Rural

Reservação de água para enfrentar estiagens

Cisternas, açudes e boas práticas de manejo do solo ajudam armazenar e garantir o abastecimento das propriedades em períodos secos no RS

As fontes que fornecem o insumo vão de rios, riachos, água que escorre de telhados
As fontes que fornecem o insumo vão de rios, riachos, água que escorre de telhados Foto : Emater/RS-Ascar / Divulgação / CP

A agricultura e a pecuária do Rio Grande do Sul têm sofrido sucessivas perdas causadas pelas estiagens, que assolam as lavouras ou complicam o abastecimento. No entanto, as secas ocorrem em determinadas épocas do ano, enquanto noutras a precipitação é normal, dentro do esperado, e, por vezes, até excessiva.

Para atender às necessidades de um empreendimento nos períodos mais secos, pode-se promover o equilíbrio entre oferta e demanda de água a partir de estruturas de reservação. “No balanço hídrico do que se precisa e o que se tem quando chove mais, há a necessidade da reservação de água para guardar para os momentos em que não se tem água. O Rio Grande do Sul tem essa oportunidade de reservar a água em certos momentos para utilizar em outros”, diz o engenheiro-agrônomo Marcelo Araldi Brandoli, extensionista rural e supervisor e assistente técnico regional em Reservação de Água e Irrigação da Emater/RS-Ascar de Lajeado. “Ela é muito importante, porque é utilizada para a produção animal e vegetal.”

As fontes que fornecem o insumo vão de rios, riachos, água que escorre de telhados das estruturas das propriedades e até de estações de tratamento. “A reservação de água avançou, é necessária, tem como fazer, temos tecnologia, incentivos também”, acrescenta. “Precisamos sensibilizar, cada vez mais, produtores, embora já estejam se sensibilizando”, sugere o especialista, que considera viável tal método também para escalas maiores, não apenas para estruturas familiares.

Para grandes demandas, ele sugere que universidades e outras instituições, como Embrapa e Emater-RS/Ascar, além de empresas privadas, se juntem para pesquisar e aprimorar conhecimentos que viabilizem iniciativas como as já desfrutadas por pequenos. Brandoli descreve que as estruturas mais adequadas para reter água, sobretudo a proveniente da chuva, são construídas a partir de fibra de vidro, PVC e polietileno, com capacidades de 500 a até 20 mil litros. Por exemplo, cisternas de PVC para 20 mil litros são oferecidas por empresas a um custo médio de R$ 8 mil a R$ 10 mil, com uma vida útil de dez anos. O dispêndio não inclui a escavação e o estabelecimento da base fixa para receber a caixa d’água, além da mão de obra. “A grande reservação é feita em cisternas de PEAD (polietileno de alta densidade), em uma quantidade muito grande de água”, acrescenta. Estas estruturas podem ter capacidade de até 1,5 milhão de litros e custam cerca de R$ 90 mil.

Brandoli menciona que há linhas de crédito do Pronaf, com juros de até 2% a 3% ao ano, e do Pronamp para o investimento de médios produtores. Também há programas estaduais como o Avançar na Agropecuária e no Desenvolvimento Rural, dentro da iniciativa Irriga+ RS, que subsidia em até 20% do investimento do produtor. E ainda iniciativas municipais.

Planejamento

O extensionista orienta a importância de comparar a curva de precipitação com a de acumulação de água. Ou seja, fazer o balanço hídrico, a projeção do dimensionamento das cisternas para atender a demanda dos animais consumidores. “Geralmente é feito o cálculo de quanto se tem de telhado, ou de uma fonte de água, ou de um açude”, explica. Da mesma forma, é importante dar atenção ao solo que dará suporte à estrutura, pois, se for pedregoso, pode provocar rachaduras.

Outra orientação é observar a qualidade da água a partir de análise química, física e biológica, para evitar a contaminação por microrganismos. Quando a procedência é de telhados, colocar filtros para conter folhas de árvores ou outras sujeiras. A caixa jamais deve ser posicionada em área de preservação permanente (APP), para não ferir a legislação ambiental. Assim como é preciso autorização para retirar água de rios.

“Pegar do rio ou de arroio talvez não seja a melhor alternativa. A melhor é construir mais reservatórios em forma de açudes, proteger as nascentes, fazer mais reservatórios cavados para que o rio não chegue no limite de 100% da utilização de água, que ficaria só para população urbana”, adverte Brandoli.

Solo como reserva

O especialista avalia que o “maior reservatório de água” é o solo, a partir de boas práticas agrícolas que possibilitem sua infiltração nos ambientes de agricultura, práticas estimuladas e disseminadas pela pesquisa, assistência técnica e programas estaduais de resiliência climática. “Umas das maiores questões da reservação de água é a compactação do solo, que não permite a infiltração dessa água. Uma camada que não permite a água infiltrar no solo e ela corre para os rios. A água subterrânea é o nosso estoque de água para o futuro”, alerta.

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