Saúde

Formação médica deve considerar necessidades do Sistema de Saúde, defende secretário em congresso em Porto Alegre

Representante do Ministério da Saúde participou do 64º Congresso Brasileiro de Educação Médica e destacou desigualdades na distribuição de médicos e necessidade de ampliar a formação de especialistas

Secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde falou sobre integração do ensino com as necessidades da população
Secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde falou sobre integração do ensino com as necessidades da população Foto : Marlon Max / Ministério da Saúde / Divulgação / CP

Porto Alegre concentra, até domingo, discussões sobre os rumos da formação médica no Brasil durante o 64º Congresso Brasileiro de Educação Médica (Cobem), realizado no Centro de Eventos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Nesta quinta-feira, primeiro dia do evento, o secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Felipe Proenço, defendeu que a formação dos profissionais seja planejada de acordo com as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Não faz mais sentido a gente discutir formação na saúde se a gente não discutir a necessidade do sistema de saúde”, afirmou Proenço durante a mesa “Formação médica e desenvolvimento da força de trabalho para os sistemas de saúde”. O debate também teve a participação de Champion N. Nyoni, da Organização Mundial da Saúde (OMS) na África, e de Christian Morales, da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Durante a fala, o secretário relacionou a formação médica às desigualdades territoriais do país. Segundo ele, embora o Brasil tenha ampliado o número de vagas de graduação, a distribuição dos profissionais e especialistas ainda apresenta diferenças entre as regiões. O Rio Grande do Sul registra cerca de 3,2 médicos por mil habitantes, apenas atrás do Sudeste com 3,4.

A distribuição dos profissionais também foi abordada por Champion N. Nyoni, da OMS na África. Segundo ele, em parte do continente africano, ministérios da Saúde e universidades estão concentrados nos centros urbanos, enquanto uma parcela significativa do atendimento médico ocorre em áreas rurais. O cenário, segundo Nyoni, evidencia uma distância entre a formação oferecida e a realidade encontrada pelos profissionais.

“Precisamos repensar a forma como preparamos nossos estudantes”, afirmou o professor natural do Zimbábue, que atualmente lidera o portfólio de Educação e Treinamento da Força de Trabalho de Saúde no Escritório Regional da OMS para a África.

Mais especialistas

Outro ponto destacado foi a diferença entre o número de concluintes da graduação e a oferta de vagas de residência de acesso direto. Proenço afirmou que essa relação chegou a cerca de meia vaga de residência para cada egresso de medicina.

A expectativa apresentada por ele é elevar essa proporção para 0,75 vaga por concluinte nos próximos dez anos. Segundo o secretário, o Ministério da Saúde atualmente financia bolsas para cerca de 34 mil médicos residentes. A ampliação da formação de especialistas, afirmou, deve estar relacionada às necessidades de atendimento do SUS e à distribuição dos profissionais pelo território nacional.

“Investir na formação de especialistas e fortalecer a força de trabalho é ampliar a capacidade do sistema de saúde de responder às necessidades da população, ampliar acesso e reduzir a espera”, disse.

A medicina de família e comunidade foi citada como uma das áreas que tiveram maior crescimento nos últimos anos. Proenço também mencionou a necessidade de ampliar a formação em especialidades consideradas estratégicas para o sistema, como anestesiologia e radioterapia. Ele afirmou que o governo prepara um edital a ser lançado nos próximos dias para a abertura de cerca de 2 mil vagas de residência, com destaque para 500 em anestesiologia.

Congresso reúne autoridades da saúde

Promovido pela Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), o 64º Cobem segue até domingo e reúne docentes, estudantes, pesquisadores, preceptores, residentes, gestores e profissionais de diferentes regiões do país e do exterior. Com o tema “Diretrizes da Educação Médica: Avaliação e Qualidade a Serviço de Toda a Sociedade”, o congresso discute as novas Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina e os impactos das mudanças na formação dos profissionais.

A programação inclui debates sobre avaliação de estudantes e escolas médicas, graduação, residência, integração entre ensino e serviço e formação para o SUS.Também estão previstos painéis sobre inteligência artificial, saúde planetária, saúde mental e bem-estar, além da apresentação de trabalhos científicos e atividades de troca de experiências entre participantes.

Entre os representantes estão integrantes dos ministérios da Saúde e da Educação, do Conselho Nacional de Educação (CNE), do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), além de especialistas de instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde Europa, e Universidades dos Estados Unidos.