Expointer

Acesso ao crédito rural mobiliza o campo

Tema foi discutido no segundo dia da série Correio Rural Debates, na Casa do Correio do Povo, dentro da programação da 49ª Expointer

Antônio da Luz (E), Luis Felipe Szmidtke, Leandro Mittmann, Darci Hartmann e Alexander Leitzke
Antônio da Luz (E), Luis Felipe Szmidtke, Leandro Mittmann, Darci Hartmann e Alexander Leitzke Foto : Alina Souza

Preocupação mencionada por dez a cada dez produtores rurais, o financiamento esteve no foco das discussões no segundo dia da série Correio Rural Debates, promovida na Casa do Correio do Povo no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, dentro da programação da 49ª Expointer. Sob o tema “Os desafios do investimento e do acesso ao crédito”, o encontro reuniu o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Antônio da Luz; o presidente da Organização das Cooperativas do Estado (Ocergs), Darci Hartmann; o gerente de Planejamento do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Alexander Nunes Leitzke; e o diretor-executivo da Racon Consórcios, Luis Felipe Oliveira Szmidtke. O jornalista Leandro Mariani Mittmann atuou como mediador.

Questionado sobre alternativas para financiar o plantio da próxima safra de grãos, Da Luz disse que é preciso entender as causas que levaram a agropecuária ao cenário atual. O campo, afirma, não foi o único setor afetado.

“Não acho que o agro esteja com uma crise de crédito. O Brasil está com uma crise de crédito. O Brasil aumentou barbaramente a oferta de crédito nos últimos anos. Desde 2020 para cá, (houve) muito crédito subvencionado. Nós incentivamos esse crédito e, ao mesmo tempo, tomamos decisões fiscais que nos trouxeram juros elevados. Essa combinação nunca dá certo”, explicou.

O economista observou que, atualmente, a inadimplência entre as empresas brasileiras superou os níveis registrados no pico da pandemia de Covid-19. “Hoje temos (cerca de) 51% dos adultos brasileiros negativados, temos mais de 9 milhões de CNPJs negativados", disse, citando dados de julho divulgados pela Serasa Experian. "O Brasil vive uma grande crise de crédito, que é decorrente de ter juros de dois dígitos pelo quinto ano consecutivo. Nenhuma economia aguenta”, enfatizou.

Alta alavancagem

No caso do agronegócio, Da Luz lembrou que, no ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária avançou 11,7%. Ao citar a expansão do setor nos últimos 30 anos, disse que esse crescimento foi financiado por alavancagem financeira. “O Brasil atingiu 100 milhões de toneladas (de grãos) em 2000, chegou em 2014 com 200 milhões, depois levou oito para chegar em 300 milhões e vai levar seis para chegar em 400 milhões”, destacou. As quebras de produção causadas por estiagens, combinadas com estoques mundiais altíssimos que derrubaram os preços das commodities, impactaram a renda das propriedades. “Aí nós entramos em colapso. A maioria dos produtores que se alavancaram, seja por crescimento, seja por renegociação de dívidas em virtude dos problemas climáticos, vai ter muita dificuldade em acessar crédito”, avaliou.

O representante do BRDE disse que o agronegócio representa quase metade da carteira de crédito da instituição. Segundo Leitzke, o banco vem atuando em duas frentes para atender ao setor.

“Para aqueles produtores que têm minimamente espaço para crédito, a gente leva o crédito, pensando numa preparação de solo, no investimento no equipamento, numa modernização. Mas na grande maioria a gente tem trabalhado forte com a nossa equipe da área de renegociação, para tentar encaixar o máximo possível em todas as políticas, sejam públicas ou internas, para que esse pessoal possa respirar”, afirmou.

A recomendação do BRDE a produtores em dificuldades, disse o executivo, é que não deixem de procurar a instituição. “O banco tem uma característica diferenciada, que é a busca de parcerias. Então, a gente está trabalhando com a Farsul e todas as entidades (do setor). Tem uma parceria com os (organismos) multilaterais para ter recursos de fora, para tentar encaixar com condições diferenciadas”, acrescentou.

O dilema do crédito (ou da falta dele) preocupa as cooperativas do setor, disse o presidente da Ocergs.

“Essa nuvem não é passageira. Então, o desafio é construir alternativas. Mas também as carteiras das cooperativas estão estressadas. Se formos falar de custeio (da próxima safra), como é que vai ser isso? Não tem margem de buscar mais espaço para alongar”, destacou.

Segundo Hartmann, os prejuízos com problemas climáticos e os juros elevados dos financiamentos reduziram a rentabilidade de uma grande parcela de produtores rurais que investiram em tecnologia para aumentar a produtividade das lavouras. “Evidentemente, quem pode acessar crédito nas entidades financeiras vai buscar. Os outros, hoje tem uma parcela que não vai plantar. Muita gente na Metade Sul já está migrando para (a criação de) gado”, afirmou.

Consórcios

Szmidtke, da Racon, destacou que os consórcios podem ser uma boa alternativa para proporcionar investimentos nas propriedades, como a compra de máquinas agrícolas. “Quem é que hoje realmente está precisando de muito crédito? Provavelmente é (aquele) para quem o banco não quer emprestar”, disse. Ele, porém, não recomenda a modalidade para todos os perfis de produtores.

“O consórcio não é para quem tem urgência. É para quem há dois, três, quatro anos estava com um fluxo de caixa adequado e resolveu começar a poupar. É uma alternativa para tu acessares o recurso com um custo superadequado, mas precisa de planejamento”, comparou.

Para o executivo, enquanto aguarda safras melhores, o produtor deve fazer as contas e identificar as áreas de negócio que oferecem maior potencial de geração de caixa. “Muitos clientes chegam (à Racon) pedindo uma solução, mas não entendem de verdade como aquele projeto vai fazer sentido. Então, é muito importante que o produtor, neste momento, tenha o tempo de reflexão e parta imediatamente para a ação. Não fique esperando. Pode ser que o governo libere alguma coisa, pode ser que não libere e tem que estar preparado para o pior”, aconselhou.

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