Lembrado nesta quinta-feira, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo chama a atenção para a necessidade de aumento do conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A data busca também promover a inclusão, além de reduzir a discriminação e o preconceito, reforçando a necessidade de políticas públicas.
O dia foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007 e tem no azul a cor utilizada na promoção da conscientização. A cor foi escolhida por haver maior prevalência em meninos e por trazer a sensação de calma.
Debates sobre a inclusão, especialmente no ambiente escolar, têm ganhado força nos últimos anos. Dados do Ministério da Educação apontam que o número de estudantes com autismo nas escolas brasileiras aumentou mais de 50% desde 2022, superando os 630 mil alunos. Destes, mais de 95% estão em turmas regulares.
No Brasil, cerca de 2,4 milhões de pessoas já receberam diagnóstico de autismo. Em todo o mundo, estimativas recentes apontam que uma a cada 31 crianças está dentro do espectro.
Diretora da Clínica de Estudo e Desenvolvimento Infantojuvenil (CEDIJ), a fonoaudióloga e especialista em neurodesenvolvimento, Luciana Kael, aponta que ainda existe um distanciamento entre a compreensão do autismo e o acolhimento. “Conscientizar é o primeiro passo, mas a inclusão acontece quando esse entendimento se traduz em prática, seja na escola, no ambiente de trabalho, ou em espaços cotidianos como lojas e centros comerciais”, afirma.
Conforme Luciana, ambientes considerados comuns para a maioria das pessoas podem ser altamente desafiadores para indivíduos com autismo. Ela explica que iluminação intensa, excesso de estímulos visuais, ruídos elevados e mudanças inesperadas podem gerar sobrecarga sensorial, ansiedade e até crises. “Muitas vezes, o comportamento de uma criança autista nesses contextos é interpretado como inadequado, quando, na verdade, é uma resposta a um ambiente que não está preparado para recebê-la”, explica.
Mesmo com esses desafios, o aumento da inclusão desses espaços não exige mudanças complexas, mas sim intencionalidade. Medidas como a redução de estímulos sonoros em determinados períodos, a criação de espaços de pausa, a melhoria na sinalização e o treinamento de equipes para um atendimento mais empático já têm impacto significativo. “Inclusão não é sobre adaptar tudo, mas sobre considerar o outro. Pequenas mudanças podem transformar completamente a experiência dessas famílias”, destaca Luciana.
Para a especialista, o avanço na conscientização precisa vir acompanhado de mudanças culturais e estruturais. “Falar sobre autismo é essencial, mas o verdadeiro avanço acontece quando a sociedade se organiza para acolher — com empatia, informação e respeito às diferenças”, finaliza.
Guia online ajuda famílias a lidarem com o diagnóstico
O recebimento do diagnóstico de autismo costuma marcar o início de uma nova fase para muitas famílias. Entre dúvidas, decisões e sobrecarga emocional, o questionamento sobre o que deve ser feito surge imediatamente. Além de compreender o que é o TEA, entender como acessar um cuidado adequado também é apontado como desafio.
Para esclarecer esses pontos, a Genial Care, rede especializada no desenvolvimento de crianças com autismo, lançou o “Guia Rápido sobre Autismo”, que pode ser acessado gratuitamente. O material reúne orientações práticas para os primeiros momentos após o diagnóstico, ajudando famílias a compreender e organizar os próximos passos. “O diagnóstico é um ponto de partida, não de chegada. A partir dele, a família precisa tomar decisões importantes sobre intervenções, profissionais e rotina de cuidado. Ter acesso a informação confiável e baseada em evidências faz diferença direta na trajetória de desenvolvimento da criança”, afirma a vice-presidente clínica da Genial Care, Thalita Possmoser.
O guia aborda desde os sinais mais comuns do autismo, como dificuldades de comunicação, interação social e padrões de comportamento restritos e repetitivos, até a importância de uma avaliação multidisciplinar qualificada. O material também reforça que o TEA é uma condição do neurodesenvolvimento, e não uma doença, o que significa que não há cura, mas sim a necessidade de acompanhamento contínuo e individualizado.
Outro ponto central é a explicação sobre como o cuidado se organiza na prática. No Brasil, a jornada das famílias costuma passar pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou pela saúde suplementar. Com a Lei Berenice Piana, o autismo passou a ser reconhecido como deficiência para todos os efeitos legais, garantindo o direito ao tratamento integral. O guia completo pode ser acessado diretamente no site da Genial Care.
Novos centros de acolhimento habilitados no RS
O governo do Estado habilitou nesta semana os municípios de Tapes e Eldorado do Sul a receberem centros de atendimento em saúde (CAS) do Programa TEAcolhe. Com as habilitações, o Rio Grande do Sul passa a contar com mais de 85 unidades distribuídas em todas as regiões do Estado, ampliando a rede de cuidado destinada às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e suas famílias.
O TEAcolhe é um serviço especializado do governo do Estado, executado pela SES e voltado ao atendimento gratuito e multidisciplinar de pessoas com TEA, visando à inclusão e ao apoio especializado, com dezenas de centros distribuídos pelo Estado.
Cada CAS conta com uma equipe composta por pelo menos seis profissionais, como psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e médicos especialistas, todos com formação específica no atendimento ao TEA. A iniciativa também oferece suporte às famílias e às redes municipais de saúde, educação e assistência social.