Todos os anos, pequenos empreendedores rurais encantam o público da Expointer ao exibir queijos, embutidos, doces, geleias, sucos e uma enorme variedade de outros produtos artesanais procedentes de todas as regiões do Rio Grande do Sul. Identificados pelo selo Sabor Gaúcho, certificação do Programa Estadual de Agroindústria Familiar (PEAF), os alimentos ganham destaque no tradicional pavilhão destinado à agricultura familiar no evento, que em 2025 movimentou R$ 13,6 milhões em vendas e deve superar a marca nesta edição. Na feira que se encerra neste domingo, o espaço abriga um recorde de mais de 500 expositores, entre os quais empreendimentos que aderiram à política pública nos seus primeiros anos e continuam em atividade.
Instituído em 2012, o PEAF tinha, até julho deste ano, 4096 agroindústrias cadastradas, de acordo com dados da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR). Dessas, 2126 são consideradas inclusas no programa, ou seja, já receberam as autorizações sanitárias, tributárias e ambientais exigidas para a venda legal de seus produtos, o uso do selo oficial do programa nos rótulos e a participação nas feiras patrocinadas pelo Estado. O restante está em processo de regularização.
O acesso à Expointer, assim como às feiras regionais do setor, é um dos principais atrativos do programa, já que, na grande maioria das empresas, a comercialização da produção fica restrita ao município de origem. Outra vantagem é a participação em políticas federais como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) — pelas regras atuais, pelo menos 45% dos recursos repassadas ao PNAE devem ser destinados à na compra de itens da agricultura familiar. Essas oportunidades impulsionam o crescimento de negócios como a agroindústria Sabores do Rancho, que trouxe para a feira deste ano queijos, iogurtes e sorvetes artesanais.
Proprietária do empreendimento, a pecuarista Rafaela Albuquerque Jacobs conta que, há cerca de 20 anos, ela e o marido, Eduardo Lammel Blauth, deixaram a cidade pelo campo e mudaram-se para uma propriedade da família no interior de Estância Velha. Depois de adquirir três vacas Jersey, com a intenção inicial de produzir leite para consumo próprio, fizeram cursos e estabeleceram um pequeno laticínio. “A gente iniciou a trabalhar com a merenda escolar e algumas feiras, para fazer a propriedade ser rentável”, diz Rafaela.
O negócio prosperou e, com o tempo, o casal, que desempenhava outras profissões, decidiu se dedicar exclusivamente à agroindústria.
“A gente, quando iniciou, foi mais por hobby. Em nenhum momento a gente pensou que hoje nós teríamos uma agroindústria familiar, com uma renda 100% (proveniente da propriedade). Acreditaram no potencial dos nossos produtos”, afirma Rafaela.
Hoje, a fazenda mantém 40 vacas, das quais 12 em lactação, e coleta em média 200 litros de leite por dia. Segundo Rafaela, o sucesso do negócio se deve a investimentos no rebanho e em sanidade animal. O plantel é composto por vacas A2A2, selecionadas geneticamente para produzirem leite contendo apenas a beta-caseína A2, indicada para pessoas que têm sensibilidade digestiva ao leite comum. A agroindústria também se destaca pela elaboração de queijos à base de leite cru, o que é possível porque seu rebanho é certificado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) como livre de brucelose e tuberculose.
Com a consolidação do laticínio, Rafaela diz que precisou diminuir a participação nas feiras fora do município e também o fornecimento de itens a escolas municipais. A propriedade redirecionou o foco e atualmente começa a explorar o turismo rural. “Nosso objetivo maior hoje é sair menos e fazer com que as pessoas nos procurem mais. É bem inicial mesmo, mas é a proposta que a gente quer fazer crescer”, explica a pecuarista.
Sucesso em forma de doces artesanais
Estabelecida em Barão, no Vale do Caí, e especializada na produção de frutas cristalizadas, a agroindústria Negrello nasceu como um negócio informal. Segundo o proprietário da empresa, Rogério Negrello, seus pais cultivavam figo no interior do município de Guaporé (hoje União da Serra) e foram incentivados por amigos e familiares a transformar as frutas em guloseimas. “Minha mãe, quando jovem, trabalhou em uma indústria que fazia essas frutas cristalizadas e acabou conhecendo o método”, diz.
O processamento se tornou a principal fonte de renda da família. Já formalizada, em 2001, com o apoio das iniciativas de estímulo às agroindústrias familiares da época, a família começou a participar da Expointer. “A dificuldade era comercialização, ainda engatinhava o processo das feiras. O programa identificava essas agroindústrias para poderem participar. A gente foi evoluindo nesse sentido e acompanhando por vários anos”, conta Rogério.
Em 2008, o empreendedor se mudou para Barão e, para não depender do beneficiamento de figo, apostou na diversificação de produtos. “O figo é muito sazonal, em dois meses termina a safra. Então fiz algumas parcerias com alguns agricultores. Percebi que, produzindo a minha matéria-prima, eu não conseguiria assim aumentar a oferta”, diz Rogério. Hoje, o figo ainda é o carro-chefe das vendas (desidratado, em passas, cristalizado ou em forma de geleia), mas a empresa oferece também doces à base de pêssego, abacaxi, maçã e pera, entre outros. A Negrello, que nos primeiros tempos produzia anualmente 1 tonelada de doces, já processa 40 toneladas de frutas por ano.
O trabalho, garante Rogério, é totalmente artesanal e não há planos de aumentar a produção.
“A mão de obra somos eu e minha esposa, não tenho funcionários. Não tenho máquinas, embaladoras. A gente estabeleceu (a meta de) chegar a um ponto que nos desse a tranquilidade de não nos estressar com grandes volumes”, explica o empreendedor.
Nesta edição da Expointer, ele expôs em torno de 3 toneladas de doces. Rogério também abastece casas especializadas na região da Serra e atende, pelo Whatsapp, encomendas de outros municípios. São clientes que experimentaram as iguarias nos eventos regionais. “Acaba criando um vínculo bem legal. Eu fico muito feliz, porque que eles sentem o diferencial do nosso produto e querem mais. Isso vale muito mais que dinheiro”, comenta.
Na avaliação do empreendedor, ao criar regras para o enquadramento das empresas, o PEAF contribuiu para a profissionalização dos negócios e a segurança do consumidor quanto à procedência dos alimentos. “O PEAF sempre foi uma referência para as agroindústrias. O selo do Sabor Gaúcho definiu o que pode e o que não pode. É importante, porque senão vira uma ‘terra sem lei’”, diz Rogério.
Tecnologia e qualidade resultam em prêmios
Com uma trajetória ligada à produção de leite e lácteos, a Granja Cichelero, de Carlos Barbosa, é outra afiliada antiga do programa da agricultura familiar. Seu nome faz parte da história da Expointer. Em 2012, a fazenda estreou no concurso leiteiro da raça holandesa e venceu a competição na categoria Vaca Jovem. Em 2021, repetiu o feito e conquistou também a categoria Vaca Adulta. A vitória mais recente ocorreu em 2022, quando animais da fazenda saíram campeões novamente nas duas disputas, com uma produção de mais de 80 quilos de leite ao longo de cinco ordenhas.
Fora das pistas de ordenha, a propriedade se destaca na produção de doce de leite e queijos artesanais, tendo conquistado dezenas de medalhas de ouro, prata e troféus em competições estaduais e nacionais. Produz ainda ricota, nata e manteiga. Hoje, a fazenda tema 160 vacas em lactação. A eficiência no tambo e a qualidade dos produtos lácteos estão fortemente associadas à tecnologia — a Cichelero foi a primeira no Brasil a produzir queijos utilizando leite proveniente de ordenha robotizada.
Para o proprietário da granja, Daniel Cichelero, participar das exposições agropecuárias é um dos principais benefícios do PEAF.
“Dá visibilidade para as marcas, é fantástica. As feiras não são só comercialização, é muita divulgação. E, claro, existem as linhas de crédito para construção, ampliação de agroindústria”, diz o pecuarista.
O programa garante acesso a financiamentos subsidiados por meio do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (FEAPER). “A gente vai aumentando a produção para crescer, mas, ao mesmo tempo, segurando para ainda poder ficar enquadrado no PEAF”, diz o pecuarista.
Até o final desta Expointer, Daniel espera vender pelo menos uma tonelada de queijos e 200 potes de doce de leite. No estande da granja, algumas das estrelas são o parmesão que passa por maturação durante um ano e meio e o queijo colonial premium maturado por 60 dias.
Fomento a feiras deve continuar, diz secretário
Ao longo do tempo, desde a criação do PEAF, é comum que muitas agroindústrias sejam desvinculadas do programa, porque encerraram as atividades ou porque os proprietários deixaram de se enquadrar na categoria de agricultores familiares. Para o titular da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), Gustavo Paim, a longevidade das agroindústrias familiares inclusas no programa é determinada por muitos fatores, como o apoio técnico prestado pela Emater/RS-Ascar, as oportunidades de comercialização em feiras e, especialmente, o apoio na sucessão familiar.
“Sem isso, a gente não consegue enfrentar as questões que envolvem (normas) ambiental, sanitária, tributária, todas as dificuldades de ser um empreendedor que demandam um assessoramento técnico”, avalia Paim.
Ele cita a enorme procura pelo programa Agrofamília Jovem, iniciativa lançada no ano passado para incentivar a permanência de jovens de 15 a 29 anos no campo. Na primeira etapa, foram contemplados 244 jovens. “Mas tinha mais de 9 mil inscritos, então o jovem queria uma oportunidade para compra de insumos, investimento na sua agroindústria para poder permanecer no campo. A agroindustrialização permite ao jovem uma renda. A gente só vai ter longevidade se nós tivermos quem dê continuidade a isso”, diz o secretário.
De olho no futuro do programa, a SDR apresentou na Expointer os resultados do primeiro
Censo das Agroindústrias Familiares do Programa Estadual de Agroindústria Familiar (PEAF). O levantamento, conduzido com o apoio da Emater/RS-Ascar, incluiu 4.109 empreendimentos, entre agroindústrias em operação e outras que encerraram as atividades, para identificar o alcance das políticas públicas voltadas ao setor e aperfeiçoá-las.
O fomento às feiras deve continuar sendo um dos pilares do PEAF. Segundo Paim, no ano passado a secretaria promoveu 139 eventos no Estado. Até o final de 2026, terão sido mais de 160 – até julho, foram 112 eventos, incluindo dois na Capital. “Hoje temos as feiras como um grande propulsor dessas agroindústrias familiares”, destaca Paim.
Para o futuro, diz o secretário, também se pode esperar que o programa apresente agroindústrias “em outro patamar”. “A gente está falando em qualidade do produto, investimento, porque (elas) estão tendo retorno, oportunidade de vender, estão tendo contato cada vez mais com o cliente, e isso cobra um preço de o produto ser cada vez melhor”, observa.