Expointer

Terra saudável é a base para uma boa safra

Último encontro da série Correio Rural Debates na 49ª Expointer discute produção sustentável e manejo de solos

Tiago Hörbe (E), Jackson Brilhante, Leandro Mittmann, Muça El Hatal e Eduardo Condorelli
Tiago Hörbe (E), Jackson Brilhante, Leandro Mittmann, Muça El Hatal e Eduardo Condorelli Foto : Camila Cunha

Diante de estiagens sucessivas e fenômenos climáticos como o El Niño, o agronegócio gaúcho tende a valorizar cada vez mais a saúde da terra. “Produção sustentável e manejo de solos” foi o tema do terceiro e último encontro da série Correio Rural Debates, promovida na Casa do Correio do Povo no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, dentro da programação da 49ª Expointer. Com mediação do jornalista Leandro Mariani Mittmann, a discussão reuniu o pesquisador Tiago Hörbe, da cooperativa CCGL; o presidente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-RS), Eduardo Condorelli; o engenheiro agrônomo Muça El Hatal, da Águia Fertilizantes; e o engenheiro florestal Jackson Brilhante, da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi).

Do ponto de vista da capacitação, o presidente do Senar-RS observou que, por envolver aspectos científicos, transmitir ao produtor rural as discussões relacionadas é, muitas vezes, uma tarefa complexa. “As características da agricultura do Rio Grande do Sul, particularmente nos últimos anos, com a intensificação dos processos de estiagem, têm nos permitido maior facilidade ou maior adesão à discussão sobre o perfil de solo do que tínhamos (…) de 2010 a 2020, quando as condições climáticas foram favoráveis para o crescimento e expansão da agricultura do nosso Estado”, lembrou Condorelli.

Hoje, segundo o presidente do Senar-RS, os produtores percebem que grande parte das dificuldades enfrentadas com a estiagem, por exemplo, poderia ser amenizada por meio de medidas como a estruturação de solos.

“Não estamos imaginando que o produtor vá ter, exclusivamente por conta disso, uma produtividade de 100 sacos por hectare”, argumentou Condorelli. “Mas precisamos conferir o nosso processo produtivo, para que, diante da adversidade, se possa pelo menos entregar um piso produtivo suficiente para cobrir a totalidade dos custos (ou) pelo menos grande parte deles. O primeiro passo para ganhar é parar de perder.”

O representante da CCGL abordou as contribuições da pesquisa no enfrentamento dos desafios apresentados pelo clima. Segundo o agrônomo, melhorar o manejo do solo é uma caminhada de longo prazo, e o primeiro passo nessa direção é identificar o sistema produtivo. “No contexto da pesquisa, a gente tem o papel de validar as práticas, desenhar sistemas produtivos e identificar os problemas (…) relacionados a acidez, compactação, e isso basicamente está relacionados às culturas que o produtor utiliza”, explicou.

O agrônomo citou dados da safra 2019-2020, a primeira de uma sequência de colheitas marcadas por quebras nos últimos seis anos. “Na safra 2019-2020, num trabalho feito com as cooperativas, em propriedades que tinham um bom manejo do solo, tivemos uma média produtiva de 48 sacos (por hectare). Talhões que tinham lacunas de manejo, solo compactado, solo sem correção de acidez, não tinham rotação de cultura, em que a qualidade do solo era inferior, a produtividade foi de 35”, comparou Hörbe.

Coordenador do Comitê Gestor Estadual do Plano ABC+RS, Brilhante destacou o carbono como o principal elemento para a construção de resiliência do solo.

“Com a cobertura permanente do solo, diversificação, rotação de culturas, (…) você vai aumentar algo que é do ponto de vista de sustentabilidade muito importante. Quando a gente está falando de melhorar a infiltração de água no solo, é o carbono que faz (isso)”, explicou. “Essa é a ótica dentro do Plano ABC. E é bem possível a produtividade caminhar lado a lado com a sustentabilidade, (elas) não são excludentes.”

Segundo o engenheiro florestal, estudos mostram que um sistema de plantio direto adotado por mais de 30 anos é capaz de sequestrar cerca de 1 tonelada de carbono por hectare. “E esse carbono vai ajudar a produtividade”, disse. No plantio direto, acrescentou, o grande desafio é manter uma cobertura permanente do solo, mas de forma que isso gere renda para o produtor.

“Muitos produtores não fazem a rotação (de culturas), é nisso que a gente precisa avançar. Nós, como técnicos da Seapi e também da área de pesquisa, temos esse papel de traduzir esse conceito de uma forma mais prática, trazer soluções de uma forma que rentabilize o produtor”, afirmou Brilhante.

Muça, da Águia Fertilizantes, destacou que a fertilidade do solo não se restringe ao uso de adubos, mas precisa contemplar um manejo global, que evite principalmente problemas como a compactação do solo.

“O produtor, por dificuldade com clima ou financeira, acabou perdendo o foco do plantio direto, que é a palhada, é proteger o solo, manter coberto, sem ação da chuva, sem ação dos raios solares, incorporar matéria orgânica ao solo. E isso tudo é a fertilização”, afirmou.

Para o agrônomo, a fertilização opera em conjunto com as técnicas de agricultura regenerativa, incluindo, por exemplo, soluções que reduzem uso de químicos e estruturação através de micorrizas. “Hoje, já temos ferramentas que vêm com outro propósito. Não para resolver tudo, mas é uma opção de fertilizar, talvez com um custo mais baixo e de uma forma mais gradual e menos agressiva, porque hoje a gente fala muito em microbiologia do solo”, disse.