”. Para ele, a IA generativa é hiper-real e transcende o dilema de verdadeiro ou falso. Seu foco é criar a identificação e propagação de uma ideia, ideologia e estética, previamente existente. A IA generativa é a anulação de toda possibilidade do debate em torno de pautas e demandas, pois gera a consolidação e proliferação de uma identidade”, provocando as chamadas bolhas discursivas e identitárias que restringem o diálogo.
Para o doutor em História e professor na Universidade Feevale, Rodrigo Perla Martins, essa situação será exacerbada. “Ninguém sabe ao certo o que pode resultar, porque o aprimoramento da IA generativa faz com que a campanha eleitoral e a disputa deixem à rua e passe às redes sociais mais do que conhecemos. Depois de 2014, o mundo todo assiste a essa ideia que o vencedor não ganha mais por larga diferença de voto, tudo vai ser no detalhe, e por isso tudo pode ser contestado. E o reforço dessas bolhas a partir da inteligência artificial vai piorar cada vez mais. Eu sou muito pessimista em relação a isso. Podemos beirar uma guerra civil”, avalia.
Legitimidade democrática
Hoffmann afirma que o legado das eleições de 2026 já vem sendo construído: “é o amálgama entre um mundo analógico e o digital, com a consolidação da percepção de que tecnologia e democracia são hoje dimensões inseparáveis da disputa política”. Para ele, essa construção precisa trazer como produtos regras claras e simétricas sobre a disputa. “A legitimidade de todo regime depende do que pensam os cidadãos a seu respeito. Se as pessoas acreditam que as instituições e processos são íntegros, então o regime possui uma alta legitimidade. O grande legado das eleições deste ano é ampliar a legitimidade do regime democrático brasileiro”, finaliza.