Rural

Verão define oferta da ovinocultura gaúcha

Estação exige acompanhamento constante do rebanho; produtores e técnicos destacam influência do clima e expectativa positiva para temporada

Nos meses de calor, ocorre a etapa de acasalamento que dará origem aos cordeiros no inverno e na primavera
Nos meses de calor, ocorre a etapa de acasalamento que dará origem aos cordeiros no inverno e na primavera Foto : Rafael Cargianni / Divulgação / CP

O verão se estende até 20 de março e, nas criações de ovinos, a estação marca a fase reprodutiva dos rebanhos e concentra a lida que vai garantir a oferta do ciclo seguinte. É quando o produtor organiza os animais, prepara matrizes e reprodutores e acompanha de perto cada etapa do manejo, sabendo que os resultados dos cordeiros que irão nascer no inverno e na primavera começam a ser definidos sob o calor do verão.

Antes de os primeiros cordeiros aparecerem no campo, boa parte do resultado produtivo já está encaminhada. É na primavera que se inicia a organização dos lotes, a avaliação da condição corporal das matrizes e se realizam os principais cuidados sanitários. O trabalho exige planejamento e observação contínua, já que pequenas falhas nesse período podem comprometer os índices reprodutivos e a qualidade dos animais. Para muitos criadores, trata-se da fase mais decisiva do ciclo produtivo, quando a rotina diária se intensifica e a presença constante no campo se torna indispensável.

Criador de ovinos há 53 anos, Wilson Belloc acompanha esse ciclo na cabanha que mantém em Santana do Livramento, onde cria animais da raça Hampshire Down com foco no aprimoramento genético. O rebanho é mantido em áreas de campo nativo, dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA), em um sistema que depende diretamente das condições naturais do Pampa.

Nesse tipo de criação extensiva, os animais permanecem soltos no campo e se alimentam principalmente das pastagens naturais. O manejo acompanha o ritmo das estações e varia conforme o clima e a qualidade do pasto nativo, fatores que influenciam o desenvolvimento e a condição corporal das ovelhas. Em anos de pastagem abundante, o rebanho responde com maior facilidade; em períodos mais secos ou de calor intenso, o trabalho de observação e ajuste do manejo se torna ainda mais necessário.

Calendário do rebanho

A rotina acompanha o calendário do rebanho. Segundo Belloc, o período de “monta” ocorre, geralmente, a partir de dezembro, quando os reprodutores são colocados com as ovelhas e se inicia a etapa que dará origem aos cordeiros dos meses seguintes. Antes disso, parte importante da lida envolve a organização dos lotes e o preparo das matrizes.

“A gente tem duas épocas diferentes. A de acasalamento, que é agora no verão, e a de parição, que é no final do inverno até o início da primavera. São dois momentos distintos e que têm manejos especiais para ter um maior êxito na produção do rebanho”, explica Belloc, que é veterinário.

O desmame dos cordeiros e a tosquia das ovelhas fazem parte da fase inicial, assim como os cuidados sanitários definidos conforme as necessidades do rebanho. Com uma rotina que depende diretamente da presença do produtor, a criação de ovinos exige acompanhamento constante ao longo de todo o ano, mas especialmente nos meses de verão.

“A ovelha exige muito mais presença do produtor, temos que estar sempre olhando”, relata Belloc.

O trabalho envolve observar os animais com frequência e percorrer o campo praticamente diariamente. Esse cuidado permite identificar com rapidez problemas sanitários, ferimentos ou mudanças de comportamento, reduzindo perdas e melhorando o desempenho produtivo.

Apesar da dedicação diária, o produtor não considera o manejo pesado, mas sim um trabalho que exige constância. O contato frequente com os animais faz parte do próprio sistema de produção e reforça uma característica comum à ovinocultura, a proximidade entre o produtor e o rebanho.

Criação exige acompanhamento constante ao longo de todo o ano | Foto: Márcia Bastos / Divulgação / CP

Época de reproduzir

A estação reprodutiva ocorre justamente no período de temperaturas mais elevadas do ano, o que exige cuidados adicionais. O calor interfere no comportamento dos ovinos e pode afetar o desempenho produtivo quando não há adaptação adequada às condições climáticas.

O estresse térmico provoca mudanças no comportamento e reduz o consumo de alimentos. “Os animais acabam diminuindo o consumo de matéria seca nas horas mais quentes e procuram sombra”, explica a zootecnista Laila Simon, da Emater/RS-Ascar. Essa mudança afeta diretamente o ganho de peso e a condição corporal das ovelhas, fatores decisivos para o desempenho reprodutivo.

Segundo Laila, o acesso à água é um dos pontos mais importantes durante o verão, especialmente nos sistemas extensivos. “Muitas vezes o animal não tem acesso próximo à água, e isso acaba limitando o consumo”, observa. A presença de sombra também ajuda a reduzir o impacto das temperaturas elevadas. Árvores ou estruturas artificiais permitem que os animais suportem melhor o calor e favorecem o consumo de alimento, contribuindo para manter a condição corporal das matrizes durante o período reprodutivo.

Nos sistemas em que há suplementação alimentar, a orientação é oferecer o alimento nos períodos mais frescos do dia, quando os animais costumam se alimentar com maior regularidade e aproveitam melhor os nutrientes. Além da alimentação, os cuidados sanitários também se intensificam nessa época. Em anos mais chuvosos, por exemplo, a incidência de verminoses tende a aumentar, exigindo maior atenção dos produtores no monitoramento do rebanho e na adoção de tratamentos específicos.

Estresse térmico provoca mudanças no comportamento e reduz o consumo de alimentos | Foto: Rafael Cargianni / Divulgação / CP

Confiança no próximo ciclo

Enquanto o trabalho segue nas cabanhas e propriedades rurais do Estado, o setor observa um cenário considerado favorável para a comercialização. O presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Edemundo Gressler, afirma que a demanda por produtos da ovinocultura permanece elevada. “As principais feiras de verão tiveram resultados surpreendentemente positivos”, diz.

Segundo ele, houve forte comercialização tanto de rebanhos comerciais quanto de reprodutores, sinalizando confiança dos produtores no ciclo produtivo em andamento. Gressler destaca que a atividade envolve diferentes segmentos além da carne ovina, como a produção de lã e a comercialização de genética, que também contribuem para a renda dos criadores e ajudam a sustentar a atividade ao longo do ano.

“Os mercados super aquecidos, não só o mercado de carne, houve também uma melhora significativa na comercialização das nossas lãs de alta qualidade e que são demandadas pelos mercados internacionais”, afirma.

Na avaliação do dirigente, as perspectivas para o próximo ciclo são positivas, com expectativa de boa eficiência reprodutiva e aumento da produção de cordeiros para atender à demanda do mercado. O desafio do setor é ampliar a produção para suprir o consumo interno e as oportunidades de exportação, mantendo ao mesmo tempo a eficiência produtiva dos rebanhos. “Vivemos um momento importante, de otimismo, mas fundamentalmente também precisamos de maior eficiência.”

O verão representa o período em que se constrói a safra da ovinocultura. É quando o trabalho se intensifica no campo e a presença do produtor se torna mais constante, em uma rotina marcada pela observação diária dos animais e pela adaptação às condições do clima. A lida do verão antecede o nascimento dos cordeiros, que vem no final do inverno, para iniciar a primavera e sustenta a continuidade da atividade nas propriedades rurais do Rio Grande do Sul.

*sob a supervisão de Karina Reif

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