Expodireto

Raio-x das agroindústrias familiares gaúchas

Mapeamento inédito realizado pela Emater vai tratar desde questões estruturantes até produtos e comercialização dos empreendimentos

Clarice Rohr e o marido Roberto são proprietários da Produtos Lilien, de Picada Café, especializada em chás, geléiais e biscoitos diet
Clarice Rohr e o marido Roberto são proprietários da Produtos Lilien, de Picada Café, especializada em chás, geléiais e biscoitos diet Foto : Camila Cunha

O Censo das Agroindústrias Familiares, lançado durante a Expodireto Cotrijal, é a primeira iniciativa do Estado para mapear e construir um diagnóstico do setor, com ênfase nos participantes do Programa Estadual de Agroindústrias Familiares (Peaf). Com um questionário com mais de 50 páginas, os participantes da gestão da agricultura familiar responderão a temas que vão de infraestrutura e comercialização, passando por sucessão familiar, juventude rural, presença da mulher e o Selo Sabor Gaúcho. Serão tratadas ainda questões estruturantes, logística, produção e diversificação de insumos e de produtos, comercialização, inspeção sanitária e vigilância sanitária, entre outros.

Na seção sobre comercialização e mercados, as perguntas abordam preço de venda, qualidade do produto, exclusividade do produto (se é algo único), pontos de vendas e centrais de distribuição, escala de produção, embalagem, design e marca própria, certificações e selos (se é produto orgânico ou tem denominação de origem…).

Detalhamento de insumos

Outro tema diz respeito à origem das matérias-primas. O produtor deverá informar o percentual de insumos vegetais e animais produzidos na propriedade. Entre as matérias-primas adquiridas de terceiros, trata de informações sobre a indicação da origem geográfica principal – se é no mesmo município, outro município da mesma região do RS, outras regiões do Estado, outros estados ou importadas.

O secretário de Desenvolvimento Rural, Gustavo Paim, destaca a importância dos dados para subsídio na formulação de políticas públicas. O instrumento irá mapear 4.117 famílias do Peaf para entender seus gargalos burocráticos e comerciais. “Com uso de tecnologia, o levantamento vai padronizar informações socioeconômicas e otimizar a aplicação de energia e recursos do Estado”, explica Paim.

Para o presidente da Emater/ RS-Ascar, Claudinei Moisés Baldissera, a radiografia vai ajudar a estabelecer passos futuros para tornar ainda mais robusto o programa de agroindústrias familiares, que hoje já é um patrimônio do Rio Grande do Sul. “As agroindústrias guardam sabores, cores, guardam alimento e histórias do nosso povo e conversam com todo o consumidor urbano e o consumidor rural”, afirma o dirigente.

Segundo o secretário Paim, as informações coletadas serão utilizadas exclusivamente para a realização de estudos e políticas públicas voltados ao desenvolvimento das agroindústrias familiares gaúchas. A formulação, aplicação e análise dos questionários conta com a participação da Emater, do Departamento de Agroindústria Familiar (DAF), da SDR, e da Divisão de Dados e Indicadores (DEE), da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão.

Do leite aos chás

Entre os personagens que colocam as agroindústrias para funcionar no Rio Grande do Sul está o casal Clarice Rohr e Roberto Rohr. Os dois são proprietários da Produtos Lilien, especializada em chás, geleias, biscoitos diet e barras de cereais em Picada Café, na Serra. O portfólio contempla variedades sem glúten e sem lactose e ainda óleos essenciais, tinturas, aromatizantes, vinagre de maçã, feijão e bolos – este último é oferecido na loja que fica dentro da propriedade de 19 hectares, sendo seis dedicados às plantas.

O nome Lilien, flor de lírio em alemão, é uma homenagem ao município onde a propriedade está localizada, conhecida como a cidade dos lírios. A inspiração da marca também é uma referência à essência da agroindústria, onde o cuidado começa no cultivo, passa pela produção artesanal orgânica e na entrega ao consumidor.

O início de tudo foi em 2012, quando a matriarca fez um tratamento de saúde e encontrou nos chás benefícios que a ajudaram. A partir daí, estudou sobre variedades e cultivos e começou a mudar o perfil de produção familiar, que se dedicava ao leite. Das 20 variedades iniciais, a propriedade hoje planta cerca de 200 espécies. Em 2017, a produção de leite foi encerrada, abrindo caminho para a dedicação exclusiva a Produtos Lilien.

No mesmo ano, o empreendimento começou com a linha de geleias, que foi reforçada durante a pandemia. De lá para cá, novos itens foram lançados para garantir a gama de produtos.

Como grande parte das agroindústrias, os proprietários e as filhas Eduarda, de 21 anos, e Rafaela, de 14 anos, fazem um pouco de tudo. As tarefas são compartilhadas, mas as jovens acabam trabalhando mais nas redes sociais e emitindo notas fiscais, pagando boletos e atendendo o telefone. Enquanto a primogênita se prepara para o Enem para voltar ao curso de Farmácia, a mais nova deve ir para o colégio agrícola no próximo ano.

Gestão compartilhada entre duas gerações

Leticia acredita que a agricultura familiar ajuda a desenvolver o país | Foto: Camila Cunha

A falta de infraestrutura é uma realidade recorrente nas pequenas propriedades rurais do RS. A instabilidade de energia traz dificuldades na preparação das caldas, chimias e sucos naturais na Produtos Coloniais Sobucki (PCS), de Sete de Setembro, nas Missões.

“Estamos na luta há algum tempo para conseguir energia trifásica, mas o custo é muito alto e não temos apoio hoje”, explica Leticia Sobucki, 25 anos, que faz parte da segunda geração da família, ao lado do irmão Dionatan.

Os entraves atrapalham, mas a vontade de produzir e crescer não arrefecem, ainda mais com o entusiasmo dos jovens na gestão da propriedade compartilhada com os pais.

Foi justamente com a participação da segunda geração que vieram inovações como as caldas de frutas, criadas para drinques a partir de demanda dos consumidores. “A gente desenvolve, melhora e garante a sucessão familiar”, diz Leticia, que começou aos 9 anos a ajudar na lavoura. Participou também do início da agroindústria, em 2012. Durante o ensino médio, onde cursou técnico em agroindústria, passou a apoiar os pais em feiras – e não parou mais.

Em 2025, a PCS esteve presente em 15 feiras. Neste ano, o calendário já foi aberto. Participaram da Expodireto, com resultado de vendas acima do esperado. Um dos diferenciais da marca é o domínio de todo o processo, desde o cultivo até a produção, tudo é feito na propriedade. A agroindústria está em um espaço de meio hectare e as árvores frutíferas ocupam outros 4,5 hectares.

Hoje, o carro-chefe é o suco de butiá. No portfólio, tem ainda sucos de frutas tradicionais, como laranja, e nativas, como jabuticaba, pitanga, guabiroba e uvaia. Nas chimias, além das convencionais, há sabores inusitados, como butiá com pimenta, sugestão de Leticia. Para este ano, a ideia é desenvolver uma linha sem açúcar, mais uma vez para atender aos pedidos dos clientes fiéis.

Leticia fala com entusiasmo sobre o futuro da empresa familiar. “É muito bom trabalhar fazendo o que a gente gosta e levar a produção à frente. É a gente que produz, desde a matéria-prima.” Além disso, a relação entre pais e filhos é de colaboração. “Eles ajudaram a ver que é importante para a nossa vida. Sempre nos incentivaram a ficar, a produzir e a manter a produção de frutas, seja processada ou in natura”, explica. A jovem diz que esse apoio é fundamental. “Estimular jovens na agricultura familiar ajuda a desenvolver o país e a própria agricultura familiar.”

Panificadora em busca de canais de vendas

Cleonice Cabral de Melo registrou o negócio há apenas um ano | Foto: Camila Cunha

A Panificadora Melo, registrada há apenas um ano, fez sua estreia em grandes feiras na edição 2026 da Expodireto, e busca ampliar os canais de vendas para crescer. Com experiência em panificação, a proprietária Cleonice Cabral de Melo procurou a Emater Ascar/RS para formalizar a agroindústria de Liberato Salzano. “Precisava de apoio na parte burocrática e foi uma oportunidade de aprendizado”, explica Cleonice.

Hoje, a panificadora vende suas bolachas, grostolis, alfajores, roscas de merengue, cucas e pães de milho em feiras municipais, supermercados, colégios e cooperativas. E, mais recentemente, a marca forneceu bolinhos individuais de chocolate para um hospital. Na agroindústria, Cleonice conta com apoio do marido, Valdelir Alexandre, e das filhas Chaiane Melo, de 23 anos, e Charlize Melo Alexandre, de 14 anos.

Mas há muito a avançar. Cleonice sonha em ter um ponto de venda na cidade para aumentar a comercialização, já que a propriedade fica na zona rural, onde circulam menos pessoas. Outra demanda é conseguir crédito. Como a agroindústria está cadastrada com seu CPF e não como CNPJ, a proprietária diz que não tem acesso a financiamento para adquirir um carro para as entregas.

Embutidos premiados recompensam todo o esforço

Zenaide e Olivar Araldi colhem os frutos do trabalho árduo | Foto: Camila Cunha

A falta de mão-de-obra na Embutidos Araldi é o principal entrave para o crescimento da premiada agroindústria de Sarandi, fundada há 20 anos. Com os três filhos dedicados a diferentes profissões fora da propriedade e sem pessoal para contratar, Olivar Araldi assumiu a produção de embutidos, como salames, copas, torresmos e bacon. A esposa Zenaide confirma que o marido é praticamente o único responsável por tocar a agroindústria, enquanto ela reforça o atendimento nas feiras. “Dá para se manter, mas precisava de mais gente para trabalhar”, diz o proprietário.

O trabalho árduo é reconhecido. A marca conquistou premiações em diferentes edições de feiras como Expodireto e Expointer e também nacionais. O salame da agroindústria foi destaque no Prêmio Brasil Artesanal 2020 – Charcutaria (CNA/Senar), do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. A Embutidos Araldi conquistou o terceiro lugar no concurso e o casal viajou a Brasília para receber a distinção. Sem perder tempo, despacharam 120 quilos de salame – vendidos em uma hora de evento. O concurso do Senar rendeu também a participação em um livro a ser lançado.

A qualidade dos produtos perpassa todas as etapas de produção. Cada peça é confeccionada e passa por um processo de maturação, que vai de 45 dias a oito meses. As matérias-primas vêm de um produtor parceiro, que fornece cerca de 660 quilos ao mês. Antes, até a criação dos animais era tocada por Olivar na propriedade, mas após dois enfartes, decidiu se dedicar apenas à fabricação dos embutidos e à participação em feiras, o que já dá bastante trabalho.

Desde sempre, as feiras são o principal canal de vendas. Apenas em 2025 foram 33 com participação da marca. “Sem feira, a gente não vive, pois agrega valor. Tem mercado, mas não querem pagar o que o produto merece”, lamenta Olivar. Outro obstáculo relatado pelo proprietário é a falta de apoio dos governos municipal, estadual e federal. E exemplifica: há uma dificuldade em arcar com todos os custos para manter seus produtos no mercado, como a análise laboratorial duas vezes ao ano para cada linha de produção, o que chega a custar cerca de R$ 15 mil ao ano. Além disso, Araldi tem necessidade de financiamento para substituir equipamentos e lamenta ter ficado de fora do Programa de Fomento e Investimento às Agroindústrias Familiares (Peaf).

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