Rural

A receita para colher 362 sacas de milho irrigado por hectare

Propriedade de Palmeira das Missões foi a vencedora brasileira do concurso promovido pelo Grupo Tático de Aumento de Produtividade

José Binsfeld: "Nós realizamos o cultivo pensando sempre em colher de acordo com aquilo que se investe na cultura"
José Binsfeld: "Nós realizamos o cultivo pensando sempre em colher de acordo com aquilo que se investe na cultura" Foto : Divulgação / CP

O Rio Grande do Sul enfrenta ano após ano um déficit significativo no milho, ou seja, a diferença entre o consumo interno pelas cadeias avícola e suinícola, entre outras, em relação à produção estadual estagnada do cereal. Até porque o Estado não tem aptidão comercial à chamada safrinha ou segunda safra, que representa hoje cerca de 70% da produção nacional de milho. Pois se as lavouras gaúchas – hipoteticamente – produzissem o que a Agrícola Binsfeld, de Palmeira das Missões, gerou num talhão designado para a competição promovida pelo Grupo Tático de Aumento de Produtividade (Getap) a média de 21.756 quilos por hectare (362,6 sacas de 60 quilos), o triplo da estimativa geral do Estado, de 7.370 quilos (122,8 sacas), segundo projeção da Emater/RS-Ascar para esta safra, o Rio Grande do Sul se tornaria um importante fornecedor do grão a destinos externos.

“Na agricultura, e se tratando de rendimento de culturas, nada acontece ao acaso. É a soma de vários fatores se relacionando entre si para poderem expressar rendimentos elevados ou não”, sintetiza a explicação para a alta performance José Adolfo Binsfeld, que conduz a propriedade ao lado do irmão, Dimas Alencar, da irmã, Mônica, e da mãe, Sirlei. A Agrícola Binsfeld foi bicampeã brasileira na Categoria Milho Irrigado, com desempenho de 15 sacas superior ao feito obtido do ano anterior. Na entrevista a seguir, o produtor, que também é engenheiro-agrônomo e o responsável técnico da propriedade, descreve como a família chegou à conquista e é conduzida a agricultura na propriedade que destina 250 hectares ao cereal por safra em sistema de rotação de culturas.

O que explica uma produção tão alta? Qual foi o manejo que vocês empreenderam?

Na agricultura, e se tratando de rendimento de culturas, nada acontece ao acaso. É a soma de vários fatores se relacionando entre si para poderem expressar rendimentos elevados ou não. Nesse caso, além da irrigação que é responsável pela segurança no fornecimento de água para a cultura do milho, tiveram muitas práticas de manejo conservacionistas de solo como o sistema de semeadura direta, semeadura em nível, sistema de rotação de culturas, agricultura de precisão, além de manejos realizados com embasamento técnico da cultura como população de plantas, fertilização e acompanhamento da lavoura. É algo que se constrói ano após ano e com investimento de tempo e capricho.

A nova premiação deste ano foi surpresa ou você imaginava que o desempenho seria excepcional?

Nós realizamos o cultivo pensando sempre em colher de acordo com aquilo que se investe na cultura. Neste talhão foram realizados manejos pensando na rentabilidade da cultura e, em específico para a área colhida para o concurso, foram realizados alguns manejos que o próprio híbrido suportaria visando explorar seu potencial produtivo, conforme recomendação técnica da empresa que detinha tais informações.

De todos os procedimentos, sejam técnicas e tecnologias, aplicados nesse espaço do concurso, o que também já é aplicado na lavoura comercial da propriedade ou será replicado no restante da propriedade?

É importante salientarmos que a área colhida para o concurso foi dentro de um talhão comercial de cultivo, porém, neste procuramos posicionar a área, que é de no mínimo dois hectares, em uma região conhecida com maior fertilidade natural do solo e características agronômicas desejáveis. Ainda assim, realizamos um ajuste de população de plantas e fertilização conforme o híbrido de milho comportaria, de acordo com as informações técnicas que o representante da empresa do milho semeado compartilhou conosco. Os demais manejos realizados foram iguais para toda lavoura. Dentro desses manejos uniformes, podemos citar o sistema plantio direto (SPD), o qual tem por objetivo intercalar culturas no decorrer dos anos com espécies diferentes em uma mesma época, ou seja, em um verão se cultiva uma leguminosa e, no próximo, uma gramínea, como exemplos a soja e o milho. Também faz parte desse SPD o uso contínuo de cobertura de solo com plantas, seja durante a safra com plantas comerciais, soja/milho/trigo/aveia, seja entre essas culturas, com plantas de serviço/cobertura verde/recicladoras de nutrientes, como nabo forrageiro/aveia preta/ervilhaca, pensando em proteger o solo de processos erosivos e melhorar a qualidade física/química e biológica do mesmo. Da mesma forma realizamos a semeadura em nível, ou em contorno, buscando diminuir os riscos de erosão causados por chuvas em altos volumes. Outra técnica utilizada na propriedade é a agricultura de precisão, onde procuramos realizar os manejos de correção de acidez de solo e de nutrientes conforme a necessidade de deficiências e necessidades de cada talhão, utilizando de forma racional insumos, que além de ser um fator econômico, é ambientalmente responsável. Além dessas correções utilizamos de tecnologia de precisão para semeadura em taxa variável de sementes e fertilizantes (áreas irrigadas de maior potencial e áreas de cultivo em sistema sequeiro com menores potenciais produtivos), plantios e pulverizações com direcionamento de piloto automático e irrigações de acordo com a necessidade de cada fase da cultura.

A Agrícola Binsfeld produz milho em 250 hectares em rotação com a soja | Foto: Divulgação / CP

Como tem sido o investimento em produtividade e a relação com a sustentabilidade econômica diante do aumento dos custos de produção e baixa remuneração das commodities?

A agricultura é movida conforme o clima e as previsões climáticas para o ano agrícola. Quem não faz o planejamento levando essas informações em conta, está sob sério risco. Então, nossos investimentos são de acordo com isso. Em anos com previsões positivas ao cultivo se fazem maiores investimentos. Caso contrário, os mesmos são mais retraídos, até porque os custos de uma lavoura, independente da cultura, estão cada vez mais caros na sua implantação, que compreendem sementes e fertilizantes. Além da agricultura sofrer os impactos diretos do aumento dos insumos em nível global, como fertilizantes e diesel, temos o outro lado de que a nossa produção não tem nenhuma garantia de preço mínimo. Vendemos pelo preço que o mundo resolve pagar de acordo com a demanda e oferta. Por isso a tecnificação de propriedade e controle de custos é cada vez mais necessária dentro de uma propriedade rural.

Qual a importância da irrigação em todo o sistema de produção da propriedade? Toda a área de milho é irrigada?

A irrigação traz a segurança no fornecimento de água para a cultura e assim ela pode expressar uma produção conforme aquilo que é investido nela. É um item que nos fornece segurança em nosso Estado do RS que possui historicamente períodos maiores ou menores de déficit hídrico nas culturas de verão. Em nossa propriedade apenas uma parte do milho é irrigado, pois cultivamos a cultura em sistema sequeiro também, quando as previsões para o ano são favoráveis para ele.

Como tem sido o comportamento do clima na sua região? As estiagens causaram perdas na propriedade ou o sistema de irrigação foi suficiente?

De forma geral, temos passado por mais anos de déficit hídrico com impactos negativos na produção do que ao contrário. Nos últimos cinco anos tivemos um ano de El Niño, que traz mais chuvas para o Estado, e os demais foram de falta de chuvas em maior ou menor escala dentro de uma mesma região, ou seja, chuvas irregulares dentro do mesmo município até. Com isso, as instabilidades de produção têm se tornado frequentes: plantamos, investimos e não temos certeza do que poderemos colher. Mas o agricultor é movido pela fé, decide investir seu tempo e capital acreditando sempre em safras melhores. A irrigação é possível apenas em parte das propriedades dos agricultores gaúchos, pois dependem de ter fontes de água como rios e riachos. Onde se tem irrigação, a sustentabilidade da propriedade é bem melhor.

Na sua opinião, o que falta ou deveria ser implementado na agricultura gaúcha para que a irrigação se expandisse mais pelo Estado?

Todo avanço na irrigação de forma responsável é bem-vinda ao setor e para a sociedade, que também é beneficiada com a maior circulação de renda no Estado. Porém os entraves burocráticos e ambientais, mesmo com programas de incentivo da irrigação, estão travando a implementação de irrigação no Estado. A flexibilização de construção de reservatórios de água para irrigação, principalmente para reservar água no período de inverno, onde se tem uma pluviosidade maior no Estado, é fundamental para sistemas de irrigação serem implementados com menor impacto nos períodos de maior necessidade hídrica das culturas, que geralmente é no verão.

Quais conselhos você daria para quem quer produzir mais e melhor, seja pela aplicação de práticas agrícolas ou pela utilização da ferramenta da irrigação?

A organização e planejamento da propriedade para ter um sistema de irrigação, se assim for possível, é essencial para se ter uma sustentabilidade com maior segurança na agricultura no Estado do RS. Outro ponto a ser citado é ter uma boa correção do solo da acidez e nutrientes, para assim o solo poder entregar o potencial produtivo das culturas ali cultivadas. A assistência técnica e capricho devem estar presentes também, pois definiram o sucesso de toda a propriedade.

O que mais gostaria de ressaltar sobre a premiação e o trabalho de vocês?

A premiação do concurso é resultado de anos de trabalho e melhoramento contínuo que buscamos. Não é o objetivo final a premiação. Ela vem como uma consequência de objetivos maiores de sustentabilidade do negócio e investimento técnico da propriedade. Sempre cito o CAT (Clube Amigos da Terra) que temos em Palmeira das Missões, clube formado por agricultores e profissionais ligados à agricultura, que busca difundir informações técnicas e de gestão para os associados para aplicarem em suas propriedades e assim melhorarem seus negócios. Assim, desde 1983 o CAT vem exercendo um papel fundamental no crescimento da agricultura do município e região.

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