Saúde

IA dá autonomia nos trabalhos administrativos e devolve tempo na relação médico-paciente, afirmam especialistas

Painel “Devolvendo o Médico ao Paciente: Como a IA Pode Eliminar a Fricção da Saúde” abriu o Summit Talks: IA na Medicina, que ocorre nesta quarta-feira na Feevale

A participação foi de Thiago José Dal Bosco, Vinicius Nain e Felipe Cabral, com moderação de Eduardo Neubarth Trindade
A participação foi de Thiago José Dal Bosco, Vinicius Nain e Felipe Cabral, com moderação de Eduardo Neubarth Trindade Foto : Mauro Schaefer

Automação no processo sem substituir o contato humano, mais tempo para o paciente, segurança no atendimento, melhor qualidade de decisão e menos carga administrativa. As ferramentas de Inteligência Artificial estão cada vez mais indispensáveis para o trabalho do médico. Em uma atividade que costuma demandar muito tempo e energia para diferentes processos, muitos deles administrativos, a automação é essencial para facilitar o trabalho, de modo que o tempo possa ser aproveitados no atendimento, mas também, na elaboração de diagnósticos, tratamentos e prevenção de doenças. Especialistas, no entanto, atentam para o uso da ferramenta com precisão.

O tema abriu o Summit Talks: IA na Medicina, evento promovido pelo Correio do Povo na Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. O encontro busca discutir os desafios, as oportunidades e os impactos da inteligência artificial na prática médica.

O painel “Devolvendo o Médico ao Paciente: Como a IA Pode Eliminar a Fricção da Saúde” contou com a participação de Thiago José Dal Bosco, especialista em Medicina do Trabalho, conselheiro do CREMERS e especialista sênior em saúde corporativa e tecnologia; Vinicius Lain, cirurgião vascular, professor da UCS, conselheiro do CREMERS, diretor de Tecnologia da Unimed Serra Gaúcha e fundador da Nosia e Felipe Cabral, gerente médico de Saúde Digital do Hospital Moinhos de Vento e referência nacional em Inteligência Artificial aplicada à saúde. A moderação foi de Eduardo Neubarth Trindade, vice-presidente do CREMERS, professor da UFRGS e cirurgião do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e do Hospital Moinhos de Vento.

Essa fricção é gerada quando se gasta energia em um trabalho que poderia ser aproveitado de maneira mais facilitada, destacou Thiago Dal Bosco. A resposta está nos estudos que indicam que o médico dedica exclusivamente à atenção do paciente apenas 27% do seu tempo, e 47,2% são dedicados para trabalhos administrativos e de documentação. Ou seja, menos de 1/3 do tempo dedicado ao paciente.

O profissional ressaltou que a fricção está na documentação, no registro clínico, no preenchimento de papelada, em autorizações e até na chamada do paciente. "Quantos de nós, médicos, já nos vimos cansados porque terminou uma consulta e tem um monte de papel para preencher. O paciente sai achando que não tivemos tempo para olhar para ele. Isso tudo teve o custo do tempo."

Dessa maneira, há ferramentas que podem ser incorporadas ao trabalho da medicina para que automatize atividades que causam essas fricções, como na organização e na compilação de dados, mas que não substituam a autonomia do médico. "Existe automação e existe IA", ressaltou.

Dal Bosco acrescentou que a qualidade da resposta depende da qualidade da pergunta. Portanto, é importante dar um contexto para a IA, deixando claro o que quer e quais são as diretrizes. A tecnologia também tem as suas fraquezas, e pode preencher lacunas apresentando confiança, mas criando referências e dados falsos.

Entre as principais dicas, o profissional pontuou que é importante estabelecer um problema clínico com contexto, estabelecer uma pergunta bem delimitada, definir a fonte, ver se a reposta é útil e sempre validá-la depois, consultando direto na fonte.

"A IA não faz medicina, mas potencializa a medicina. Acho que todo mundo pode estar preparado para usar a IA, com critério, ética e evidência", destacou Dal Bosco. As ferramentas colaboram para que o médico passe mais tempo com o paciente e, também, dê mais segurança ao atendimento, com melhor qualidade de decisão e menos carga administrativa. Independentemente da potencialidade da tecnologia, o profissional ressalta que a responsabilidade continua sendo do médico.

A IA como auxílio no contato humano

A continuidade do cuidado do encontro entre médico e paciente foi destacada por Lain. Ele reflete que, hoje, há uma insatisfação dos pacientes com a ausência dos médicos em uma consulta. "O objetivo da medicina é o ser humano e a gente precisa centralizar isso."

Para o especialista, a inteligência artificial precisa ser uma ferramenta que auxilie nessa atenção. Com elas, é possível reunir um histórico do paciente para auxiliar em um diagnóstico ou tratamento, que leva em consideração patologias multifuncionais. Nas suas palavras, a tecnologia pode "juntar o caos de dados" em um sistema inteligente para organizar e fazer sentido em uma consulta.

Para Lain, a tecnologia auxilia a enxergar o paciente de forma longitudinal, passando de uma medicina considerada reativa, quando o paciente procura atendimento apenas se está mal, e passa a ser mais preditiva e antecipatória. "A gente consegue organizar a vida do paciente e chegar até uma medicina antecipatória." Com a organização, o médico está mais disponível para o paciente e, também, preserva a própria saúde sem trabalhos extras. "A gente se transforma em um médico muito mais onipresente."

O potencial de um bom prompt

Para que todo esse trabalho seja otimizado com a tecnologia, é necessário saber utilizar bons prompts, com a instrução ou o comando enviado para a IA, destacou Felipe Cabral. Em sua fala, destacou o potencial das ferramentas para tarefas administrativas, como para o controle dos casos dos pacientes, para a escala de plantão, para a elaboração de relatórios e para outros sistemas que podem ser otimizados pela IA.

Cabral apresentou algumas técnicas que utiliza no seu dia a dia para elaborar prompts em sites ou aplicativos, e destacou regras importantes para o primeiro prompt. A principal delas é começar o comando pela dor, não pela solução. Ou seja, deixar claro qual é o desafio. Mostrada a solução, é necessário, também, cortar tudo que possa ser descartados.

A ideia foi utilizada na faculdade de Medicina do Hospital Moinhos de Vento, em que estudantes criaram 54 aplicativos para otimizar atividades que causam fricção no trabalho com a área da saúde. "Conseguiram tirar as dores do papel e transformar em um sistema funcionante."

Para Cabral, quando se pensa na utilização da IA para resolver problemas, a principal pergunta que deve ser feita não é "quem vai construir pra mim", mas sim, "qual dor eu resolvo primeiro?", de modo que as ferramentas os profissionais consigam resolver problemas que, antes, seriam apenas a cargo da T.I, mas que, hoje, podem ser cada vez mais automatizados.

O Summit Talks: IA na Medicina é uma realização do Correio do Povo e da Universidade Feevale, com patrocínio do Cremers e apoio da Unimed Vale do Sinos e da Unicred.

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