Comprar e manter um reprodutor de alto padrão genético ao longo do ano demanda um investimento considerável, além de estrutura na propriedade para confinar e alimentar o animal. Por isso, o mercado de aluguel de touros para o período de monta, que vai da primavera até o final do verão, desponta como alternativa para quem busca reduzir custos e prefere método de reprodução natural.
O pecuarista João Carlos Pereira, conhecido como Cau, tem cerca de 60 touros das raças Braford, Brangus e Angus em uma propriedade em Bossoroca, na região das Missões. Há quase 25 anos, os interessados escolhem os animais que desejam alugar, geralmente em outubro, após eles passarem pela verificação de um médico-veterinário, que atesta a aptidão reprodutiva e a sanidade do animal.
Entrega a domicílio
Depois disso, a empresa Tropeiro Parceria Genética entrega o macho a domicílio e vai buscar na data combinada. A quantidade e o tempo que eles permanecem na propriedade dependem da demanda de quem contrata o serviço. “Se ele (o produtor) quiser 90 dias, eu tenho que buscar em 90 dias”, diz, lembrando que clientes podem alugar desde um exemplar até doze ou mais por temporada.
O preço é estabelecido de acordo com a média do valor do terneiro registrado na feira de Santo Antônio das Missões vezes 500 quilos. “Por exemplo, saiu o preço do quilo de terneiro, R$ 15 a média. É esse valor vezes 500 kg. É o pagamento que vai sair para o touro. O pagamento é sempre no dia 30 de maio”, descreve. Pelos cálculos dele, do total recebido por cada animal, cerca de 30% cobrem os custos de manutenção.
Pereira iniciou o negócio nos anos 2000 ao lado do pai e do irmão, após visitar o estado do Mato Grosso e observar a dinâmica de aluguel de vacas. Ele percebeu que poderia deixar o processo de reprodução bovina mais prático e acessível no Rio Grande do Sul, mas, em vez de alugar fêmeas, resolveu disponibilizar machos, como faz até hoje. Pereira se considera um precursor nessa área. “Pensei em fazer uma coisa diferente, porque cada touro me daria (o equivalente) a três terneiros de pagamento. Então, se eu tenho 100 touros, vou ter 300 terneiros no campo dos outros.”
Na avaliação dele, o negócio é bom para ambos os lados. “Hoje, um touro custa de R$ 16 mil a R$ 20 mil para comprar. Tem que levar para a propriedade. Tem que ter pastagem todo o ano, fazer (exame) andrológico para ver se o animal está com tudo certo. Para o fazendeiro (que opta por alugar), fica muito cômodo, porque a gente tem caminhão, a gente leva, a gente traz”, descreve.
Tudo isso, além de outros exames de sanidade, como tuberculose, e inspeção de médico-veterinário está incluído no serviço. “Nós temos um veterinário responsável para os exames, o andrológico e todas as vacinas”, afirma, lembrando que os possíveis prejuízos são compartilhados.
“O risco acidental é por conta nossa. Quebrou a peça (pênis) do touro, caiu um raio e matou o touro, é problema nosso. A responsabilidade da sanidade é de quem nos loca. Caso dê uma tristeza no touro (doença transmitida principalmente por carrapatos) e ele morra, caso morra ‘bichado’, qualquer coisa, daí o veterinário faz a avaliação do touro e faz o preço.”
Existem criadores que fazem dois protocolos, conforme Pereira. Eles adotam a inseminação artificial e, no final do processo, colocam os reprodutores para cobrirem as fêmeas. “O namoro, às vezes, dá mais certo do que inseminação. O produtor arrenda um ou dois touros para ver se melhora o índice de natalidade da propriedade”, explica.
Para o presidente do Sindicato Rural de Dom Pedrito, Rodrigo Zamberlan Coradini, que também é criador, a prática de alugar o reprodutor pode se justificar para determinados produtores.
“O touro não é um animal muito fácil de manter ao longo de todo o ano. Tem que manter ele separado e eu acho que, para pequenas propriedades, é uma solução bem interessante. Confesso que não via essa modalidade. Se tem alguém que é especializado nisso, que só tem touros, faz o exame, te entrega o touro, leva o touro, não é ruim, porque tu precisas dele ali por três meses.”
Importância da sanidade
A chefe da Divisão de Defesa Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul (Seapi/RS), médica-veterinária Grazziane Maciel Rigon, observa que o aluguel de gado não é uma prática comum no Estado. “Foi uma surpresa para nós (fiscais agropecuários), porque a gente não estava sabendo que estava ocorrendo. Não é uma atividade formal prevista dentro do escopo da Defesa Sanitária Animal”, afirmou. Segundo ela, no passado, vizinhos costumavam emprestar os reprodutores.
Ela lembra que há técnicas mais seguras no aspecto sanitário. “Em uma central de inseminação, por exemplo, existe uma série de protocolos e de exames que têm que ser seguidos, inclusive quarentena antes desses touros entrarem para uma central de inseminação”, descreve.
De acordo com a médica-veterinária, mesmo que sejam feitos testes e controles, há doenças que têm períodos de incubação mais longos e que podem se manifestar mais tarde.
“Do ponto de vista da Defesa Sanitária Animal, é importante colocarmos que esses animais devem ser movimentados sempre com GTA (Guia de Trânsito Animal) e, tendo em vista a finalidade de reprodução, com atestados negativos de brucelose e tuberculose.”
Grazziane cita a possibilidade de ocorrência de outras enfermidades como tricomonose e campilobacteriose, além de carrapatos e verminoses.
O governo do Estado não tem uma estimativa do tamanho do rebanho de touros reprodutores no Rio Grande do Sul. O zootecnista e analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental da Seapi Marcelo Bortoluzzi Cadore informa que o número de bovinos supera 11 milhões de cabeças, sendo 5.338.953 fêmeas com idade acima de 24 meses, que podem estar aptas para a reprodução no sistema extensivo.
Menos custos e riscos com locação de machos
Depois de perder dois touros em anos consecutivos, o criador de Bossoroca Clauber Lopes Vesz optou por alugar os reprodutores. Ele já usa esse serviço há cinco temporadas e, no mês passado, chegou um macho da raça Brangus, que ficará em sua propriedade para cobrir parte das vacas até o final de janeiro.
Várias características do animal foram levadas em consideração para que ele fosse o escolhido. “Um fator importante para a minha região é a questão de o prepúcio e do umbigo serem mais curtos, já que a vegetação é alta e pode machucar o animal”, contou Vesz. O médico-veterinário Márcio Kreuning, contratado pelo criador, fez exames e análises para ter mais elementos e, assim, decidir entre os candidatos.
“Escolhi esse touro pela boa genética, estrutura corporal, aprumos, fertilidade e potencial de transmitir boas características aos seus filhos, buscando melhorar a produtividade e a qualidade do rebanho”, explica o profissional.
Gerações na pecuária
Nascido em São Luiz Gonzaga e criado em Bossoroca, Vesz pertence a uma família de pecuaristas, atividade iniciada pelo tataravô. Atualmente, mantém entre 70 e 80 animais, com predominância da raça Red Angus, e trabalha com gado de cria. São cerca de 50 matrizes destinadas à produção de terneiros.
Diante da necessidade de substituir os exemplares perdidos nos anos anteriores, ele começou a avaliar a alternativa de usar o serviço de aluguel e a colocar na ponta do lápis as vantagens e as desvantagens de não ser mais o proprietário dos seus reprodutores. “Naquele momento, até por uma necessidade, eu tive que alugar. E, a partir dali, comecei a notar que valia a pena. Principalmente porque minimizava o risco.”
Fatores que contam
Outro fator importante é que, ao locar, Vesz evita o acompanhamento dos machos diariamente ao longo do ano.
“O touro é complexo. Ele pode fugir, vai lá brigar com o touro do vizinho, vai querer namorar com a vaca do vizinho”, observa.
A manutenção do reprodutor também exige uma estrutura específica. Na propriedade, que pertence à mãe do criador e tem parte da área destinada à agricultura, as pastagens de inverno são utilizadas pelas fêmeas e pelos terneiros. Manter um touro significaria reservar um espaço separado, construir cercas e oferecer alimentação diferenciada, com suplementação.
“Eu teria que fazer uma nova invernada, gastar com cerca, gastar com tudo para ter ele separado”, explica. Segundo o criador, em propriedades maiores, que já contam com divisões de pastagens e estrutura estabelecida, esse custo adicional não seria tão significativo, o que não é o seu caso.
Valor compensa
Na temporada passada, o pecuarista pagou o equivalente a 500 quilos de terneiro pelo aluguel de um touro, para um período de três a quatro meses. Considerando o preço de aproximadamente R$ 15 por quilo, o valor ficou em torno de R$ 7,5 mil pelo animal.
O criador considera que o investimento compensa pelo desempenho dos reprodutores utilizados. Segundo ele, cada touro tem produzido cerca de 40 terneiros por temporada. “Mantenho uma média de fertilidade acima de 80%”, afirma.
Ele atribui o resultado obtido às condições de manejo do seu rebanho. Para esta estação de monta, a previsão é trabalhar com 45 matrizes. A expectativa é alcançar, pelo menos, 40 terneiros. “O meu gado é bem tratado. Tem uma boa suplementação também. Como a invernada é pequena, eles caminham menos. O touro fica mais próximo das fêmeas. Então, tudo ajuda”, explica.
Os manejos da reprodução dos bovinos
O período em que os pecuaristas organizam a reprodução dos rebanhos bovinos tem o objetivo de concentrar os nascimentos em uma época do ano em que há mais disponibilidade de pastagens. Entre as opções utilizadas estão a monta natural, a monta controlada e a inseminação artificial. A escolha do método depende das condições e objetivos de cada propriedade, segundo o médico-veterinário Bruno Borges Machado Teixeira, que faz parte da diretoria do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul (CRMV-RS).
A inseminação artificial pode ser realizada de duas maneiras. Em uma delas, é preciso observar as fêmeas para identificar o cio. Na outra, a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), são usados protocolos hormonais para sincronizar o ciclo reprodutivo. Já na monta natural, a ideia é unir fêmeas e machos. “A proporção varia conforme as características dos touros, ou seja, um touro para cada 25 vacas, um touro para cada 30, um touro para cada até 40 vacas”, explica. Outra possibilidade é a monta controlada, em que a vaca identificada no cio é levada até o touro, mantido separado do rebanho.
A escolha dos animais que serão colocados juntos também interfere no resultado da reprodução. Teixeira recomenda que novilhas sejam manejadas com touros experientes. “Um touro experiente, que tu saiba, por exemplo, que ele produz terneirinho não muito pesado, que ele tem um bom tamanho, ele é mais adequado para as fêmeas jovens. Ele vai saber trabalhar essas fêmeas de uma maneira melhor.”
Já os touros jovens, comercializados geralmente aos dois anos, podem ser “afobados”. Por isso, devem ser colocados com fêmeas adultas, que tendem a se posicionar melhor. Outro comportamento comum desses machos é a concentração em uma única vaca.
“Ele é um inexperiente. Às vezes, a gente diz, do ponto de vista mais campeiro, que ele costuma se apaixonar muito por uma vaca, ou seja, ele pega um animal e fica na volta dela. O touro mais adulto tende a se resguardar um pouco mais”, resume o veterinário.
Durante a cobertura, não é incomum que ocorram traumas no membro do touro, como rompimento de fibras musculares e formação de hematomas. O mau posicionamento é uma das causas. Segundo o veterinário, esses animais dificilmente conseguem se recuperar para voltar à reprodução. Já o excesso de fêmeas também pode desgastar o touro. O veterinário relata que o animal tende a abandonar a cobertura quando não consegue mais dar conta do grupo.
Outra recomendação é evitar o excesso de touros e utilizar animais de tamanho, idade e peso semelhantes. A diferença de porte pode gerar dominância, impedindo que todos os reprodutores tenham acesso às fêmeas. Além disso, as disputas podem causar lesões.
Na hora da decisão entre as técnicas de reprodução, muitas vezes, o valor é determinante. Porém, para o profissional, a comparação de custo deve levar em conta também o número de terneiros produzidos. Segundo ele, um protocolo de IATF, incluindo hormônios, trabalho do veterinário, dose de sêmen e ultrassom, atualmente custa cerca de R$ 100 por vaca. Considerando o resultado reprodutivo, o preço por terneiro ficaria em torno de R$ 200.
Em um exemplo de aluguel, o veterinário calcula que um produtor que pagou R$ 7,5 mil por um touro durante três meses, para cobrir 40 vacas e produzir aproximadamente 35 terneiros, teve um custo de R$ 214 por animal nascido. “É mais barato inseminar do que alugar esse touro”, avalia.
Apesar disso, ele ressalta que a monta natural continua sendo uma alternativa importante, especialmente em propriedades sem estrutura para a inseminação. “O touro vivo, ele é o melhor para ver o cio da vaca. Então, as maiores taxas de prenhez são com o touro, claro, porque é um animal que sabe mesmo como fazer esse serviço.”
Propriedades com áreas extensas, distantes ou sem instalações adequadas podem ter dificuldades para realizar a inseminação. Já aquelas que dispõem de mangueira, tronco de contenção e estrutura para o manejo conseguem utilizar os protocolos com maior facilidade.
O veterinário afirma que a inseminação artificial vem ganhando espaço, acompanhada pelo avanço da seleção genética. Segundo ele, cerca de 30% do rebanho nacional já utiliza esses protocolos. “A utilização do touro a campo sempre vai continuar, mas, hoje, em comparação com anos atrás, já se inseminam em torno de 30% do rebanho nacional com esses protocolos e tudo mais. A seleção cresceu que foi uma barbaridade”, conclui.